(Texto atualizado em 26/10/2022, às 17h50) Na linguagem das redes sociais, Bolsonaro “passou o pano” para Pedro Guimarães. Em entrevista à imprensa nessa segunda-feira, 24, Bolsonaro afirmou que não viu “nada de contundente” nas denúncias de assédio sexual e moral envolvendo o ex-presiente da Caixa, um dos seus principais aliados. Guimarães, que deixou o cargo em junho deste ano, é investigado em três casos de assédio sexual e outros nove de assédio moral. As vítimas relataram ao Ministério Público Federal (MPF), entre outras violações de Pedro Guimarães, toques indesejados e convites inapropriados em eventos, gabinetes, garagem e até dentro de veículos da Caixa.
Na entrevista, Bolsonaro completou: “Eu vi depoimentos de pessoas que se sentiram assediadas. Não faço parte do Poder Judiciário. Agora, não vi nenhum depoimento mais contundente de qualquer mulher. Vi depoimento de mulheres que sugeriam que isso poderia ter acontecido”.
“Qual a conotação que a palavra ‘contundente’ tem para Bolsonaro? O que ele queria mais que acontecesse para o abuso, como ele disse, ser ‘contundente’? Será que um estupro seria contundente para ele”, questiona a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima.
A dirigente repudiou com veemência a fala de Bolsonaro. Para ela, as declarações são de uma desfaçatez sem precedentes. “O que se espera da autoridade máxima do país, frente a um escândalo tão grave de assédio envolvendo o presidente de uma empresa pública, é solidariedade às vítimas e o compromisso inalienável de que todas as denúncias sejam rigorosamente apuradas. Mas Bolsonaro, depois desses quatro anos de governo, não podemos esperar uma atitude decente, ética e responsável. Esperamos sempre o pior. Nesse caso da Caixa, ele inverte os fatos para proteger o aliado. O agressor vira vítima e as vítimas são revitimizadas. Quando Bolsonaro usa a expressão ‘nada de contundente’, ele está querendo dizer que as mulheres exageraram ou que os abusos não foram para tanto. São declarações repulsivas partindo de qualquer pessoa, mas de um presidente…”, critica Rita Lima.
No próximo domingo, enfatiza Rita Lima, as mulheres em geral e especialmente as empregadas da Caixa, quando estiverem na frente da urna, vão saber dar a resposta que Bolsonaro merece. “Vão dizer que não querem o presidente do ‘pintou um clima’; o presidente que absolve o agressor e revitimiza a vítima; o presidente que questiona se as mulheres preferem ter na bolsa uma Lei Maria da Penha ou uma pistola. Tenho certeza. Não é este homem que as mulheres querem para presidente do Brasil nos próximos quatro anos e nem nunca mais”, afirma a dirigente.
Vítimas repudiam fala de Bolsonaro
As advogadas que representam as vítimas de assédio sexual e moral de Pedro Guimarães classificaram, por meio de nota, como estarrecedora a fala Bolsonaro desdenhando das denúncias.
Leia a seguir a íntegra da nota
“À vista de recente entrevista concedida pelo Sr. Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, ao Portal Metrópoles na qual é por ele afirmado não existir “nada de contundente” nas denúncias feitas naquele que ficou publicamente conhecido como o ESCÂNDALO DE ASSÉDIO SEXUAL NA CAIXA e no qual é investigado o ex-presidente daquele órgão, Sr.Pedro Guimarães, em nome e a pedido das VÍTIMAS que representamos na esfera criminal neste caso, temos a dizer:
Um, ser estarrecedor que para o Mandatário da nação não sejam contundentes atos relatados e atribuídos ao presidente de uma instituição do porte da Caixa, que deveria ter instrumentos de controle e governança eficientes, consistentes em violações profundas aos corpos, às imagens e à intimidade de servidoras do órgão; Dois, ser motivo de tristeza que condutas como apalpar seios e nádegas, beijar e cheirar pescoços e cabelos, convocar funcionárias até seus aposentos em hotéis sob pretextos profissionais diversos e recebê-las em trajes íntimos, além de constantes convites para ”massagens”, ”banhos de piscina” ou idas a ”saunas” sejam naturalizados e tidos, repetimos, como ”não contundentes” pelo Chefe do Poder Executivo;
Três, acima de tudo, é motivo de indignação e revolta que, ao minimizar a dor e o sofrimento já expressos em inúmeros depoimentos perante a Corregedoria da Caixa, o Ministério Público do Trabalho e, no âmbito criminal, o Ministério Público Federal, as VÍTIMAS tenham sua PALAVRA posta em dúvida em contribuição ao processo de REVITIMIZAÇÃO que um Presidente da República deveria ter como compromisso combater.
Por fim, em respeito à voz das VÍTIMAS reproduzimos integralmente parte de sua manifestação: “Seria contundente, senhor Presidente da República, se o fato ocorresse com sua esposa ou filha? Acreditamos que sim. Pois saiba que além de mulheres, também somos esposas, filhas, mães e profissionais que foram abusadas, lesadas e agredidas pela conduta de alguém que deveria ser líder, mas que optou por ser algoz. E, assim como em suas duras e desprezíveis palavras, fomos desacreditadas e relegadas à nossa própria sorte pela instituição que deveria garantir nossa integridade. Mas não nos calamos e não iremos nos calar. A verdade, apenas a verdade, é suficientemente contundente para fazer justiça e para que outras mulheres não sofram o mesmo que nós.”
Brasília, 25 de outubro de 2022″
Relembre o caso
Pedro Guimarães foi acusado de assédio sexual por empregadas da Caixa. A informação foi divulgada no dia 28 de junho de 2022 pelo site Metrópoles. Em poucos minutos a notícia ganhou repercussão nacional, em especial na Câmara dos Deputados, onde vários parlamentares pediram em plenário a demissão imediata do executivo.
Segundo a reportagem, no fim de 2021, um grupo de empregadas ligadas ao gabinete da presidência da Caixa rompeu o silêncio com uma denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) de assédios sexuais que vinham sofrendo. Desde então, o MPF mantém as investigações em sigilo. Cinco das vítimas falaram à reportagem do portal citada sob anonimato.
Nos testemunhos, elas contam que foram abusadas com toques em partes íntimas sem consentimento, falas e abordagens inconvenientes e convites desrespeitosos, por parte do então presidente da entidade. A maior parte dos relatos está ligada a atividades do programa Caixa Mais Brasil. Pelo programa, desde 2019, ocorreram mais de 140 viagens por todo o país, em que estavam Pedro Guimarães e equipe. Nesses eventos profissionais, todos ficavam no mesmo hotel, onde ocorriam os assédios.
No dia 29 de junho, Pedro Guimarães entregou ao presidente da República, Jair Bolsonaro, seu pedido de demissão da presidência da Caixa.
Como está a apuração
A Corregedoria da Caixa, depois de três meses, apontou que existem vários indícios de assédio moral e sexual praticados pelo ex-presidente da instituição Pedro Guimarães. Durante a apuração interna, a Corregedoria da Caixa, entre vítimas e testemunhas, reuniu mais de 50 depoimentos. Paralelamente, foram levantadas provas que confirmaram o teor das informações apresentadas pelas empregadas do banco.
No cruzamento de dados, a investigação checou as viagens e reservas de hotel, fotos e datas de jantares e reuniões envolvendo Pedro Guimarães. O documento de mais de 500 páginas foi apresentado na semana passada ao Conselho de Administração da Caixa.
A primeira denúncia, segundo o relatório, veio à tona em maio deste ano. Após a imprensa repercutir os casos de assédio, outras bancárias procuraram a Corregedoria para denunciar Pedro Guimarães. A corregedoria conclui que Pedro Guimarães desrespeitou várias normas internas da Caixa, em especial o código de conduta, e que os relatos expõem a instauração de uma gestão pautada na cultura de medo, comunicação violenta, insegurança, manipulação, intransigência e permissão ao assédio.
Guimarães deixou a presidência da Caixa no final de junho depois que as denúncias de assédio se transformaram num grande escândalo, respingando na campanha de Bolsonaro, que tentava justamente reduzir sua rejeição com as mulheres. Depois da saída de Guimarães, outros cinco vice-presidentes já deixaram o banco.
O resultado da investigação feita pela Corregedoria interna da Caixa foi compartilhado com o Ministério Público Federal (MPF) e com o Ministério Público do Trabalho (MPT), que também apuram as denúncias. O MPT, inclusive, já entrou com ação contra o ex-presidente da Caixa Pedro Guimarães, e pede que a Justiça o condene ao pagamento de R$ 30,5 milhões pelos danos causados às mulheres que o acusam de assédio moral e sexual. Os recursos devem ser revertidos a um fundo de proteção dos direitos dos trabalhadores.

