Os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que houve mais demissões do que admissões no setor bancário no mês de março. Embora o saldo ainda seja positivo no acumulado dos últimos 12 meses (até março de 2022), das 11,7 mil vagas criadas, a maioria foi destinada a profissionais de tecnologia da informação, função não vinculada diretamente a serviços bancários. Pesa no saldo positivo também a convocação, por determinação judicial, dos aprovados no concurso de 2014 da Caixa, que representa 12,6% das admissões do período.
Em março, foram 2.892 admissões contra 3.103 desligamentos. No recorte, outro dado chama atenção: enquanto entre os homens houve um saldo positivo de 96 postos, com relação às mulheres, o saldo foi negativo: 308 postos. A coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima afirma que o saldo negativo entre as bancárias preocupa. “Não temos como desconsiderar que por trás desse dado paira a sombra da discriminação contra as mulheres”.
A dirigente afirma que as entidades sindicais têm cobrado da Fenaban a adoção de medidas para combater a descriminação, que é estrutural. Rita Lima cita como exemplo da discriminação, a diferença salarial entre homens e mulheres nos bancos. De acordo com estudo do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas (Dieese) de 2021, as mulheres bancárias levarão 88 anos para que seus rendimentos se equiparem ao dos colegas homens.
O estudo registra que a diferença da remuneração média entre homens e mulheres no setor bancário em 2003 era de 26,08%. Em 2018, houve redução desse índice, mas a diferença ficou em 21,75%, percentual superior à diferença média no mercado de trabalho brasileiro, que é de 18%.
Saldo positivo mascara realidade
Na avaliação geral entre demissões e admissões, o diretor do Sindicato e membro do Comando Nacional, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), afirma que o saldo positivo observado nos últimos 12 meses mascara o processo de achatamento da categoria bancária, que vem se acentuando nos últimos anos. O dirigente cita um estudo do Dieese, coordenado pelo economista Gustavo Cavarzan, que analisa o encolhimento da categoria num intervalo mais amplo. Segundo Carlão, com base no estudo, a categoria perdeu 83 mil postos de trabalho entre 2013 e 2020.
Periferia do setor financeiro
A categoria bancária, continua Carlão, ainda com referência ao estudo, estaria no núcleo central do setor financeiro. São os trabalhadores celetistas, com garantias e vínculos mais duradouros. Em seguida, numa esfera chamada de periférica, aparecem trabalhadores, ainda celetistas, mas vulneráveis do ponto de vista das garantias, com salários mais baixos e cargas horárias médias mais elevadas.
O crescimento da esfera periférica do setor financeiro, adverte o dirigente, tem como um dos seus principais objetivos a redução de custos dos bancos com vista a lucros ainda mais altos. “Os bancos vêm empilhando recorde em cima de recorde quando o assunto é lucro. Acabamos de ver os resultados do primeiro trimestre deste ano dos dois maiores bancos privados do país. Itaú e Bradesco registraram lucro acima da casa dos R$ 7 bilhões, superando suas próprias projeções. A ganância dos bancos não tem limite”.
Segundo Carlão, os bancos alegam que a reestruturação é necessária para acompanhar as mudanças tecnológicas do mercado, mas na verdade esse processo tem o propósito de reduzir salários, retirar direitos e aumentar as cargas horárias. “É a lógica perversa do capital de retirar o máximo do trabalhador por um custo menor”. O crescimento da esfera periférica, completa o dirigente, está aprofundando o processo de precarização do trabalhador do setor financeiro. “À medida que a categoria bancária encolhe, aumentam as contratações de trabalhadores precarizados, com salários mais baixos e com menos direitos e garantias. A reforma trabalhista criou as condições para impor esse processo de precarização da classe trabalhadora em geral, que ganhou força sob o governo ultraliberal de Bolsonaro”, critica Carlão.
Humanos X robôs
Se a precarização do trabalhador é uma aliada para reduzir os custos dos bancos, o aumento das contratações dos profissionais de tecnologia, a partir do processo de reestruturação, tem o objetivo de substituir trabalhadores por robôs.
Para reduzir custos, os bancos estão substituindo trabalhadores e trabalhadoras por inteligência artificial. Para Rita Lima, esse é um dado preocupante de transformação do setor financeiro que pode ser facilmente notado nos processos de reestruturação impostos pela maioria dos bancos. Ela cita como exemplos a extinção da função de caixa e a redução das vagas em concursos e processos seletivos para a contratação de técnicos bancários”. De acordo com o balanço de 2021 do Dieese, 54% das vagas criadas no setor foram destinadas às ocupações ligadas à tecnologia.
Redução salarial
Os dados de março do Caged apontam que o salário médio do bancário vem escolhendo. O salário mensal médio de um bancário admitido em março foi de R$ 5.558,55, enquanto o do desligado era de R$ 6.414,92. Ou seja, nas novas contratações a remuneração ficou em 86,7% abaixo da de quem foi demitido.
Essa tendência já havia sido observada em outros levantamentos do Dieese com base nos dados do Caged de janeiro a dezembro de 2021. No gráfico abaixo, que recorta apenas a categoria bancária, a redução do salário médio fica visível. Em janeiro de 2021, o salário médio do bancário admitido era de R$ 6.070 e o do desligado, R$ 6.112. Em dezembro de 2021, o do admitido caiu para R$ 5.254 e do desligado para R$ 7.010.

“Esse processo de encolhimento e precarização do setor bancário é hoje uma das principais frentes de lutas dos sindicatos. Os dados não deixam dúvida de que há um explícito projeto dos bancos de reduzir os postos de trabalho no setor, substituindo os bancários por trabalhadores precarizados e por robôs. É urgente conscientizarmos a categoria para que esse processo não se consolide”, alerta Carlão.

