Da esq./dir.: a primeira-dama Rosângela Silva (Janja), Jucimara dos Santos, cacique Raoni, Aline Sousa, Lula, Flávio Pereira, Ivan Baron, Weslley Rocha, Maurilo de Quadros. Mais à frente, o menino Francisco e a cadela Resistência, adotada por Janja na Vigília Lula Livre (foto: Tânia Rego/Agência Brasil).

Uma das imagens da posse do primeiro de janeiro de 2023, que sem dúvida entra para a história, é a de Lula subindo a rampa do Planalto ao lado de representantes do povo brasileiro. Exceção ao cacique Raoni, que é internacionalmente conhecido, as outras pessoas eram do chamado “povão”. Aline Sousa, mulher negra do movimento nacional de catadores, foi quem pôs a faixa em Lula, que antes passou pelas mãos de Ivan Baron, pessoa com deficiência e militante na luta anticapacitista; de Francisco, menino de 10 anos que é nadador; do operário Weslley Rocha; do professor Murilo de Quadros; da cozinheira Jucimara dos Santos; e do artesão Flávio Pereira. 

Após receber a faixa, bastante emocionado, Lula abriu o discurso no parlatório com um simbólico “boa tarde, povo brasileiro”. Ele explicou às mais de 40 mil pessoas que se apertavam para ouvi-lo na Praça dos Três Poderes, que o “boa tarde” era uma retribuição aos bons dias que recebera da militância da Vigília Lula Livre durante os 580 dias de cárcere em Curitiba (PR). 

A coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, que acompanhou a posse em Brasília, conta que a emoção contagiou as pessoas do começo ao fim da cerimônia. Entre essa multidão, recorda, estavam muitos trabalhadores e trabalhadoras, jovens, famílias inteiras. “Ali estava o povo brasileiro querendo fazer parte dessa festa histórica da democracia. Talvez, por isso, a subida da rampa com pessoas que representam a diversidade do nosso povo tenha mexido tanto com as nossas emoções”, diz a dirigente. 

Rita destaca alguns pontos altos do discurso. Ela disse que desde a campanha Lula prometeu acabar com a fome, que hoje afeta mais de 33 milhões de brasileiros, e reafirmou esse compromisso na posse. “Reassumo o compromisso de cuidar de todos os brasileiros e brasileiras, sobretudo daqueles que mais necessitam. De acabar outra vez com a fome neste país. De tirar o pobre da fila do osso para colocá-lo novamente no Orçamento”, garantiu.

A dirigente também apontou os compromissos assumidos pelo presidente com as mulheres. “Ele condenou a violência a qual as mulheres são submetidas diariamente, dentro e fora de suas casas, e também criticou o fato de as mulheres continuarem a receber salários inferiores aos dos homens, quando no exercício de uma mesma função. Lula já havia dito que pretende combater as diferenças salariais entre homens e mulheres nas empresas públicas. Indicou que começaria pela Caixa Econômica e o Banco do Brasil”. 

Rita Lima acrescenta que o presidente deu um passo importante nessa direção ao nomear duas mulheres para as presidências dos dois bancos públicos: Rita Serrano (Caixa) e Tarciana Medeiros (BB). A dirigente destacou ainda que o fortalecimento dos bancos públicos como indutores do crescimento e desenvolvimento econômico e social também foram pontos destacados por Lula durante seu discurso.

A dirigente lembra ainda que, mais cedo, durante a cerimônia de posse no Congresso Nacional, Lula prometeu rever a reforma trabalhista. “Vamos dialogar, de forma tripartite –governo, centrais sindicais e empresariais– sobre uma nova legislação trabalhista. Garantir a liberdade de empreender, ao lado da proteção social, é um grande desafio nos tempos de hoje”, afirmou o presidente.

“O papel do movimento sindical, que fez parte dessa frente que elegeu Lula, é acompanhar e cobrar o cumprimento dessa agenda social firmada com o povo brasilerio e com a classe trabalhadora. Os trabalhadores e as trabalhadoras precisam ter suas conquistas e direitos de volta”, enfatiza.

“Sem anistia”

Para Rita Lima, um dos momentos mais esperados do discurso na Praça dos Três Poderes foi a parte em que Lula fez críticas ao governo Bolsonaro. “Faltam recursos para a compra de merenda escolar; as universidades corriam o risco de não concluir o ano letivo; não existem recursos para a Defesa Civil e a prevenção de acidentes e desastres. Quem está pagando a conta deste apagão é o povo brasileiro”. Neste momento, Lula foi interrompido pelos populares que exigiam “sem anistia”, clamando que Lula não abrisse mão de responsabilizar Bolsonaro.  

Lula continuou: “Infelizmente, muito do que construímos em 13 anos foi destruído em menos da metade desse tempo. Primeiro, pelo golpe de 2016 contra a presidenta Dilma. E na sequência, pelos quatro anos de um governo de destruição nacional cujo legado a história jamais perdoará:700 mil brasileiros e brasileiras mortos pela covid”. 

“Foi muito forte esse momento em que as pessoas gritavam ‘sem anistia’. O grito manifestava um sentimento legítimo, um desabafo da população brasileira, que foi oprimida de todas as formas durante esses quatro anos de Bolsonaro. Não é questão de revanchismo, vingança ou de querer manter o país dividido. Mas é imperativo que Bolsonaro e seus cúmplices respondam pelos seus crimes. Como garantiu Lula, que essas apurações sejam feitas dentro do devido processo legal e com o amplo direito de defesa, condição que, aliás, lhe foi negada na manobra golpista engendrada por Sérgio Moro na ocasião da Lava Jato”, afirmou Rita Lima. 

“Deixei a Praça dos Três Poderes, como a maioria das pessoas, acredito, com uma profunda sensação de alívio. Conseguimos derrotar Bolsonaro e frear a marcha fascismo. Mas sabemos que a luta contra o bolsonarismo e o fascismo continua. Como disse Lula, se há duas décadas pedíamos ‘ditadura nunca mais’, agora defendemos ‘democracia para sempre’. Ao mesmo tempo, o movimento sindical deve se manter mobilizado para garantir que as nossas pautas sejam atendidas pelo governo Lula. São novos e novas lutas. Vamos em frente!”, finalizou Rita Lima.

(Foto capa: Tânia Rego/Agência Brasil)