Mulheres trans e lésbicas e a diversidade nos bancos

29/06/2026 11:55

Bancárias do Banco do Brasil e da Caixa contam suas histórias e desafios enfrentados no ambiente trabalho

Nos últimos anos, os bancos brasileiros implementaram políticas de promoção da diversidade LGBTQIA+, como reconhecimento de companheiros(as) nos planos de saúde e previdência, garantia de licença parental para casais homoafetivos, adoção de nome social para pessoas trans, criação de grupos e redes de apoio internos e programas de formação e sensibilização para combater a LGBTfobia no ambiente de trabalho.

Apesar desses avanços, ainda existem desafios: preconceito velado, barreiras para progressão na carreira e limitação da representatividade LGBTQIA+ em cargos de liderança.

Para a diretora do Sindibancários/ES, Nathalia Gallini, o preconceito não se manifesta mais de forma escancarada, mas sim operando de forma sutil, sofisticada e covarde, presente no silenciamento, no isolamento e na falta de oportunidades reais.

“Não podemos aceitar que a pauta da inclusão seja esvaziada e transformada em métrica de vaidade corporativa. Lutamos por direitos iguais, por respeito à população e aos funcionários LGBTQIA+ e pela defesa à verdadeira diversidade que se faz com igualdade salarial, transparência total nos critérios de ascensão de carreira, fim do assédio moral e com a garantia de que o ambiente de trabalho seja seguro e digno para todas as pessoas”, declarou.

Representatividade

Marcela Bosa é bancária do BB e autora do livro “Ma: Eu, Mulher Trans”

Marcela Bosa, bancária há 19 anos, hoje cedida do Banco do Brasil para a Cielo, acredita que ocupar um espaço de liderança sendo uma mulher trans é uma questão de representatividade. “Até onde eu tenho conhecimento, eu fui a primeira pessoa trans a ocupar um cargo de gerente geral no sistema financeiro. Eu acho que a minha ascensão permite mostrar que é possível. Não é fácil, não é trivial, mas aos poucos a gente está conseguindo alcançar novos cargos”, destacou a bancária.

Apesar de já ter passado por situações de preconceito bem diretas, Marcela considera que o viés inconsciente das pessoas é um dos maiores desafios que enfrenta, pois é velado: “A pessoa está fazendo um julgamento de caráter com base em coisas que ela, às vezes, nem compreende, mas ela aprendeu tanto que pessoas trans são erradas, que a gente é promíscua, que a gente não é competente.

E isso é cansativo também, porque a gente está mostrando que é competente o tempo todo. Até porque se eu falhar, qualquer falha minha vai ser diferente de uma falha de um homem branco hétero. O erro não vai ser só meu, vai ser do coletivo. Assim como esse julgamento também acontece com as mulheres cisgêneras, pessoas negras e pessoas com deficiência. Todo grupo sub-representado passa por esses vieses inconscientes”, completou.

Independência

Gilsara Ventura (dir.), bancária da Caixa, e sua esposa Aline

Gilsara Ventura da Silva, diretora do Sindibancários/ES e funcionária da Caixa, entrou no banco com 40 anos, o que possibilitou sua independência financeira: “Foi no banco que eu resolvi minha vida todinha. Fiz faculdade e me assumi, porque eu tive o apoio financeiro que eu não tinha antigamente. Era muito difícil me assumir pra minha família sem ter como me bancar. A partir do momento que eu me banquei, fui dona do meu nariz”, conta.

“Algumas pessoas sabiam de mim, outras não. A partir do momento que eu fui pegando segurança, eu me assumi para todo mundo. Agora todo mundo sabe. Eu falo que eu sou uma das poucas assumidas lá na agência e sou muito respeitada e querida, é uma família que eu arrumei”, contou a dirigente.

Segundo Gilsara, sua maior dificuldade não foi se assumir no ambiente do trabalho, mas no familiar: “Eu estou naquela fase que eu não levo o desaforo para casa. Eu não tenho mais esse problema. Enfrentei mais [o desafio] de falar pra minha família”.

Liderança e segurança no local de trabalho

Tanto Marcela quanto Gilsara acreditam que a criação de políticas mais inclusivas que promovam um espaço de segurança psicológica são fundamentais para que as pessoas se sintam seguras para se expressarem e serem quem são no ambiente de trabalho.

A presença de pessoas LGBTQIA+ em cargos de liderança também foi um dos pontos citados como importante na promoção da diversidade no mundo bancário.

“Eu acho que os primeiros passos já foram dados, essa geração nova que está entrando está muito mais adepta, muito mais diversa. Está faltando as pessoas ascenderem a cargos de liderança, porque a liderança acontece pelo exemplo. Ela acontece muito pelo espelhamento de cima, quando os diretores, presidente, vice-presidente, não só falam uma coisa, mas vivem aquilo também”, afirmou Marcela.