O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 18,8 bilhões no primeiro semestre deste ano. O resultado, que é um novo recorde para um único semestre, supera em 8,5% o mesmo período do ano passado. Para se ter uma ideia da robustez do resultado, o lucro registrado em um único semestre é superior ao apurado no ano de 2019: R$ 18,1 bilhões. Os resultados extraordinários, no entanto, não estão sensibilizando o BB a atender às reivindicações dos funcionários. O banco se mantém intransigente na mesa de negociações que discute o acordo específico da categoria.
“Esperávamos devolutivas do banco em relação ao que tínhamos colocado na minuta de reivindicações e nas mesas anteriores. As respostas do banco foram muito incipientes e frustrantes”, afirmou a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Bethania Emerick. Como exemplo dessa posição de intransigência do banco, a dirigente citou a reivindicação que propunha eliminar o teto existente na Participação nos Lucros e Resultados (PLR). Em relação à revisão de cargos, acrescenta Bethania, o BB ainda não deu nenhuma devolutiva, alegando que a questão ainda está em debate interno.
“Causa indignação esse descompasso entre os resultados extraordinários e o endurecimento das negociações. Para superar o lucro de um ano em seis meses, o BB tem imposto metas abusivas. Pressionados e sobrecarregados, as funcionárias e os funcionários do BB são as principais vítimas dessa política de metas. O resultado tem sido o adoecimento em massa da categoria”, critica a dirigente do Sindicato Goretti Barone.
A dirigente chama atenção para a evolução do lucro do BB nos últimos anos (gráfico abaixo). “De 2014 para 2023, o BB saltou de um lucro de R$ 11,2 bilhões para R$ 35,6 bilhões. Estamos falando de um aumento impressionante de mais de 271%”, aponta.

Ela compara os resultados do Itaú e BB para constatar que a política de gestão dos empregados dos dois bancos é bastante semelhante, sobretudo no estabelecimento de metas cada vez mais intangíveis. A dirigente recorda que os resultados dos dois bancos foram rigorosamente iguais no ano passado: R$ 35,6 bilhões. A diferença, diz Goretti, é que o Itaú é o maior banco privado da América Latina e o BB é um banco público, que deveria primar por uma gestão mais humanizada em relação aos seus funcionários e clientes.
“Nossa expectativa era de que o banco reconhecesse e valorizasse seus empregados na mesa de negociações. Há muito a melhorar em relação à saúde e às condições de trabalho dos empregados. Mas mesmo as pautas sociais têm avançado lentamente nas negociações. Não podemos normalizar o adoecimento mental da categoria, que se tornou epidêmico”.
A dirigente diz que o BB também precisa resgatar sua vocação social e voltar a ser reconhecido por suas políticas públicas direcionadas aos segmentos menos favorecidos da população. “Não podemos aceitar que o BB mergulhe na roda da ganância do lucro pelo lucro, com o mero propósito de superar o concorrente privado”, adverte.
Categoria encolhe
Se de um lado a curva do lucro sobe, a do quadro de funcionários desce. Na contramão da robustez dos resultados, o quadro de pessoal do BB vem acolhendo. O banco contava com 87.130 funcionários ao final do primeiro semestre deste ano. “O BB vai alegar que 2.099 novos postos de trabalho foram abertos nos últimos 12 meses, mas esse número está muito aquém da demanda do banco que lucra quase R$ 19 bilhões em um único semestre”. Goretti lembra que no início da década de 1990, o banco contava com 120 mil funcionários. “De lá pra cá, esse número vem caindo. Perdemos quase um terço dos empregados nesse período. O resultado é a sobrecarga de trabalho e o adoecimento físico e mental. Precisamos de novos concursos para mitigar essa defasagem”, aponta.
De carona no lucro estratosférico, as receitas com prestação de serviços e tarifas bancárias subiram 4,7% em 12 meses, no período encerrado em junho de 2024, atingindo R$ 17,1 bilhões. De outro lado, as despesas com pessoal, incluindo todas as verbas remuneratórias e o pagamento da PLR, somaram R$ 15,7 bilhões, ou seja, as receitas de tarifas e serviços cobriram a folha com folga no primeiro semestre de 2024.
“O lucro do BB chega em um momento estratégico das negociações. Esta é a hora da categoria se engajar na luta. As conquistas só vêm com a mobilização. Queremos condições dignas de trabalho. Não podemos aceitar o adoecimento mental epidêmico como um novo normal. Merecemos também um reconhecimento financeiro à altura do que temos entregado para o banco”, finaliza Goretti.

