Cientistas encontram marcas do capitalismo nas ossadas de trabalhadores infantis ingleses

12/06/2023 01:00

Um estudo inédito da Universidade de Durham (Inglaterra) conseguiu identificar as sequelas da exploração do trabalho infantil nos corpos de crianças e adolescentes durante a Revolução Industrial (1760 - 1850). Nesta segunda, 12, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, o Brasil não tem nada a comemorar

Pesquisadores da Universidade Durham (Inglaterra) apresentaram um estudo inédito a partir das ossadas de crianças e adolescentes que estavam enterradas no cemitério de uma antiga igreja na cidade de Fewston, no condado de North Yorkshire, norte da Inglaterra. A coordenadora da pesquisa, a bioarqueóloga Rebecca Gowland, conta que foram estudados 150 esqueletos de trabalhadores infantis das indústrias fabris da Inglaterra durante a Revolução Industrial (1760 – 1850). Nesta segunda-feira, 12, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, o Brasil não tem nada a comemorar. Ao contrário, as marcas encontradas nas ossadas dos trabalhadores infantis ingleses continuam sendo reproduzidas nas crianças brasileiras em pleno século XXI.

Cientistas examinaram 150 ossadas de crianças que estavam enterradas no cemitério de uma antiga igreja na cidade de Fewston, no condado de North Yorkshire, norte da Inglaterra. (Foto: Universidade de Durham)

O trabalho de bioarquelogia das pesquisadores revelaram que as sequelas da exploração do trabalho infantil podem ser comprovadas nos corpos das crianças inglesas. Com alimentação precária e submetidas a jornadas extenuantes de trabalho, que chegavam a 14 horas diárias, esses trabalhadores sofriam de várias doenças causadas pelo trabalho precoce. Segundo a reportagem sobre o estudo, publicado originalmente pela BBC de Londres e replicado na BBC News Brasil, os esqueletos dos trabalhadores revelam as condições brutais às quais essas crianças e adolescentes eram submetidas diariamente. 

De acordo com as pesquisadoras, os ossos dos menores estavam deformados, eram curtos em comparação com o de outras crianças daquela época e mostravam sinais de deficiência de vitaminas e evidências de doenças respiratórias graves. “Observamos muitos defeitos nos dentes delas, o que demonstra a má saúde das crianças durante os seus primeiros anos de vida, incluindo o desenvolvimento intrauterino”, diz Rebecca Gowland. Também havia sinais de raquitismo e de outras doenças causadas por deficiências alimentares, como o escorbuto.

“Podemos diagnosticar estas condições porque elas deixam falhas nos ossos”, explica a professora. “A deficiência de vitamina D pode provocar certas inclinações dos ossos longos e outras alterações. A deficiência de vitamina C geralmente é observada na forma de lesões porosas em áreas específicas do esqueleto. As doenças respiratórias podem ser observadas com a formação reativa de osso novo nas costelas e nos seios paranasais”, completa Rebecca.

As pesquisadoras observaram também que as crianças eram extremamente baixas para a sua idade. “Quando uma criança não se alimenta o suficiente, seu corpo prioriza outras funções biológicas, especialmente o cérebro e o sistema imunológico. Isso ocorre com custo para o crescimento”, explica Rebecca. 

Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão), diretor do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários, o estudo é importante porque comprova a exploração a partir de dados científicos. “A história tem inúmeros registros que comprovam a exploração de crianças e mulheres nas fábricas têxteis da Inglaterra da segunda metade do século XIX, mas o estudo é um diferencial porque traz elementos científicos para provar que essa exploração deixou marcas nos corpos dessa massa de trabalhadores infantis. A revelação é importante para alertar que a ganância pelo lucro não tem limites. Para aumentar suas margens, o capitalista, muitas vezes, está disposto a matar. A morte prematura dessas 150 crianças estudadas é a prova irrefutável da selvageria capitalista”, aponta Carlão.

14 horas diárias de trabalho
Relatos da época recuperados pelo estudo das pesquisadoras inglesas revelam como era a vida cotidiana desses trabalhadores infantis na Inglaterra do século XIX. Essas crianças moravam em casas de aprendizes, com meninos e meninas separados. A jornada de trabalho era, em média, de 14 horas diárias, cinco dias por semana. Aos sábados, as crianças trabalhavam de 11 a 12 horas. 

Os ossos dos menores estavam deformados, eram curtos em comparação com outras crianças da mesma época e mostravam sinais de doenças respiratórias (Foto: Universidade de Durham)

As fábricas tinham plantas grandes e possuíam muitas máquinas pesadas e barulhentas. O barulho excessivo causava problemas de audição nos trabalhadores. Além da exploração em si dessa mão de obra infantil, o ambiente de trabalho era extremamente precário e insalubre, aumentando os riscos de acidentes, inclusive fatais. As chamadas crianças “reviradoras”, por exemplo, precisavam recolher o algodão que caía embaixo das máquinas em movimento. Os acidentes eram recorrentes. “Na fábrica de Fewston, um menino chamado Henry Ludley Marwood morreu quando seu braço ficou preso em uma máquina”, conta a professora. A partir de registros históricos da época, também há relatos de castigos físicos que eram aplicados com uma correia de couro nas crianças que interrompiam o trabalho para tentar descansar alguns minutos.

Trabalho infantil no século XXI

As pesquisadoras inglesas alertam que, infelizmente, o trabalho infantil não é um problema que ficou restrito aos achados arqueológicos do século XIX, mas uma questão recorrentes nos dias atuais. Segundo as especialistas, estima-se que 73 milhões de crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) em todo o mundo estejam envolvidas em trabalhos perigosos. É quase a metade dos 160 milhões de menores trabalhadores em todo o mundo.

“Acredito totalmente que a bioarqueologia tem lições importantes para nós no presente. É essencial que não continuemos a permitir que a história se repita”, afirma Rebecca. “Quando ouvimos sobre as crianças de Fewston, nós nos surpreendemos por estes menores terem sido tratados de forma tão abominável. Estas crianças foram desumanizadas e tratadas como ‘o outro’ ao longo da vida e o mesmo acontece hoje pelo mundo”, afirma a pesquisadora.

Trabalho infantil cresce no Brasil
No cenário de terra arrasada legado pelo governo Bolsonaro (2019 – 2022), o combate ao trabalho infantil também registrou retrocessos. Segundo dados da Andi – Comunicação e Direitos, o número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil subiu após a pandemia de covid-19. Até novembro de 2022, mais de 1,9 mil crianças e adolescentes foram flagradas em situação de trabalho infantil no Brasil. O número representa um aumento de 16% em relação ao ano anterior, quando 1,6 mil foram encontrados na mesma situação.

Foto: Ministério do Trabalho

“Sob Bolsonaro assistimos ao desmonte dos aparelhos de Estado que defendiam os direitos das minorias. Não por acaso vimos aumentar o número de trabalhadores infantis, o casos de violência contra a mulher, os ataques aos indígenas e flagrantes de trabalhadores em situação análogos à escravidão – na verdade, um eufemismo para a escravização contemporânea, que tem como principal opressor o empresário do agro”, afirma o dirigente do Sindibancários. 

Carlão acrescenta que o estudo das pesquisadoras causa mais impacto quando pensamos que no Brasil o trabalho infantil é normalizado e muitas vezes interpretado pelos neoliberais a partir do conceito de meritocracia como uma luz no fim do túnel para as crianças pobres de periferia. “Dentro daquela lógica perversa: ‘É melhor a criança trabalhar do que ficar na rua fazendo bobagem’, vai defender o capitalista de plantão”, critica Carlão. 

Os dados sobre o trabalho infantil no Brasil são considerados imprecisos e subestimados. Uma pesquisa realizada pela Fundação Abrinq apontou que em 2021, cerca de 1,3 milhão de adolescentes estavam em situação de trabalho infantil no país. O levantamento chamado “O Trabalho Infantil a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral”, realizado com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que 86% de adolescentes entre 14 e 17 anos que estão no mercado de trabalho encontram-se em situação de trabalho infantil. Em 2020 a taxa era de 84,8%. Quando a faixa etária de análise é ampliada, o Brasil tem mais de 1,7 milhão de meninos e meninas entre cinco e 17 anos com ocupações em atividades agrícolas e não-agrícolas, incluindo aqueles que trabalham em atividades produtivas para o próprio consumo.

A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) proíbe qualquer trabalho a menores de 16 anos, com exceção de casos em que são aprendizes, o que pode ocorrer a partir dos 14 anos. “O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil é de 1996, ou seja, está perto de completar três décadas. Entretanto, o trabalho infantil continua sendo uma realidade país afora. O resultado dessa distorção é o aumento da desigualdade social. A criança que trabalha precocemente, além dos problemas de saúde de ordem física e mental, terá seu desenvolvimento educacional comprometido. É urgente que o atual governo reorganize, amplie e fortaleça as políticas públicas de enfrentamento ao trabalho infantil”, finaliza Carlão.