
Flávio Teixeira observar as fotos e recorda das suas ações com o Sindicato (Fotos; Zanete Dadalto/Sindibancários/ES)
Quem esteve na noite de sexta-feira (31) no Centro Sindical dos Bancários para prestigiar a exposição fotográfica 90 anos do Sindibancários/ES: nossa história, nossas lutas, não passou incólume ao clima de emoção e alegria que tomava conta de muitos bancários e bancárias. Durante o evento, que recebeu trilha sonora especial de André Prando e a animação do DJ John, era possível flagrar um ou outro bancário com o olhar detido em uma das 1.384 fotos da exposição. O bancário aposentado do Banestes e ex-dirigente do Sindicato, Flávio Teixeira, parecia ter mergulhado no túnel do tempo ao reviver uns dos instantes eternizados pelas lentes do fotógrafo Sérgio Cardoso, que registrou boa parte do acervo exposto e foi um dos curadores da exposição, junto com a coordenadora-geral do Sindicato, Rita Lima, e a coordenadora da Comunicação da entidade, Ludmila Pecine. “Eu estava olhando agora mesmo para uma foto do Fora Collor e fui fazendo uma viagem. Quanta luta, quanta história. O Sindicato é um patrimônio do povo capixaba. O que nos dá muito orgulho”. Flávio citou outras fotos que o emocionaram, como a luta contra a privatização do Banestes, a campanha contra o fim da compensação, as greves e os enfrentamentos com a polícia . “São muitas histórias. O coração chega a apertar”, disse Flávio, com os olhos marejados, enquanto contemplava uma das fotos.
Esse clima de emoção ficou mais à flor da pele no discurso de abertura da cerimônia. Defensora incansável da preservação da história da entidade, Rita Lima destacou que a memória é um antídoto contra o autoritarismo. “Tornar público registros fotográficos é tirar do esquecimento histórias de homens e mulheres que em luta conquistaram direitos, mudaram costumes, romperam com o instituído, fixaram novos parâmetros nas relações de trabalho, fortaleceram suas organizações e a democracia no Brasil, construíram contra poderes, fizeram história”. A dirigente acrescentou: “Preservar nosso patrimônio histórico é importante para sempre nos lembrarmos de tudo que fizemos, do que fomos, do que somos e dos caminhos que devemos trilhar para construirmos um amanhã sem exploração e sem opressão”.

Sérgio, que sempre está atrás da câmera, desta vez posa para a colega Zanete Dadalto
Durante a exposição, o Sindicato também fez o lançamento de uma revista especial que faz um resgate da trajetória da entidade nos últimos dez anos, período em que a categoria bancária e os trabalhadores em geral resistiram a duros ataques aos direitos conquistados. Carlos Pereira de Araújo (Carlão), que é diretor de Comunicação do Sindicato, aproveitou a ocasião para homenagear os profissionais que integram sua equipe. “Hoje, queremos saudar, especialmente, essas trabalhadoras e esses trabalhadores, camaradas essenciais para a luta sindical”.
Para falar sobre a preservação da memória, propósito da exposição, da revista e do livro lançado no ano passado que registra os 80 anos do Sindicato, Carlão buscou inspiração em Karl Marx. Ele lembrou que a luta de classes é também uma luta pela narrativa histórica. Marx ensinou que preservar a memória das resistências e das opressões, seria crucial para evitar a alienação e construir uma consciência coletiva revolucionária. “Como dizia o bom e velho Marx, ‘a história só surpreende aquele que nada de história entende’. Aqui está a história viva de um sindicalismo classista e de luta. Hoje é um motivo de orgulho para todos nós”, afirmou Carlão.
Rita Lima completou: “É uma emoção muito grande para nós”. Ela destacou a importância da diretoria do Sindicato ter abraçado a ideia porque compreendeu a necessidade de registrar e catalogar a nossa história para que ela não se perca. “É uma longa história de homens e mulheres que dedicaram suas vidas para lutarmos pelos nossos direitos”. Rita disse ainda que colocar todo esse acervo à disposição da sociedade é uma conquista desta diretoria.
Projeto desafiador
O fotógrafo Sérgio Cardoso, que é autor da grande maioria das fotos expostas, falou sobre a grandiosidade do projeto e do diferencial da exposição, que é permanente. “Eu sempre quis fazer uma exposição definitiva. O material que utilizamos é para durar muito tempo. A garantia do fabricante é de cinco anos”. Sérgio contou que a ideia da exposição nasceu do trabalho de catalogação das fotos do Sindicato. Para além da categoria bancária, ressaltou Sérgio, as fotos registram a história do sindicalismo capixaba. Parte dessa história sindical vai ficar exposta aqui, aberta para todos”, afirmou o fotógrafo.
Parceria com as entidades
Lideranças de movimentos sociais e bancários também enalteceram a iniciativa do Sindicato de criar uma exposição permanente com um acervo tão rico para a história do sindicalismo capixaba. Marco Antonio Carolino, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lembrou que muitas das fotos registram ações do MST e do Sindicato, que foram muitas “Para nós do MST, o Sindicato dos Bancários é um instrumento da classe trabalhadora. O Sindicato sempre teve essa clareza da identidade da classe trabalhadora para além da categoria [bancária]. Fizemos muitas parcerias, construímos o movimento campo-cidade no Espírito Santo, e desenvolvemos muitas lutas juntos. O MST tem muito orgulho dessa parceria e queremos mantê-la por mais 100 anos”, afirmou Carolino.

Heider, Carolina, Carlão e Rita: parcerias com os movimentos sociais marcaram trajetória do Sindicato
Heider José Boza, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Espírito Santo, também destacou a parceria com o Sindicato, que já dura quase dez anos. “Desde o rompimento da barragem, no final de 2015, quando o MAB chegou aqui no Espírito Santo, o Sindicato dos Bancários se colocou à disposição do MAB”. Ele recordou que as primeiras lutas que o MAB fez em Colatina, foram marcadas pelo protagonismo do Sindicato na organização. “Essa aliança se deu desde o primeiro momento que nasceu o MAB no Espírito Santo”. Heider conta que oito a dez dias depois do rompimento da barragem de Mariana (MG), o MAB já estava em Colatina com o Sindicato na luta em defesa dos atingidos por barragens. “Essa luta segue até hoje”.
O Movimento Policiais Antifascismo também marcou presença na exposição. A ativista Maria Helena Vasconcelos contou que começou a se aproximar do Sindicato como aprendiz. “O Sindicato abriu as portas para a formação política dos policiais civis. Isso é história. Isso é fazer história. Isso é dizer que estamos todos juntos. Somos trabalhadores e trabalhadoras e precisamos unificar nossas lutas e nossa força. “Maria Helena destacou a importância da exposição: “Resgatar a memória é uma viagem no tempo. Não podemos esquecer as nossas lutas”.
O Sindicato registrou a ausência da presidente da CUT-ES, Clemildes Cortes Pereira, que não pode comparecer ao lançamento da exposição devido ao falecimento, na sexta-feira (31), de João Rafael Scardua, um dos fundadores da CUT no Espírito Santo. Foi registrado os sentimentos, em nome do Sindicato, aos familiares e amigos de Scardua.

Cláudio (Apcef), destacou a importância de preservar a memória
Repercussão
Além de Flávio, ex-dirigente do Sindicato e aposentado do Banestes, que se emocionou com algumas fotos da exposição, o bancário do Banco do Brasil Igor Chagas, que também é delegado sindical, falou sobre a importância da preservação da memória. “A exposição permite transmitir especialmente para as próximas gerações, que é muita diferente da minha e muita mais em relação às anteriores, a importância da organização dos trabalhadores para a conquista e manutenção de direitos. Eu sinto que é difícil transmitir para as novas gerações a importância da organização dos trabalhadores. A preservação da história é uma maneira de você tentar fazer isso com mais eficiência”.
Depois de percorrer a exposição, Igor disse que algumas fotos lhe trouxeram fortes recordações. “Minha participação nessa história ainda é muito pequena. Mas me recordo do abraço ao prédio da Superintendência [do BB] em defesa da Cassi”. Igor conta que participou da ação e ficou muito feliz em ver esse momento registrado na exposição.
O bancário da Caixa e presidente da Apcef-ES, Cláudio Agnelo Bastos, disse que a exposição resgata a história de luta da classe trabalhadora. Ele acrescentou que a luta do Sindicato extrapola a defesa da categoria bancária. “O Sindicato luta pela melhoria das condições para toda a classe trabalhadora. Por isso é tão importante manter essa história se manter viva. Uma ação como essa reaviva nossas lembranças e nos faz lembrar de momentos importantes que nos deixam mais propensos para a luta”.
110 mil fotos
Rita Lima lembrou que a seleção das 1.384 fotos que compõem a exposição é parte de um acervo de mais de 110 mil fotos. “Essa é uma história muito valiosa”. A coordenadora acrescentou que o Sindicato já tem um novo desafio: a catalogação documental de todo o material de vídeo das ações do Sindicato em arquivos. A dirigente frisou ainda que a atual diretoria quis contar essa história não só pelos indícios, mas pelos fatos. “Tivemos a preocupação de não só contar a história de lutas dos bancários e das bancárias, porque a história da categoria bancária se mistura com a história da luta de classes no Espírito Santo. O Sindicato tem a preocupação de estar juntos com os indígenas, com o MST, com os quilombolas, com o movimento das mulheres, dos negros, porque é assim a nossa história. Nós não podemos contar a história deles, mas podemos contar a nossa história junto com eles”, finalizou.
Confira as fotos da festa de lançamento da exposição
(Fotos: Zanete Dadalto/Sindibancários/ES)

