De acordo com um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgado nesta quinta-feira (22), o chamado “tesouraço” do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), pode eliminar cerca de 2,2 milhões de postos de trabalho e diminuir em R$ 68,7 bilhões a massa salarial, só em 2027. Os cortes seriam necessários para reduzir os gastos do governo em R$ 200 bilhões.
O Dieese aponta que a redução de gastos traria impactos negativos de 1,55% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e queda de R$ 46,8 bilhões na arrecadação de impostos, em um eventual primeiro ano de governo do atual senador.
Como a equipe econômica de Flávio nem o próprio candidato detalham, publicamente, como serão as medidas para chegar ao corte de cerca R$ 200 bilhões do “tesouraço”, para avaliar os impactos do reajuste fiscal sobre o PIB e o emprego, o Dieese partiu da hipótese de congelamento das despesas primárias em termos reais, corrigidas pela inflação estimada em 4,5%.
O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), adverte que as declarações de Flávio e da sua coordenadora econômica, Daniella Marques, deixam evidências claras de que os cortes vão recair nas costas da classe trabalhadora com demissões de funcionários públicos e privatizações de empresas estatais.
“O Flávio não gosta dos sindicatos porque defendemos os interesses da classe trabalhadora. O projeto do candidato da extrema direita é impor medidas para precarizar as relações de trabalho. Ele quer que esse corte de R$ 200 bilhões saia do bolso do trabalhador. Não por acaso, ele ataca o movimento sindical no seu programa de governo o rotulando com o título pejorativo de ‘República Sindical’, dando a entender que as entidades atrapalham a livre negociação entre empregado e patrão. Não era de se estranhar que ele tenha se posicionado desde o início contra o fim da 6X1, defendendo que a negociação da jornada de trabalho fosse negociada diretamente com o empregador”, recorda Carlão.
Parte desse corte, continua o dirigente, virá dos aposentados e aposentadas que trabalharam a vida inteira. “A reforma da Previdência, imposta pelo pai, Jair, em 2019, ganharia uma versão mais draconiana com o filho. Esses R$ 200 bilhões que ele promete cortar têm de sair de algum lugar e, novamente, o alvo preferencial são os trabalhadores aposentados. O ‘tesouraço’ do Flávio nunca mira os mais ricos”, critica Carlão.
Ainda, segundo o estudo do Dieese, pode haver uma queda significativa na arrecadação de impostos (cerca de R$ 46 bilhões), em decorrência do forte ajuste fiscal. Isso reduziria em 40% a economia bruta que seria obtida pelo “tesouraço” defendido por Flávio Bolsonaro.
“Decretaço” contra direitos trabalhistas, estatais e meio ambiente
Flávio também tem 200 decretos já prontos para serem assinados no primeiro dia de governo, caso seja eleito. A informação é do Correio Brasiliense, repassada ao jornal por aliados do candidato e que disseram, ainda, que a maioria é sobre normas trabalhistas, incluindo medidas para reverter a PEC do fim da escala 6×1 e a organização da jornada de trabalho.
O “decretaço” conta ainda com textos para a privatização de estatais, restrição da fiscalização de órgãos ambientais sobre áreas de vegetação, alterações em normas econômicas e na organização administrativa do Poder Executivo, acabando com conselhos, comitês e grupos de trabalho.
Leia a íntegra da nota à imprensa do Dieese sobre os impactos do “tesouraço”
TESOURAÇO DE FLÁVIO BOLSONARO PODE ELIMINAR 2,2 MILHÕES DE EMPREGOS E RETIRAR
R$ 68,7 BILHÕES DA RENDA DOS TRABALHADORES, REVELA ESTUDO INÉDITO DO DIEESE
Levantamento realizado a pedido das centrais sindicais aponta que o corte de quase R$ 200 bilhões pode provocar recessão, aumentar o desemprego e aprofundar a desigualdade social, sem sequer garantir a estabilização da dívida pública.
Um estudo inédito elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), a pedido das centrais sindicais, revela os possíveis impactos do tesouraço de quase R$ 200 bilhões proposto por Flávio Bolsonaro. Os números são alarmantes: 2,2 milhões de postos de trabalho a menos, perda de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e impacto negativo de R$ 203,1 bilhões sobre o Produto Interno Bruto (PIB) já no primeiro ano de implementação, em 2027.
A simulação considera um corte de R$ 194 bilhões, equivalente a 1,5% do PIB. Segundo o DIEESE, o tesouraço provocaria uma redução estimada de 1,55% no PIB em relação ao cenário sem ajuste, atingindo diretamente o emprego, a renda dos trabalhadores, o consumo das famílias e a atividade econômica.
O estudo revela ainda uma contradição: ao enfraquecer a economia, o próprio tesouraço comprometeria parte da economia prometida. A queda na arrecadação de impostos seria de R$ 46,8 bilhões, o que, segundo os cálculos apresentados pelo DIEESE, consumiria 40% da economia bruta prevista com o ajuste inicial.
Tesouraço pode elevar desemprego a 7,4 milhões de brasileiros
As projeções do DIEESE indicam que, mesmo no cenário mais otimista, a economia brasileira cresceria apenas 0,91% em 2027, ritmo insuficiente para absorver a entrada de novos trabalhadores no mercado de trabalho.
No cenário pessimista, o Brasil entraria em recessão, com retração de 0,15% do PIB. O número de desempregados poderia saltar de 5,8 milhões para 7,4 milhões de pessoas, com a taxa de desocupação chegando à faixa de 6,5% a 7%.
O resultado seria um mercado de trabalho mais restrito, com menos oportunidades de emprego e perda de renda para milhões de famílias brasileiras.
Aposentadorias, benefícios sociais e trabalhadores podem pagar a conta do tesouraço
Para alcançar um corte dessa magnitude, o estudo considera que seria necessário atingir algumas das maiores despesas do orçamento federal.
Na distribuição simulada pelo DIEESE, 51% dos cortes recairiam sobre transferências de renda, incluindo Previdência Social, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial. Outros 17% atingiriam despesas com pessoal e 32%, as demais despesas públicas.
Isso significa que aposentados, pensionistas, trabalhadores desempregados, pessoas com deficiência, idosos de baixa renda e servidores públicos estariam entre os grupos potencialmente afetados.
Além disso, o congelamento real dos gastos restringiria a expansão dos benefícios, as contratações de servidores e os investimentos públicos, comprometendo a capacidade do Estado de acompanhar o crescimento da população e atender às suas necessidades.
Tesouraço sacrificaria empregos e renda sem resolver o problema da dívida pública
Além dos impactos negativos sobre a economia e a população, o DIEESE aponta que o tesouraço não alcançaria sequer seu principal objetivo anunciado.
A perda de R$ 46,8 bilhões em arrecadação, equivalente a 40% da economia bruta prevista segundo o estudo, reduziria significativamente o efeito fiscal dos cortes. O resultado primário estimado seria de aproximadamente R$ 89 bilhões, equivalente a 0,7% do PIB, no primeiro ano.
Mesmo no cenário mais otimista, o corte de quase R$ 200 bilhões não seria suficiente para estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB.
A conclusão do estudo é que o tesouraço pode combinar baixo crescimento econômico, aumento do desemprego, redução da renda dos trabalhadores e aprofundamento das desigualdades econômicas e sociais, sem resolver o problema fiscal que pretende enfrentar.
Na prática, a simulação aponta que milhões de brasileiros poderiam pagar a conta do tesouraço com seus empregos, salários e benefícios sociais, enquanto a dívida pública continuaria sem uma solução sustentável.
Fonte: Dieese. Estudo elaborado a pedido das centrais sindicais sobre os impactos econômicos e sociais de um ajuste fiscal de R$ 194 bilhões, com simulações para 2027.
(Matéria produzida com informações da Contraf)









