No sexto episódio do podcast Projeto Querino, do jornalista Tiago Rogero, há uma passagem que narra a manifestação de escravizados contra um senhor de engenho. Os escravizados reivindicavam, por escrito, mais dois dias de descanso. No período da escravidão, os cativos geralmente não trabalhavam aos domingos. Era um dia que eles dedicavam à roça de subsistência e espacialmente ao culto aos orixás. Os escravizados em questão estavam submetidos à escala 6X1 e exigiam mais dois dias de descanso (sexta e sábado). Os escravizados justificavam: “Poderemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos, sem que nos impeçam e nem que seja preciso pedir licença”. Esse caso do engenho no sul da Bahia, ocorrido por volta de 1789, segue vivo mais de 200 anos depois. Podemos dizer que a mentalidade das elites pouco mudou da escravidão para cá?
É impossível comparar qualquer realidade contemporânea com a brutalidade da escravidão. O que aconteceu naquele período foi um crime contra a humanidade, um sistema que negava completamente a condição de ser humano. No entanto, quando nos deparamos com essa escala de trabalho 6X1, além de outras práticas que comprometem a vida dos trabalhadores, percebemos que ainda há resquícios daquela lógica de exploração. No exemplo dado, trabalhadores escravizados de anos atrás pediam apenas dois dias para viverem suas vidas, para sentirem a liberdade de ‘brincar, folgar e cantar’. Hoje, uma imensa parte dos trabalhadores ainda não conseguem isso. Não se trata de comparar períodos, mas de reconhecer que, para muitos, viver dignamente continua sendo um direito negado. A luta por dias de descanso é, no fundo, a luta por dignidade.
Você e a deputada Érika Hilton conseguiram emplacar uma pauta que une toda a classe trabalhadora. Mesmo trabalhadores que não estão submetidos a 6X1 parecem estar solidários à PEC. Qual a dimensão dessa onda criada pelo VAT e aonde ela pode chegar?
O VAT conseguiu transformar uma dor compartilhada por milhões em um movimento que ultrapassa categorias e ideologias. Ver tantas pessoas nas redes sociais e nas ruas demonstra isso. Quando até quem não trabalha no 6X1 se solidariza com essa causa, percebemos o quanto ela é urgente. Isso mostra que estamos tocando no que há de mais essencial: o desejo de viver dignamente. Essa ‘onda’ tem o potencial de reescrever a história do trabalho no Brasil. De salvar vidas. Ela já mobilizou milhões, já colocou o fim do 6X1 no debate nacional. E eu acredito que, se mantivermos o foco e a unidade, ela pode ir além da aprovação da PEC. Ela pode abrir as portas para repensarmos outras questões que há muito tempo estão negligenciadas no mundo do trabalho. O povo precisa entender sua força assegurada na Constituição. E já estamos entendendo.
Quais as estratégias que o VAT está planejando para manter a mobilização pelo fim da 6X1 em alta, ampliar o apoio da sociedade e aumentar a pressão sobre deputados e senadores para a que aprovem a PEC?
A mobilização não para. Nosso movimento é composto majoritariamente por trabalhadores. Pessoas que não fogem da luta. Estamos atuando em várias frentes: ampliar a conscientização com campanhas educativas, fortalecer parcerias e intensificar a pressão sobre os parlamentares. Mas também estamos olhando para as ruas e para as redes sociais, porque é nas ruas e nas redes que o debate ganha força. A força do VAT está em ser um movimento coletivo, enraizado na experiência real dos trabalhadores. É isso que nos diferencia. Não estamos apenas pedindo mudanças; estamos construindo um movimento que coloca o trabalhador no centro. Nossa estratégia é simples: manter a chama acesa, porque a luta só termina quando vencermos. E iremos [vencer].








