Quatro ex-presidentes da Caixa, entre os anos de 2003 e 2016, em artigo publicado na revista Carta Capital, alertam sobre o processo de desmonte do banco público. Na abertura do texto, Jorge Matoso, Maria Fernanda Coelho, Jorge Hereda e Miriam Belchior – que estiveram à frente do banco, nessa ordem – voltam a 1861, ano de fundação da Caixa, para traçar uma linha tempo que recupera a função social do banco que abriu as primeiras poupanças para os escravos obterem a alforria. Em seguida, destacam o protagonismo da Caixa na habitação, no FGTS, nas loterias, no saneamento, nos programas sociais e na recomposição da economia em momentos de crise, se valendo do seu DNA de ser o único banco 100% público.

Após esse preâmbulo, os quatro ex-presidente narram a trajetória tortuosa cujo banco percorreu, passando por apertos sob a gestão da ditadura militar, sobrevivendo às crises das décadas de 1980 e 1990 e à reestruturação patrimonial de 2001. Mais à frente, depois de um período de recuperação nos anos 2000, os ex-gestores da Caixa fazem um corte em 2016, sob o Governo Temer, como início de um período de ataques às empresas públicas que se intensifica com a eleição de Bolsonaro.

Resumem: “A Caixa sofreu um conjunto de políticas que desprezaram sua sustentabilidade com o claro objetivo de favorecer a liquidação da Empresa, fatiando-a para vendê-la em partes”. E completam: “Embora a Caixa esteja sendo verdadeiramente dizimada neste processo, o lucro extraordinário dos últimos anos favoreceu a desinformação, a proliferação de mentiras e o preconceito”. Narrativa que é atribuída a Bolsonaro.

Em seguida, os ex-presidentes demonstram que os resultados da Caixa de 2019 e 2020 escondem a verdadeira realidade do banco. “Uma análise minimamente realista mostra que esses resultados foram fruto basicamente de três fatores: da venda dos ativos da Caixa, do encolhimento da empresa e da queda das taxas de juros”.

Com relação aos resultados propalados pelo governo como extraordinários, eles esclarecem: “O comemorado resultado de 2019 foi, na verdade, um resultado medíocre e devastador para a Caixa pois, descontados somente esses dois componentes – R$ 11,5 bi dos resultados não recorrentes e R$ 4,17 bi de diminuição das provisões – o lucro líquido da Caixa seria pouco mais que R$ 5 bi naquele exercício [2019]. Em 2020, seguiu-se a mesma linha destrutiva e dos R$ 13,2 bilhões do lucro líquido da Caixa, R$ 5,9 bilhões foram provenientes de operações não recorrentes, como novos acordos operacionais firmados pela Caixa Seguridade e novas alienações de ativos”.

(Foto capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil)