“O machismo é estrutural no Brasil. Às vezes, a gente acha que não reproduz isso, principalmente quando tem estudo, acesso à informação e consciência política. Nós trabalhamos na Caixa, temos muito acesso à informação e, mesmo assim, em algumas atitudes, acabamos sendo machistas sem perceber”, refletiu Thiago Techio, bancário da Caixa e presidente da Agecef-ES.

O comentário foi feito após a exibição de um vídeo sobre feminismo e violência contra a mulher, que integra as ações de conscientização promovidas pelo Sindicato por meio da campanha “Feminicídio Zero: nenhuma a menos e nenhuma em silêncio”. A atividade aconteceu na última quarta-feira (27), na Caixa Econômica Federal, localizada no Edifício Landmark, na Enseada do Suá.

Participaram da ação cerca de 50 empregados e empregadas do banco público, que contribuíram com reflexões importantes e necessárias sobre machismo, violência contra a mulher e igualdade de gênero.

“A gente entendeu que também precisa participar desse movimento que vem debatendo a violência contra a mulher. E nós, como entidade representativa, trazemos esse debate para a categoria. Tem sido gratificante ver a participação dos bancários e bancárias nessas discussões. É nítido que a categoria se sensibiliza e se mobiliza com esse tema”, avalia Bethania Emerick, secretária de Mulheres do Sindicato dos Bancários/ES.

Essa foi a terceira unidade visitada pelo Sindicato dentro da campanha. Em todas as ações realizadas até o momento, os próprios bancários e bancárias protagonizaram debates e compartilharam reflexões a partir das provocações propostas pela campanha “Feminicídio Zero”.

Além da exibição do vídeo sobre feminismo e combate à violência contra a mulher, os diretores do Sindicato também apresentaram o novo portal de notícias voltado para a categoria bancária. A proposta do site é ser um espaço de formação, informação, denúncia e acolhimento.

A secretária de Mulheres do Sindicato, Bethania Emerick, destaca que a campanha terá continuidade em outras unidades bancárias do estado: “Essa campanha é permanente e será levada para mais agências no estado, tanto na Grande Vitória quanto no interior”, afirmou.

Programa Acolhe

Durante a ação do Sindicato, a representante de pessoas da Caixa, Alessandra Altoé, aproveitou o espaço de debates para parabenizar o Sindicato pelas ações do “Feminicídio Zero” e compartilhar sobre o Programa Acolhe que completou cinco anos de efetivação. O Acolhe é uma iniciativa do banco que visa prestar atendimento e acolhimento às empregadas em situação de violência doméstica e familiar, por meio de uma equipe multidisciplinar.

Rita Lima, diretora do Sindibancários/ES, alertou ser fundamental que o programa acolha não só às vítimas de violência doméstica, mas também às vítimas de violência no trabalho, como assédio moral e sexual, criando uma estrutura para amparar a bancária e garantir um ambiente de trabalho seguro. “Esse programa precisa ser fortalecido para que a pessoa tenha confiança e possa se sentir acolhida e segura no ambiente de trabalho”, ressaltou.

“Não dá para passar pano”

“Acho que esse é um debate que precisa ser feito todos os dias. O feminicídio, para chegar ao extremo, escalou muitas outras violências antes. Minha filha fala muito isso: ‘Pai, não dá para passar pano’. E é verdade. Começa na piadinha, na cantada invasiva, em várias atitudes disfarçadas que a gente normaliza com frases como ‘ele é assim mesmo’. Não, isso não pode ser naturalizado.

A percepção do que a mulher sente nós nunca vamos ter completamente, porque não somos mulheres. Podemos tentar imaginar, exercitar a empatia, mas nunca sentir da mesma forma.

Uma mulher não entra numa rua do jeito que a gente entra para caminhar. Eu saio às dezoito horas, já escuro, e vou tranquilo. Já minha filha e tantas outras mulheres não têm essa mesma liberdade ou sensação de segurança.

Por isso, acho que esse é um debate que precisa ser feito todos os dias. São pequenas atitudes que, se não forem questionadas, alertadas e combatidas, acabam alimentando uma cultura machista. Muitas vezes, a pessoa nem percebe que está imersa nisso. Ela acha que nunca será responsável por uma violência contra a mulher, mas as atitudes e a cultura que ela reproduz podem, sim, contribuir para a escalada dessa violência.”

Depoimento de Wagner Ferreira, bancário da Caixa e diretor da Apcef-ES

Machismo estrutural

“Eu e minha esposa somos da Caixa, mas, em vários momentos, ela abriu mão da carreira dela por minha causa. E não houve uma pressão direta, foi algo meio inconsciente. Mas isso faz a gente refletir: será que esse era realmente o melhor caminho? Será que não dava para fazer diferente?”

Depoimento de Thiago Techio, bancário da Caixa e presidente da Agecef-ES

“A gente não pode se calar”

“É importante ressaltar que estamos em um processo em que a denúncia está acontecendo cada vez mais. Existe um contexto histórico e cultural em relação ao lugar da mulher na sociedade que ainda traz muitos desafios. Somos maioria, mas muitas vezes ainda somos tratadas como minoria.

E há um ponto muito importante: a denúncia não apenas está acontecendo, como também está mobilizando ações por parte das entidades, das empresas e dos órgãos sociais como um todo, justamente porque esse assunto está sendo falado. A gente não pode se calar.

Antes, nós não ouvíamos falar sobre isso com tanta frequência. Não conhecíamos os números, não sabíamos das condições e da dimensão dessa realidade. Hoje, temos mais informação e estamos sendo abordados sobre esses temas no nosso cotidiano, inclusive na nossa rotina de trabalho.

Então, eu acredito que isso já representa um passo importante, um caminho que está sendo construído. É um avanço em relação a esse debate, porque falar sobre isso é fundamental.”

Depoimento de Giselli da Silva Marcelos, bancária da Caixa e superintendente de rede


O feminicídio não começa com o tiro

“A gente está vivendo um momento muito delicado, em que vemos cada vez mais não apenas os dados da violência, mas também a forma como essa violência está sendo noticiada. O feminicídio não é um fenômeno novo. Hoje, temos cada vez mais mulheres se organizando, se acolhendo, se protegendo e denunciando. Mas os homens também precisam fazer a sua parte. Precisamos agir ativamente.

O feminicídio não é apenas o tiro, a facada ou a violência extrema que se concretiza no final. Aquilo ali é o ponto final, mas ele não começa ali. A gente não pode fechar os olhos para isso.

Ele começa na piada machista que fazemos ou toleramos que amigos e parentes façam. Se perpetua quando fingimos não perceber que um colega de trabalho, cunhado ou irmão está tendo atitudes possessivas e agressivas com a companheira. E termina quando ignoramos o pedido de ajuda da vizinha que está gritando, da colega, da filha que está apanhando em casa.

Então, o feminicídio é um contínuo. Não é uma violência isolada que termina na morte simbólica e física da mulher. Ele começa muito antes, quando retiramos dela a humanidade e a transformamos em objeto.”

Depoimento de André Tosta, bancário da Caixa e diretor do Sindibancários/ES

Fotos: Sérgio Cardoso