O III Encontro Estadual da Mulher Bancária continuou neste sábado, 05, no auditório do Sindicato dos Bancários/ES. Nesta manhã, foi realizado o painel de debate Mulher e Poder – Espaço Público e Privado. As palestrantes foram a doutora em Ciências Sociais pela Pontíficia Universidade Católica de São Paulo; Liliana Segnini, e a secretária de mulheres da Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), Deise Recoaro.
A abertura foi marcada por uma atividade mística, que remeteu à Idade Média. Nesse período, as mulheres que detinham o conhecimento da utilização de ervas medicinais para tratamento de doenças, o que dava a elas empoderamento, eram acusadas de ser bruxas e foram mortas por isso. A mística destacou que ainda hoje as mulheres têm esse domínio sobre o preparo das ervas, um saber passado de geração em geração.
Liliana Segnini falou sobre os resultados de sua pesquisa sobre como se dá a desigualdade de gênero no trabalho bancário, feita no antigo Banespa, hoje Santander. De acordo com ela, o estudo feito mostrou que somente cerca de 4% das mulheres chegavam aos cargos de chefia. “No decorrer da realização da pesquisa me aproximei de alguns sindicatos de bancários. E nessas entidades eu percebi que a mesma dificuldade que as mulheres têm de ocupar cargos de chefia nos bancos elas também têm no que diz respeito à diretoria das entidades sindicais”, afirma Liliana.
A doutora em Ciências Sociais também falou de outra pesquisa feita por ela, que se chama Plano de Demissão Voluntária no Trabalho Bancário: do Sonho da Liberdade à Vivência do Desemprego e do Trabalho Precário. Esse estudo também foi feito no antigo Banespa. “Após abandonar o trabalho bancário, as mulheres, ao contrário dos homens, se voltaram para o lar. Elas tinham autorização social para isso, os homens não. Isso resultou na redução da autoestima de muitas delas”, afirma Liliana.
Deise Recoaro apresentou uma pesquisa feita pelo Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese) sobre a desigualdade de gênero no trabalho bancário. Segundo a Secretária de Mulheres da Contraf, a maioria das bancárias estão nos bancos privados. Ela atribui isso a questões como o avanço na venda de produtos bancários. “Com o aumento da venda desses produtos houve um boom na contratação de mulheres nas instituições financeiras privadas. A imagem das funcionárias é usada para alavancar a comercialização. Inclusive, muitas ouvem de seus chefes que, para atingir as metas, é preciso aumentar o decote e encurtar a saia”, relata Deise.
Ela afirma, ainda, que a comercialização da imagem da mulher pode ser um dos fatores que influencia na queda do número de bancárias com mais de 39 anos. “A pesquisa mostra que há predomínio de mulheres na faixa etária entre 18 e 39 anos. Segundo as chefias, é porque, com a maternidade, muitas trabalhadoras optam por abandonar o mercado de trabalho. Porém, acreditamos que as empresas priorizam mulheres mais jovens por causa dos padrões estéticos impostos pelo banco para atrair clientes”, diz Deise.
De acordo com o estudo apresentado por Deise, as mulheres com Doutorado ganham -56% em relação aos homens. “As mulheres com essa titulação não conseguem ascender profissionalmente, ocupando nos bancos os cargos de menor remuneração. A diferença de salários prevalece em todos os níveis de instrução. Além disso, 80% dos diretores de banco são homens, 20 % são mulheres. Vale destacar que, além de homens, são brancos e heterossexuais”, ressalta Deise.
A bancária do Banco do Brasil, Nilva Felisberto, afirma que a realidade mostrada pelas palestrantes de fato faz parte do cotidiano das bancárias. “Muitas mulheres demonstram total competência. Porém, as gerências não reconhecem, acreditam que elas têm que ficar nos cargos mais baixos. Também é comum ouvir piadas machistas por parte de colegas, por exemplo, que determinada mulher vai crescer rápido profissionalmente por causa de seus atributos físicos”, diz Nilva.









