O jornal O Globo traz na edição desta quarta-feira (18) uma reportagem sobre o fechamento de agências bancárias. Estampa a manchete: “Cinco maiores bancos do país fecharam mais de 2,5 mil agências em 3 anos“. Na verdade, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), foram fechadas 2.805 agências e não 2.563, como informa o diário carioca. A matéria trata o fechamento de agências como um processo natural trazido pelas inovações tecnológicas. Diz um trecho do texto: “A acelerada digitalização do setor bancário e o avanço dos smartphones estão tornando obsoletas as agências bancárias. Para cortar custos e enfrentar a concorrência acirrada pela chegada dos bancos digitais — que nascem sem uma agência sequer —, os bancos estão fechando suas operações físicas. As que ainda estão com as portas abertas, vêm ganhando novos layouts e funções”.
A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Goretti Barone afirma que as agências de fato estão desaparecendo, mas os usuários dos serviços bancários não foram abduzidos ou coisa que o valha. “Fica parecendo que as pessoas que frequentavam os bancos sumiram misteriosamente da noite para o dia. Essa demanda não desapareceu, mas foi transferida para a periferia do Setor Financeiro. Não por acaso houve uma explosão dos chamados correspondentes bancários nos últimos anos”. Segundo a dirigente, já faz alguns anos que os bancos estão se livrando de usuários dos serviços bancários e de clientes de baixa renda. “Essa parcela da demanda não interessa mais aos bancos. Mas é mais estratégico dizer que as agências se tornaram ‘obsoletas’ para justificar o fechamento em massa das unidades bancárias”. Goretti destaca também que o fechamento de agências e as demissões de bancários andam juntas. “Quando se fecha uma agência, dezenas de trabalhadores ficam desempregados. Naquela unidade não haverá novas admissões porque os postos de trabalho foram definitivamente fechados”, lamenta.
Os estudos do Dieese apontam que o setor bancário vem encolhendo desde 1994 (gráfico abaixo), ao mesmo tempo que a oferta de empregos vem aumentando nas franjas do Setor Financeiro. “Os bancos podem usar a justificativa que acharem mais conveniente, mas esse processo de fechamento de agências e postos de trabalho no setor bancário e a terceirização das operações para os correspondentes bancários só têm um objetivo: reduzir custos para aumentar as margens de lucro. A ganância dos bancos é ilimitada. Os banqueiros usam como desculpa que estão se reestruturando para acompanhar as mudanças tecnológicas do mercado, mas na verdade querem pagar salários mais baixos, retirar direitos e aumentar as cargas horárias dos trabalhadores que estão na periferia do Setor Financeiro. É a face perversa do capitalismo de aumentar seu lucro na extração da mais-valia da força de trabalho”. O crescimento da esfera periférica, completa a dirigente, está aprofundando o processo de precarização do trabalhador do Setor Financeiro.

A dirigente adverte que esse encolhimento dos postos de trabalho na categoria bancária causa a sobrecarga de trabalho e o consequente adoecimento. “Essa equação para obter mais lucro a qualquer custo, fecha para os bancos, mas não para o trabalhador. Hoje o adoecimento em massa da categoria é causado principalmente pela intensidade do trabalho. Com quadros mais enxutos, a estratégia dos bancos é sugar cada vez mais do funcionário, impondo metas intangíveis. Não por acaso, o tema da campanha nacional da categoria deste ano é ‘Menos Metas, Mais Saúde’. A campanha denuncia essa opressão diária dos bancos para dobrarem seus lucros à custa da exploração do trabalhador”, assinala Goretti.
Operações online
A reportagem mostra que os grandes bancos estão implementado os avanços tecnológicos em ritmo acelerado. O Bradesco, segundo a matéria, tem 98% das transações feitas digitalmente. O Banco do Brasil com 93% das operações digitais fica atrás do Bradesco, mas supera o Itaú, que tem 80% de transações digitais. Os bancos não escondem que pretendem transformar as agências que restaram em unidades de negócios. Itaú, por exemplo, informa que até 2025 pretende renovar toda a rede de atendimento, com agências voltadas para aconselhamento e planejamento financeiro.
Segundo Goretti, transformar as agências em unidades de negócios é uma tendência tanto dos bancos públicos como dos privados. “Essas unidades ganharam um nome pomposo para dar esse status de exclusividade: prime, select, personnalité, estilo e por aí vai. Desta maneira, a barreira social está estabelecida: só serão bem-vindos os clientes com capacidade financeira para fazer negócios com o banco. A natureza social dos bancos se perdeu faz tempo. Por isso é tão importante a luta do movimento sindical para não deixar que os bancos públicos se afastem desse compromisso social.
“Caixa na contramão”A reportagem diz que a Caixa segue na contramão do processo de reestruturação dos outros grandes bancos. O termo tem uma conotação pejorativa, tentando expressar que a Caixa se mantém alienada das inovações tecnológicas. Diz o Globo: “A Caixa, com tradição em financiamentos imobiliários e que tradicionalmente atende a muitos idosos aposentados e beneficiários de programas sociais, é o único banco convencional na contramão. Não tem planos de reconfigurar suas agências”. E acrescenta: “Segue abrindo unidades de atendimento em uma rede que já é composta por 4,3 mil agências e postos, 22,6 mil lotéricos e correspondentes CAIXA Aqui, dez agências-caminhão e duas agências-barco para regiões ribeirinhas”.
“O que a matéria classifica como ‘contramão’, eu considero coerência com os princípios que edificaram essa trajetória de 162 anos de história da Caixa como o maior banco público da América Latina. O banco que se mantém fiel ao seu papel social. Deixaram de dizer que os empregados e as empregadas da Caixa não se esquivaram de ficar cara a cara com o vírus da covid para garantir o pagamento do auxílio emergencial a milhões de brasileiros e brasileiras durante a pandemia. Será que uma dessas agências de nome chique fariam uma ação social dessa magnitude para garantir que milhões de brasileiros tivessem acesso aos benefícios? Fica a pergunta”, conclui Goretti.

