Gestores relaxam protocolos e covid dispara nas agências do BB no ES

03/12/2020 11:18

Embora os dados apontem o crescimento da doença, os gestores têm relaxado os protocolos sanitários. Nas agências do BB da Glória e da Ceasa há vários funcionários infectados ou com suspeita da doença

(*Atualizada em 04/12/2020, às 17h58) O mapa da covid-19 coloca o Espírito Santo ao lado de mais sete estados que estão com crescimento acelerado de novos casos da doença (veja mapa abaixo). O índice de ocupação na rede pública de saúde capixaba das UTIs-Covid, que está em 82%, reflete esse novo pico da covid no Estado. A taxa de retransmissão (Rt) média da doença é de 1,16 no Estado, segundo levantamento do final de novembro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos e do Instituto Jones dos Santos Neves (NIEE/IJSN). Na Região Central-Sul, por exemplo, que engloba Cachoeiro de Itapemirim e outros municípios vizinhos, a situação é ainda mais crítica, com a taxa de Rt em 1,87. Isso significa que 100 pessoas podem retransmitir a doença para outras 187. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa de Rt acima de um traduz o potencial de propagação de um vírus em uma determinada localidade.

Embora os dados confirmem o avanço da pandemia no Espírito Santo, alguns gestores do Banco do Brasil no Estado parecem estar alheios aos dados da pandemia. A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Goretti Barone diz que os casos de covid têm se espalhado pelas agências do BB em vários municípios do interior e da Grande Vitória porque os gestores têm negligenciado os protocolos sanitários determinados pela OMS, Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e pelo próprio banco, que também tem suas normativas internas alinhadas às das autoridades de saúde

Agência Glória

De acordo com Goretti, os casos confirmados e suspeitos dispararam nas últimas semanas de maneira geral. Ela destaca, porém, os casos da agência Glória, em Vila Velha, e da Ceasa, em Cariacica. Na agência da Glória, dos 13 empregados banco, três já testaram positivo para covid, outros três que também apresentaram sintomas, aguardam os resultados dos exames. Há ainda dois bancários em home office. Além dos empregados BB, há o caso de um vigilante que também testou positivo.

A dirigente afirma que a contaminação se alastrou rapidamente porque os gestores não têm seguido à risca os protocolos sanitários. No caso da agência Glória, o primeiro a se contaminar foi justamente o gerente geral.

De acordo com denúncias recebidas pelo Sindicato, o gestor recebeu a visita de um familiar no dia 15 de novembro  que posteriormente testou positivo para covid. Somente no dia 24 de novembro após apresentar sintomas da doença que o gerente fez o teste para a covid-19.

“Após testar positivo, o gestor se afastou, mas outros funcionários da agência já começavam a apresentar sintomas: dois vigilantes e cinco empregados do banco”. Goretti relata que dessas pessoas com suspeita, apenas um dos vigilantes já recebeu o resultado positivo para doença. “O vigilante infectado é justamente o que estava fazendo a triagem dos clientes”, relata.

Sanitização tardia

“Primeiramente, é importante pôr os pingos nos is e esclarecer que não é função do vigilante fazer o serviço de triagem. Esses profissionais estão sujeitos a protocolos de seguranças determinados por normas internas do banco e pela Polícia Federal. Logo, se estão em desvio de função na triagem, não podem cumprir os protocolos de segurança, o que implica em riscos”, aponta Goretti.

A demora para fazer o teste, levou o gerente geral a julgar desnecessário realizar a sanitização da agência, alegando que já havia passado mais de 72 horas. A sanitização só foi feita tardiamente nessa segunda-feira, 30, após o resultado do teste do vigilante ter dado positivo.

Agência Ceasa

O relaxamento das medidas sanitárias se repete no Banco do Brasil-Ceasa, em Cariacica. Na agência, relata a diretora do Sindicato Evelyn Flores, o gerente geral e um vigilante testaram positivo para a covid e outros dois empregados afastados com suspeita aguardam os resultados dos exames. A dirigente diz ainda que os afastamentos comprometem o percentual mínimo (50%) de funcionários que precisa ser garantido para manter a agência em funcionamento. “Com esses afastamentos e com as possíveis confirmações, a abertura da agência ficaria inviabilizada pela insuficiência de funcionários”, alerta Evelyn.

A sindicalista afirma que o relaxamento das medidas sanitárias se repete em outras agências do BB pelo Estado. “Trouxemos os exemplos dessas agências para apresentar dois casos concretos, mas, infelizmente, temos recebido informações de outras unidades que estão com os mesmos problemas de não cumprimento dos protocolos sanitários, como sanitização da agência após confirmação de casos da doença e afastamento imediato de funcionários que apresentem sintomas. Se essas simples medidas fossem cumpridas, como preconizam as autoridades de saúde, evitaríamos a propagação doença, internações e mortes. Sim, mortes, porque o vírus continua matando. Mais de 173 mil brasileiros e brasileiras já perderam suas vidas para a covid. Só no Espírito Santo são 4.296 óbitos”, lamenta Evelyn.

Reunião com confraternização

Os superintendentes das regionais Vitória e Vila Velha têm demonstrado que estão dispostos a desafiar a covid. Dias atrás, relata Goretti, eles convocaram uma reunião regional/rede presencial com os gestores. “Ora, a reunião presencial não se justifica. Até audiências judiciais têm sido virtuais. Não bastasse, os gestores ainda promoveram uma confraternização ao final da reunião. Os responsáveis pela gestão das agências, que deveriam dar o exemplo, estão descumprindo os protocolos sanitários. Esse comportamento irresponsável se reflete no relaxamento das medidas nas agências, o que expõem empregados e clientes à contaminação”, assinala Goretti.

ES em alerta

Segundo o Painel Covid do Governo do Estado (dados atualizados até 30/11/2020), o Espírito Santo registra 190 mil casos da doença e 4.279 mortes. A taxa média de sete dias é de 1.538 novos caso e de 18 óbitos, de acordo com os dados do covid.mapbiomas.org (30/11/2020).

A curva de novos casos (média de sete dias) alcançou 1.596 em 5 de julho, no auge da doença. “Estamos praticamente com a mesma média registrada no período mais crítico da doença no Estado, que foi entre os meses de junho e julho [Confira gráfico comparativo ao lado). Mas parte da população não tem respeitado as medidas de distanciamento, tem provocado aglomerações e negligenciado protocolos básicos, como o uso de máscara e álcool gel. Esse relaxamento das medidas se torna ainda mais grave quando ocorre em ambiente institucional, caso das agências bancárias. Além de todos as medidas recomendados pelas autoridades de saúde, os gestores sabem que devem cumprir os protocolos internos. Mas, infelizmente, não é isso que vem ocorrendo na prática. Na contramão dos dados, os gestores têm afrouxado as medidas”, lamenta Goretti.

 

 

A dirigente orienta aos empregados que procurem o Sindicato e denunciem os gestores que não estão cumprindo rigorosamente os protocolos sanitários. “Cumprir os protocolos, sem exagero, pode fazer a diferença entre viver ou morrer. Quando uma pessoa é contaminada, nunca se sabe se o quadro vai se agravar, virar caso de internação e, por fim, óbito. É sempre importante repetir: ainda não há vacina ou cura para a covid. O cumprimento dos protocolos é ainda a maneira mais efetiva de se prevenir contra o vírus. Cuide-se e ajude a fiscalizar para o bem coletivo”, afirma Goretti.

(*As informações sobre o número de empregados que testaram positivo covid foram corrigidas: três empregados do banco e um vigilante testaram positivo até o momento. Com relação à data de sanitizaçào da agência, diferentemente do que foi publicado, o dia correto é 30 de novembro e não 01 de dezembro).