A greve dos entregadores de aplicativos (app) se espalhou por diversas cidades do país nesta quarta-feira, 1, especialmente nas capitais, onde se concentram as demandas pelo serviço e os trabalhadores que pedalam suas bikes ou aceleram suas motos. As hashtags #grevedosentregadores e #brequedosapps estiveram durante todo o dia entre os trending topics do Twitter, mostrando a capacidade de mobilização na novata categoria que foi para as ruas hoje não para fazer entregas, mas para protestar contra as péssimas condições de trabalho impostas pelas empresas de aplicativos.
ENTREGADORES DE APLICATIVO RECORREM À GREVE PARA LUTAR POR DIREITOS
Victor Lemão, que pedala há cerca de dois anos fazendo entregas na capital capixaba, avaliou como positiva a greve de estreia da categoria no Espírito Santo. Victor faz parte do Movimento dos Entregadores Antifascistas (MEAF), coletivo que surgiu nas manifestações de rua do final de maio deste ano em São Paulo, nas manifestações contra o fascismo e pela democracia. Galo, como é conhecido o motoboy Paulo Lima, foi quem plantou a semente da consciência de classe falando a um pequeno grupo de entregadores de São Paulo.
A mensagem de Galo foi gravada num vídeo que viralizou na velocidade das entregas entre os trabalhadores de app do país. O motoboy denunciava o novo precariado que surgia com a reforma trabalhista de 2017. Mesmos os que de cara não abraçaram a causa antifascista, se engajaram na greve desta quarta-feira por causa da pauta, que reivindica, entre outros pleitos, o aumento do valor recebido por quilômetro rodado e do valor mínimo de cada entrega, que é independente da distância percorrida e do tempo gasto pelo entregador; esse valor é fixado por cada empresa; fim das punições, como os bloqueios indevidos (quando os entregadores são bloqueados pelos aplicativos sem saber o motivo); auxílio pandemia (equipamentos de proteção individual – EPIs – e licença). Um dos pontos de destaque da pauta é o pagamento de um auxílio alimentação. Aliás, a frase de Galo, no vídeo viralizado nas redes sociais, marcou: “Não dá para entregar comida de barriga vazia”.
Greve no ES
Na estimativa de Victor Lemão, cerca de 50 motoboys e bikers se concentraram nas primeiras horas da manhã na Praça do Epa de Jardim da Penha. “Mais bikers do que motoboys. Porque a galera da bike é que sofre mais. Para gente é mais puxado. Acho que é por isso que se envolvem mais”, palpita. Por volta das 10h, eles começaram a percorrer as ruas de Vitória, seguiram pela Reta da Penha até as sedes de duas empresas de aplicativos, a Rappi e a Uber Eats. Victor disse que o auxílio alimentação é uma das reivindicações principais, mas ele também incluiu a necessidade de as empresas bancarem um espaço com banheiro, água e oficina para pequenos reparos de motos e bikes.
“Acho que já faz quase dois anos que faço entregas. Eu já estava engajado nessa onda de cicloativismo e pensei que poderia pedalar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Mas o valor caiu muito de lá pra cá. No começo, você pedalava menos e ganhava mais. Agora encheu de gente. Não tem limite. Se você se inscreve, a empresa te aceita na hora. Quanto mais entregadores, menos elas pagam”. Ele conta que há dois anos chegava a ganhar até R$ 12,00 por uma entrega. “Hoje não passa de R$ de R$ 4,00. Você fica à disposição da empresa o dia inteiro para ganhar R$ 24,00”, afirma se referindo ao ganho médio de um entregador de bike em Vitória.
Apoio
Victor avalia que a greve de hoje contou com o apoio da população. “Quando a gente passou pela Reta da Penha muitas pessoas nos saudaram das janelas. Os motoristas buzinavam em apoio”. As campanhas de mobilização nas redes sociais pediam o boicote por 24 horas a empresas como Ifood, Uber Eats, Loggi, Rappi, James, Click Entregas entre outras. A #brequedosapps também sugeria às pessoas que pedissem comida diretamente aos estabelecimentos e desse notas baixas nas lojas dos apps.
O coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES, Jonas Freire, afirma que é muito importante que as entidades sindicais e as organizações da sociedade civil em geral apoiem os trabalhadores de aplicativo nessa luta por direitos. “A categoria dos entregadores é o produto acabado da perversa reforma trabalhista que criou um contingente de trabalhadores informais desprovidos de quaisquer direitos. Mesmo com a pandemia, esses trabalhadores continuam nas ruas arriscando suas vidas para que uma parte da sociedade possa cumprir a quarentena. Essa exploração das empresas de aplicativo revela o quanto o ultraliberalismo é nocivo a essas novas categorias que já nascem precarizadas”, critica Jonas.
O sindicalista destacou que o Sindicato vai seguir apoiando esse e outros movimentos que estão se engajando na necessária luta de classes. “Os entregadores são vítimas dessa política ultraliberal que tenta convencer esses trabalhadores que eles não devem reivindicar vínculo ou direitos às empresas de aplicativo porque são “empreendedores”. Ora, todos nós sabemos que esse é mais um engodo dessa política do governo Bolsonaro, que vem tentando retirar mais direitos da classe trabalhadora. Essa luta é de todos nós que não aceitamos a precarização das relações de trabalho”, assinala Jonas.
Consciência de classe parece ser um capítulo que o núcleo duro plantando por Galo já entendeu bem. Victor disse que infelizmente uma parte da categoria ainda nega a precarização do trabalho e defende que as empresas não obrigaram ninguém a aceitar as condições e, portanto, não precisam ser responsáveis pelos entregadores. “Muitos afirmam que são empreendedores autônomos, que fazem seu próprio horário. Não é nada disso. Se você não liga o aplicativo e fica o tempo todo à disposição da empresa, acaba sendo punido com a redução de entregas”, denuncia Victor.
Victor diz que haverá uma reunião, sempre virtual, dos entregadores do Espírito Santo para avaliar o movimento desta quarta-feira. “Depois, levaremos essa avaliação para a reunião nacional, que vai fazer o balanço do movimento em todo o país”, explica.










