Ignorando o agravamento do quadro de contaminação e mortes por coronavírus no país, a Caixa Econômica Federal decidiu romper o acordo de suspensão das metas durante a pandemia e reestabeleceu o sistema de metas, implementando ainda uma nova rotina de cobrança.
A Caixa assumiu em março o compromisso de suspensão das metas ao longo da crise sanitária. Já no começo de abril, em documento, a vice-presidência de Varejo afirmou que “nenhuma unidade ou empregado terá impacto na sua carreira em razão dos resultados observados enquanto durar esta fase de confinamento”. Depois, no início de maio, o banco comunicou a suspensão da GDP.
Nesta semana, o banco divulgou novas orientações, nas quais as metas estão sendo chamadas de “direcionadores”. Já o sistema de mensuração e acompanhamento, o Conquiste, foi classificado como Rede Varejo Caixa. As metas são estabelecidas em âmbito nacional e distribuídas por superintendência e agências. Empregados em home office estão sendo orientados a realizar ao menos vinte contatos diários com clientes, todos direcionados para venda de produtos como cartão de crédito, crédito pessoal e de pessoa jurídica, previdência privada e seguros.
A posição do banco é duramente criticada pelo movimento sindical e vem gerando manifestação em vários níveis do funcionalismo.
“A Caixa tem tido papel destacado no atendimento emergencial à população, o que exige esforço extremo das equipes. É inadmissível que a realização de negócios e a venda de produtos tome lugar prioritário, exercendo ainda mais pressão sobre os empregados, que já estão adoecendo dadas as condições de trabalho durante a pandemia”, diz Rita Lima, diretora do Sindibancários/ES.
Rita destaca que a cobrança de metas para quem está em home office também afeta a rotina das agências, hoje sobrecarregadas com o atendimento dos serviços essenciais.
“Boa parte do trabalho iniciado remotamente precisa de interlocução com as agências, seja pela inconsistência do sistema ou pela impossibilidade de concretizar as operações. Algumas das metas, como contratos de empréstimo consignado, podem ainda aumentar a procura presencial dos clientes às unidades, inclusive de pessoas do grupo de risco, como aposentados. Significa que empregados hoje responsáveis pelo atendimento das políticas públicas serão direcionados para a resolução de problemas de venda, aumentando a sobrecarga e comprometendo o atendimento na ponta”, explica.
Ranqueamento
A cobrança de metas também recoloca para os empregados o problema de ranqueamento, medida expressamente proibida pela cláusula 39 da Convenção Coletiva da categoria.
“Uma vez que os dados de venda ficam disponíveis no sistema, a Caixa expõe novamente os funcionários a um ranking individual e coletivo, remontando os velhos instrumentos de pressão e assédio, que já foram alvo de negociação coletiva e que estão proibidos. Nesse sentido, o banco descumpre a Convenção Coletiva em mais uma irregularidade”, denuncia Rita.
Condições de trabalho e jornada
As condições de trabalho para os empregados em home office também foram criticadas pela diretora. “A Caixa está cobrando metas quando sequer garantiu a estrutura adequada para quem está em casa. Os bancários precisam usar sua internet e equipamento próprio, é absurdo”, ressalta.
Como parte da política de metas, a Caixa determinou a realização de uma videoconferência diária após o fechamento das agências, às 16h, o que interfere também na jornada de trabalho da categoria.
“Em função do pagamento do auxílio emergencial, muitas unidades da Caixa estão com horário de atendimento expandido. Gerentes gerais das agências, por exemplo, estão sendo convocados a trabalhar desde 7 horas da manhã, e com a realização das videoconferências no final da tarde, a jornada de trabalho para esses empregados pode ultrapassar 10 horas diárias”, alerta Rita.
A posição da Caixa gerou manifestação da Federação Nacional das Associações de Gestores da Caixa (Fenag). Em nota, a entidade destaca o grave quadro de contaminação por coronavírus, que já coloca o Brasil em segundo lugar em número de casos confirmados no mundo, e afirma que enquanto o confinamento social for imperativo, a realização de novos negócios é insignificante, devendo ficar restrita à demanda espontânea dos clientes.
O documento também critica a exigência de metas e a ampliação da jornada neste cenário emergencial. “Como se não bastasse o trabalho continuado em feriados e fins de semana, agora os gestores são obrigados a prorrogar suas jornadas para participar de videoconferências diárias, após o fechamento das agências, quando são repetidas cobranças de metas e resultados, pelos diversos níveis negociais. O mínimo que deveria ser garantido a quem demonstra tamanha abnegação é que fosse respeitado seu horário de retorno ao lar, para que pudessem recompor suas energias”, diz o texto.
Para a diretora Rita Lima, todos os empregados devem ter sua jornada e demais direitos respeitados. A postura do banco, diz a dirigente, só demonstra que a prioridade da gestão de Pedro Guimarães, atual presidente da Caixa, é o lucro, em detrimento das vidas da população e da própria categoria. “O banco age em consonância com as políticas de morte do governo federal e rompe com os acordos de prevenção negociados com a categoria. É um desrespeito profundo aos empregados que se dedicam à construção da Caixa”, conclui Rita.






