Igualdade de oportunidades: abismo de 34% separa remuneração de bancárias negras de bancários brancos

16/07/2026 18:26

Além das diferenças salariais na categoria, a mesa desta quinta (16) também debateu o endividamento da dos bancários, o assédio sexual e a redução da jornada (4X3)

Integrantes do Comando Nacional dos Bancários se reuniram com os representantes da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) para a terceira rodada de negociações da Campanha Nacional dos Bancários. O eixo Igualdade de Oportunidades discutiu as diferenças salariais entre bancários negros e brancos. Também entraram na pauta de discussões o endividamento da categoria bancária, assédio sexual e redução da jornada de trabalho para quatro dias de trabalho e três de descanso (4X3).

Para mostrar o abismo que existe entre as remunerações de brancos e negros na categoria, o Comando recorreu aos dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo o Dieese, as mulheres bancárias têm remuneração 18,4% inferior à dos homens bancários. Mas essa diferença aumenta consideravelmente quando se compara o salário de bancárias negras com o de bancários brancos do sexo masculino. Nesse recorte a diferença média é superior a 34%. “É inaceitável pensar que uma mulher negra que exerce a mesma atividade que um homem branco ganhe até um terço a menos. Não podemos mais tolerar essas diferenças salariais por gênero e raça”, afirmou Carlos Pereira de Araújo (Carlão), coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional.

O levantamento do Dieese também apontou que as mulheres bancárias têm menor ascensão a cargos de direção nos bancos. Considerando o recorte racial, pessoas negras (homens e mulheres) ocupam apenas 25,2% dos cargos de liderança, sendo que as mulheres negras compõem somente 9,7% dessas posições. “Os dados são inequívocos é confirmam como os bancários e bancárias negros são discriminados. Cobramos essa igualdade de oportunidade dos bancos e reforçamos que precisamos  criar condições de igualdade na carreira para trabalhadores e trabalhadoras negras”, ressaltou Carlão.

O Comando apontou ainda que, pelo ritmo registrado nos últimos anos, o setor levaria 40 anos para alcançar paridade salarial entre homens e mulheres. Chamou atenção também para o fato de as mulheres serem mais demitidas e as menos admitidas atualmente no setor bancário.

Para mudar essa realidade, a categoria reivindica:

– que cada contratação de pessoas negras seja notificada pelos bancos à Contraf;

– protocolo nacional de combate ao racismo, para que os trabalhadores saibam como lidar com casos praticados por clientes;

– comissão de heteroidentificação: criação de comissões paritárias, capacitadas para validar a autodeclaração de candidatos negros e garantir a aplicação correta das políticas afirmativas.

A Fenaban propôs que as denúncias de racismo praticadas por clientes sejam encaminhadas aos canais, já existentes nos bancos, de combate ao assédio. Esses canais também passarão a atender casos de LGBTfobia.

Sobre o assédio sexual, outro ponto também levado à mesa pelo Comando, os representantes da Fenaban afirmaram que concordam incluir na Convenção Coletiva de Trabalho a definição dos comportamentos que caracterizam assédio sexual ou condutas inadequadas (importunação). Essa lista será explicativa e ajudará na formação do quadro de funcionários.

“Desenrola Bancários”

Outro eixo de discussão foi o endividamento da categoria bancária. O Comando Nacional apresentou dados do endividamento da categoria e reivindicou e propôs um “Desenrola Bancário”, fazendo analogia ao programa recentemente lançado pelo Governo Federal.

Na Consulta Nacional que, neste ano, teve a participação de quase 55 mil respondentes, 71% da categoria afirmou que têm dívidas. Entre os endividados, 53% disseram possuir dívidas com cartão de crédito, 42% com crédito pessoal e 30% com cheque especial. O dado alarmante é que 30% disseram estar com as dívidas em atraso.

Segundo Carlão, o Comando reivindicou que os bancários nessa condição sejam isentos do pagamento de quaisquer tarifas bancárias. Pleiteou também que os bancos reduzam as taxas de juros e criem uma espécie de “Desenrola Bancários”. Carlão afirmou que o endividamento da categoria bancária reflete a situação de boa parte da população brasileira. “As pesquisas apontam que 80% da população têm dívidas. Desse total, 30% das famílias estão com contas em atraso”, lembrou o dirigente. De acordo com Carlão, bancos ficaram de dar um retorno sobre a demanda na próxima rodada de negociação.

Escala 4X3

A jornada de trabalho de quatro dias de trabalho sem redução salarial foi outro tema debatido na mesa. A reivindicação da jornada 4X3 já estava presente na campanha de 2024. “redução da jornada de trabalho há muito tempo não é mais uma utopia. Ao contrário, é uma realidade bastante tangível e urgente para os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Por isso há hoje uma grande mobilização para que o Senado ponha em votação o fim da escala 6X1, já aprovada na Câmara dos Deputados”.

Carlão avaliou como positiva a manifestação da Fenaban, que prometeu estudar a demanda. “Eles disseram que não há espaço para discutir essa pauta este ano, mas se comprometeram em trazer uma especialista na jornada 4X3 em empresas brasileiras para aprofundar o debate. Acho que podemos considerar um avanço a Fenaban aceitar pela primeira vez discutir o tema na mesa de negociações”, finalizou Carlão.