Os dois grandes bancos públicos brasileiros fecharam o 1º trimestre de 2026 com resultados inferiores aos apurados em 2025. O lucro líquido contábil da Caixa no 1º trimestre deste ano foi de R$ 3,4 bilhões, queda de 42,3% na comparação com o mesmo período de 2025. O BB registrou retração de 53,5% no lucro. A explicação para as quedas também tem uma causa em comum: os dois bancos levaram calotes monumentais do agronegócio. Na Caixa, a Provisão de Crédito de Liquidação Duvidoso (PCLD) saltou 211% em relação ao primeiro trimestre de 2025. A provisão neste trimestre foi de R$ 6,5 bilhões contra R$ 2,1 bilhões um ano atrás.
Deste valor de R$ 6,5 bilhões, o agro sozinho responde por 18,2%. Na lista dos maiores inadimplentes, as grandes empresas do varejo e da construção civil completam as três primeiras posições atrás do agro. O dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Ronan Teixeira chama atenção para o tamanho do calote e adverte que a crise ambiental não é passageira. “Como é sabido, o capitalismo está em crise permanente já faz um bom tempo. As crises econômica, política, social e ambiental, só para citar as mais centrais, não são passageiras, mas estacionárias. Vamos ser honestos, em relação à crise ambiental não existe neste momento nenhuma perspectiva de mudança profunda para conter as tragédias ecológicas que já estão contratadas, justamente porque essas políticas ambientais para mitigar danos estão na contramão da expansão predatória do capitalismo. Em última análise, isso significa que teremos novas crises ecológicas afetando a produção do agro, que irá novamente dar calotes nos bancos em razão dos revezes na safra. É um ciclo recorrente no qual os bancos públicos acabam pagando a maior parte desta conta”, analisa Ronan.
O dirigente cita como exemplo o Plano Safra 2025/2026, que bateu novo recorde histórico. O governo federal destinou R$ 605 bilhões para o biênio em curso. Deste montante, destaca Ronan, cerca de R$ 516 bilhões foram destinados para os grandes empresários do agronegócio e apenas R$ 89 bilhões para a agricultura familiar. “Quem realmente põe comida no prato dos brasileiros, que é a agricultura familiar, ficou com a menor parte do bolo”, critica. Ele afirma que a Caixa e o BB, como os dois grandes indutores deste linha de crédito que vai sobretudo para o agro, passam a ser credores em potencial destes devedores. “É exatamente o que vem ocorrendo na prática”.
Caixa é referência social
A queda do lucro não reduz a importância da Caixa para os programas sociais. Ao contrário, essas operações crescem mês a mês. A carteira de crédito da Caixa encerrou março de 2026 em R$ 1,410 trilhão, crescimento de 11,3% em 12 meses e de 2,3% na comparação com dezembro de 2025. O principal destaque segue sendo o crédito imobiliário, que avançou 13,9% em relação a março do ano passado.
Somente no primeiro trimestre, a Caixa contratou R$ 64,2 bilhões em crédito imobiliário, aumento de 30,6% em relação ao mesmo período de 2025. Segundo o banco, as operações permitiram o acesso de 702,4 mil pessoas à moradia própria e contribuíram para a geração de 517 mil empregos diretos e indiretos.
O banco também manteve papel central na execução das políticas públicas do governo federal. No trimestre, foram pagos R$ 105,5 bilhões em benefícios sociais e programas governamentais. Entre os principais itens estão R$ 38,4 bilhões do Bolsa Família, R$ 42,8 bilhões em benefícios do INSS, R$ 13,5 bilhões em seguro-desemprego e R$ 4,6 bilhões em abono salarial.
As operações da Caixa relacionadas a programas sociais e linhas de crédito, como o financiamento imobiliário, aponta Ronan, confirmam a importância da instituição como agente de fomento e pilar das políticas sociais do governo. “Ao mesmo tempo em que a Caixa desempenha esse papel social central, a atual gestão do banco se recusa a desenvolver uma política que valorize as empregadas e os empregados da Caixa. Estamos com os quadros de pessoal defasados há anos. O resultado é a sobrecarga de trabalho e o consequente adoecimento dos empregados, especialmente o mental. Vamos para as negociações específicas deste ano decididos a solucionar os principais problemas que afetam os empregados e empregadas da Caixa hoje”, enfatiza Ronan.
Entre os pontos que devem ganhar espaço nas discussões deste ano no Conecef (Congresso Nacional das Empregadas e Empregados da Caixa Econômica Federal), os destaques são:
- Super Caixa e Remuneração Variável: exigência de revisão urgente nas regras do programa Super Caixa (comissão e Bônus), cobrando o fim das metas. Garantir que o pagamento de remuneração variável seja transparente e igualitário. Assegurar ainda que o programa de remuneração variável não seja um expoente do adoecimento, sobretudo mental da categoria;
- Saúde e Condições de Trabalho: combate direto à sobrecarga, adoecimento da categoria, assédio moral e sexual. A categoria também reivindica a implementação de políticas eficazes de prevenção e melhorias nas condições ergonômicas e de ambiente de trabalho;
- Saúde Caixa: defesa do custeio do plano com reajuste zero nas mensalidades para os empregados e fim do teto de gastos imposto pelo banco;
- Funcef e Carreira: fim do equacionamento do fundo de pensão com devolução de direitos, reestruturação da Funcef e valorização do plano de carreira do quadro de pessoal.

