O site da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) estampou a manchete: “Doações do setor bancário para população do Rio Grande do Sul chegam a R$ 126 milhões”. Embora a instituição enalteça a doação como uma generosa ajuda dos bancos, o valor corresponde a menos de 0,12% do lucro somado do Itaú, Santander, Bradesco, Banco do Brasil e BTG Pactual em 2023, que chegou a R$ 106,6 bilhões. Se a doação for convertida em dias, os cinco bancos precisariam de menos de um dia (cerca de 10h) para aferir o valor da doação.
“Quando olhamos para um lucro que está acima da casa dos R$ 100 bilhões, fazer um estardalhaço com uma doação diminuta, se tomarmos como base o volume do lucro dos bancos, chega a ser aviltante”, critica Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindibancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários , que acrescenta: “Se considerarmos que o salário médio do brasileiro é de R$ 3.118,00 em 2024 (Ipea), seria o mesmo que o trabalhador doar R$ 3,74 para o povo gaúcho. Pela grandiosa solidariedade que a população brasileira tem demonstrado nesta tragédia, sabemos que as doações estão bem acima desse patamar”, compara.
A doação dos bancos ganhou grande destaque nos veículos especializados em economia e na imprensa em geral. “A imprensa é uma grande aliada do capital e se presta a fazer um grande barulho para enaltecer um valor de doação que é irrisório, se comparado aos resultados dos bancos. O lucro obsceno dos bancos foi normalizado pela grande imprensa”. Carlão lembra que o Itaú lucrou R$ 35,6 bilhões em 2023. O valor equivale aos orçamentos somados do Espírito Santo e de Sergipe no mesmo ano.
“Isso significa que o valor destinado por esses dois estados para cobrir as despesas nas áreas de saúde, segurança, educação, saneamento, cultura, habitação, funcionalismo entre outras, para mais de seis milhões de habitantes, foi o mesmo repartido pelos acionistas do Itaú. Quantos orçamentos estaduais caberiam dentro do lucro de R$ 106 bilhões dos bancos? Dependendo dos estados, asseguro que mais de uma dezena”.
Para não perder a noção da expressividade do tamanho do lucro, os bancos lucraram em 2023 mais que o orçamento do segundo maior estado do país. “É impressionante, mas o governo fluminense gastou no ano passado R$ 102 bilhões para gerir o estado inteiro do Rio, segunda maior economia do país, para mais de 16 milhões de pessoas”, aponta o dirigente.
Carlão diz que a crítica à doação vergonhosa dos bancos em meio a uma tragédia que praticamente destruiu um estado inteiro, matando até agora 145 pessoas (há 132 desaparecidos), é oportuna para que o país discuta uma reforma urgente no sistema financeiro brasileiro. “Desta forma que está estruturado, o sistema financeiro reforça e aprofunda a desigualdade social no Brasil. Sem uma reforma estrutural no sistema financeiro, jamais haverá justiça social em nosso país”, adverte.
(Foto: Marcelo Caumors/EBR)









