A disputa pela terra está definitivamente na ordem do dia, ou melhor, nunca saiu. Mas duas questões recentes trouxeram a discussão sobre a terra para o centro do debate. Na quarta-feira (28), sem a votação do relatório final, foi encerrada, com gosto de derrota para a extrema direita, a CPI do MST proposta pelo ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro e deputado federal Ricardo Salles (PL-SP), que é réu em uma ação que apura um esquema de exportação ilegal de madeira. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a tese do marco temporal para a demarcação de terras indígenas, decisão que pôs em polvorosa a bancada ruralista no Congresso. O lançamento do livro da professora Roberta Traspadini – “Questão Agrária, Imperialismo e Dependência na América Latina – A Trajetória do MST entre Novas-Velhas Encruzilhadas” – não poderia ser mais atual porque atravessa a questão da terra. O lançamento acontece nesta sexta-feira (29), a partir das 19h, no Centro Sindical dos Bancários, Ilha de Santa Maria, Vitória.
Para a professora da Universidade Federal da Integração da América Latina (Unila), no caso da CPI, a
extrema direita está tentando criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para atacar o PT. Com relação ao marco temporal, houve uma mobilização nessa quarta-feira (27) do lobby do agronegócio no Senado, que aprovou o projeto que vai na contramão da decisão do Supremo. Roberta diz que a oposição tenta usar a questão da demarcação das terras indígenas também para atacar o PT. “Por isso é muito importante desvincular a história de luta dos movimentos sociais da política partidária”. Ela enfatiza que manter a independência dos movimentos sociais é fundamental.
O livro de Roberta Traspadini trata da questão dos avanços do agronegócio no Brasil e a resistência do MST, um dos principais movimentos sociais da América Latina, cujo objeto de disputa é a terra e o trabalho.
A publicação, segunda a professora de Economia da Universidade de Federal de Uberlândia Marisa Amaral, que assina o prefácio do livro, “mapeia o que sempre fomos desde a colonização e o que sempre seremos sob as regras desse projeto societário baseado na ordem do capital, desigual e excludente por natureza […] que traça os nossos retrocessos no avanço, o nosso atraso na modernidade, ou o atraso que a modernidade é. Que nos mostra com clareza e argúcia que a acumulação primitiva é permanente num mundo em que acumular é a regra”.
Ainda no prefácio, Marisa acrescenta que a estratégia de encapsulamento e cooptação dos movimentos organizados, ao provocar certo apagamento da perspectiva progressista e, sobretudo, dos tensionamentos políticos por ela engendrados, encaminha o cenário para um recrudescimento do ultraconservadorismo, como, de fato, muito rapidamente se verificou no Brasil.









