O acesso ao crédito, a possibilidade de investir na propriedade e a proteção diante das perdas provocadas por eventos climáticos são fundamentais para a sobrevivência da agricultura familiar. Nesse cenário, o Banco do Brasil (BB) tem papel estratégico: por meio de sua estrutura e de suas linhas de financiamento, ajuda a transformar políticas públicas em recursos que chegam ao campo, sustentam a produção e contribuem para o abastecimento de alimentos.
Os números do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) mostram a dimensão dessa política. De acordo com levantamento do Dieese, tendo como base dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, foram contratados R$ 198,5 bilhões em três safras durante o governo Lula, quase o dobro dos R$ 103,6 bilhões registrados nas três safras comparadas do governo Jair Bolsonaro. O número de operações também aumentou: passou de 4,32 milhões para 5,84 milhões, uma diferença de aproximadamente 1,5 milhão de contratos.

O avanço também aparece nas linhas voltadas a públicos específicos. O Pronaf B, destinado aos agricultores de menor renda, quase triplicou em valores, alcançando R$ 24,7 bilhões. As operações passaram de 2,15 milhões para 3,40 milhões. Já o Pronaf Mulher dobrou os recursos liberados, chegando a R$ 1,1 bilhão até o final de 2025. O Pronaf Bioeconomia cresceu de R$ 830 milhões para R$ 6,55 bilhões, enquanto os recursos destinados à agroecologia mais que dobraram.
O crédito para investimentos, que permite adquirir máquinas, melhorar instalações e modernizar as propriedades, também ganhou espaço. Sua participação no total do Pronaf passou de 41,6% para 48%. Na safra 2025/2026, os financiamentos para investimento somaram R$ 36,6 bilhões, superando os R$ 32 bilhões destinados ao custeio. A linha Mais Alimentos, voltada à modernização das propriedades familiares, cresceu 85%, passando de R$ 32 bilhões para R$ 59 bilhões.
Nesse processo, os bancos públicos são fundamentais. O levantamento aponta que, na comparação dos três primeiros anos de cada governo, o Banco do Brasil ampliou em 28% os recursos da linha Mais Alimentos, enquanto o Banrisul registrou crescimento de 77% e o BRDE, de 170%.
No Rio Grande do Sul, os recursos do Pronaf passaram de R$ 27,2 bilhões para R$ 46,4 bilhões, um aumento de 71%. Os dados também apontam expansão do crédito rural em municípios gaúchos, como Santa Maria, onde os financiamentos cresceram 17,7% entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025, e São Luiz Gonzaga, com alta de 38,3%.
Banco público transforma políticas em oportunidades
O Banco do Brasil não se limita a conceder empréstimos. Sua atuação permite operacionalizar parte das políticas de crédito rural, financiando o custeio das lavouras, a compra de insumos, máquinas e equipamentos e as melhorias na infraestrutura das propriedades. Também pode participar de medidas de prorrogação e renegociação de dívidas, conforme as regras estabelecidas pelo governo.
Na safra 2026/2027, o banco anunciou R$ 210 bilhões em recursos para o financiamento da produção rural, dos quais R$ 40 bilhões foram destinados a pequenos e médios produtores e R$ 170 bilhões à agricultura empresarial. O anúncio evidencia a dimensão da instituição no financiamento agrícola, embora esses valores representem recursos anunciados para financiamento, e não necessariamente dinheiro já integralmente liberado.
Como instituição controlada pela União, o BB tem condições de contribuir para a execução das políticas públicas e para o desenvolvimento econômico. Sua atuação, porém, depende das diretrizes governamentais, das regras de cada programa e da conciliação entre sua função pública e as exigências comerciais e financeiras.
A importância dessa estrutura fica ainda mais evidente quando se considera a realidade dos pequenos produtores, que precisam de crédito compatível com sua capacidade de pagamento, assistência técnica, acesso a mercados e condições para enfrentar perdas climáticas.
Enchentes expõem a vulnerabilidade dos agricultores
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul demonstraram como a agricultura familiar está exposta aos efeitos dos eventos climáticos extremos. O coordenador-geral da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS), Douglas Cenci, destaca que as características desse segmento ampliam sua vulnerabilidade.
“A agricultura familiar é extremamente atingida, não só porque ocupa um espaço de produção, que tem uma dinâmica que depende extremamente do clima, mas porque tem nas suas atividades econômicas, tamanho de área, uma vulnerabilidade maior”, afirma.
Segundo Cenci, o governo federal adotou medidas de socorro, incluindo descontos em financiamentos, apoio para novos créditos destinados à reconstrução e renegociação de dívidas. Conforme sua avaliação, a soma das medidas de crédito, dos recursos relacionados ao seguro agrícola e de outras políticas de enfrentamento chegou a cerca de R$ 20 bilhões em investimentos para minimizar os impactos das mudanças climáticas.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário também registra a destinação de R$ 100 milhões pelo governo Lula para o abatimento de dívidas de crédito rural relacionadas a empréstimos contraídos antes da enchente.
Para o dirigente, entretanto, o endividamento não pode ser analisado apenas como um problema financeiro individual. Ele está relacionado a um modelo produtivo que deixa os agricultores com margens reduzidas e dependentes de grandes corporações que controlam tanto a venda de insumos quanto a compra da produção.
“Se o agricultor tem uma margem muito pequena e qualquer frustração leva mais um pouco da margem dele, as políticas públicas não dão conta de abarcar esse prejuízo todo. Ele passa a se descapitalizar e passa a se endividar para conseguir se manter no campo e sobreviver”, explica.
Cenci defende a construção de um modelo produtivo que amplie a autonomia dos agricultores, reduza custos e o uso de produtos químicos, melhore a renda e permita enfrentar as mudanças climáticas. Para isso, além do financiamento, são necessárias políticas de assistência técnica, proteção contra perdas e melhorias nas condições de vida no campo, incluindo estradas, energia elétrica e telefonia.

Estufa do MST em Eldorado do Sul alagada durante as enchentes de 2024, ocorridas sob influência do El Niño no RS | Crédito: MST-RS
Crédito precisa vir acompanhado de assistência
O presidente da Redecoop – Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária, Alcione Piasentin Claro, também chama a atenção para os fatores que levam ao endividamento rural. Segundo ele, parte das dificuldades está relacionada a problemas climáticos, à gestão das propriedades e à aquisição de equipamentos que nem sempre correspondem às necessidades dos agricultores.
“Se não tiver assistência técnica não funciona, há questões estruturantes que precisam mudar”, afirma.
A avaliação reforça que o crédito é indispensável, mas não resolve sozinho os problemas da agricultura familiar. O financiamento precisa estar associado a orientação técnica, planejamento, tecnologias adequadas à realidade de cada propriedade e políticas que ajudem a garantir renda aos produtores.
Agricultura familiar no centro das políticas públicas
O ex-ministro do Desenvolvimento Agrário e deputado estadual Miguel Rossetto destaca a dimensão do apoio público à produção familiar e sua relação com a segurança alimentar do país.
“Os recursos para o crédito rural, seguro agrícola, assistência técnica são impressionantes. Na safra de 2026/2027, são quase R$ 100 bilhões de apoio aos agricultores familiares”, afirma, citando os R$ 97,3 bilhões (quase R$ 100 bilhões) do Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027, divulgado pelo Governo Federal em junho de 2026.
Rossetto também ressalta a importância dos programas de aquisição de alimentos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além das iniciativas de apoio a cooperativas e agroindústrias.
Essas políticas cumprem funções complementares. Enquanto o crédito permite financiar a produção e os investimentos, as compras públicas criam oportunidades de comercialização, contribuindo para dar maior previsibilidade à renda dos agricultores. A assistência técnica, por sua vez, ajuda a orientar decisões produtivas e a utilização dos recursos.
“Foi com o presidente Lula que a agricultura familiar foi reconhecida, teve visibilidade e foi respeitada”, avalia Rossetto.
O Banco do Brasil não executa sozinho todas essas iniciativas, que envolvem ministérios, órgãos públicos e diferentes instituições. Sua estrutura financeira, no entanto, é estratégica para fazer o crédito chegar aos produtores e apoiar parte dos objetivos estabelecidos pelas políticas agrícolas.
Dois projetos para o campo em debate
A importância dos bancos públicos também está em discussão diante das eleições presidenciais de 2026. Os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas para o setor agrícola, mas adotam ênfases diferentes em relação à agricultura familiar e, consequentemente, ao papel do BB nessas políticas.
O plano de Lula prevê ampliar o Plano Safra da Agricultura Familiar e o Pronaf, oferecer juros compatíveis com o perfil dos agricultores e os tipos de produção, priorizar alimentos da cesta básica e expandir a assistência técnica e a extensão rural. Também contempla agroecologia, produção orgânica, reforma agrária, compras públicas de alimentos e fortalecimento do seguro rural.
Nesse modelo, o Banco do Brasil pode contribuir diretamente para a execução das políticas de financiamento, por meio de linhas de custeio e investimento destinadas aos agricultores familiares, além de operações de apoio a produtores atingidos por dificuldades financeiras e climáticas, quando autorizadas pelas regras aplicáveis.
Já o programa de Flávio Bolsonaro enfatiza a reorganização das dívidas rurais por mecanismos de securitização, a ampliação do seguro agrícola, a irrigação, a infraestrutura logística, a armazenagem e a regularização fundiária. Embora essas medidas possam beneficiar diferentes categorias de produtores, o documento apresenta menos destaque para instrumentos específicos de apoio à agricultura familiar, como o Pronaf, a assistência técnica, a agroecologia e as compras públicas.
O contraste com o governo Bolsonaro
Os dados do Pronaf apresentados no levantamento indicam uma diferença expressiva entre os períodos comparados: R$ 198,5 bilhões contratados em três safras no governo Lula, ante R$ 103,6 bilhões nas três safras atribuídas ao governo Bolsonaro. O número de operações também foi maior no período Lula, com 5,84 milhões de contratos, contra 4,32 milhões.
Para Douglas Cenci, a diferença não se limita ao volume de crédito. Na avaliação do coordenador-geral da Fetraf-RS, o governo Lula retomou políticas de apoio à agricultura familiar que haviam perdido espaço no período anterior. Ele associa parte do endividamento atual às dificuldades acumuladas durante o governo Bolsonaro, à redução de incentivos e ao enfraquecimento de políticas públicas.
Cenci também alerta que a continuidade de medidas que reduzam a proteção social dos agricultores familiares pode ampliar a exclusão no campo. Em sua avaliação, propostas relacionadas a Flávio Bolsonaro, como o aumento da idade de aposentadoria rural, a desvinculação do benefício do salário mínimo e a redução de investimentos em saúde agravariam a situação de famílias que já enfrentam dificuldades econômicas e climáticas.
Defender o Banco do Brasil é defender o desenvolvimento
A agricultura familiar tem papel decisivo na produção de alimentos, na geração de renda e na manutenção das comunidades rurais. Para que os agricultores possam continuar produzindo, são necessários crédito acessível, investimentos, assistência técnica, seguro rural, infraestrutura e políticas de comercialização.
O Banco do Brasil ocupa uma posição estratégica nesse sistema. Sua capacidade de financiar custeio, máquinas, equipamentos e melhorias nas propriedades permite transformar parte das decisões de política econômica em oportunidades concretas para quem trabalha no campo.
O debate sobre o futuro da agricultura brasileira precisa considerar, portanto, não apenas o volume de recursos anunciado, mas também quem consegue acessá-los, em quais condições e com quais resultados. A ampliação do crédito para a agricultura familiar, a proteção diante de eventos climáticos e o fortalecimento das políticas públicas são elementos fundamentais para reduzir o endividamento, garantir a permanência das famílias no campo e preservar a produção de alimentos.
Nesse contexto, preservar a capacidade de atuação do Banco do Brasil como instituição pública é também preservar um instrumento estratégico de desenvolvimento regional, segurança alimentar e apoio à agricultura familiar.









