O pedido de demissão de Rubem Novaes da presidência do Banco do Brasil, anunciada na última sexta-feira, 24, pegou o mercado de surpresa. Novaes teria entregue o pedido de demissão ao chefe e amigo pessoal, Paulo Guedes, justificando que sente falta da família, que mora no Rio de Janeiro. Em entrevista ao canal de notícias CNN, no sábado, 25, o presidente demissionário acrescentou que não se adaptou à “cultura de compadrio, privilégios e corrupção de Brasília. Nas últimas 72 horas, a imprensa vem especulando quais seriam os reais motivos da saída de Novaes, à frente do banco desde o início do Governo Bolsonaro.
Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Goretti Barone, a saída de Rubem Novaes pode ser explicada por um conjunto de acontecimentos. Ela cita a recente operação, no mínimo suspeita, envolvendo o BB e o BTG-Pactual e o financiamento de publicidade do banco em sites de fake news como fatos decisivos para a saída de Novaes.
No início de julho, Novaes anunciou a venda da carteira de crédito do BB para o BTG, banco do qual Guedes é o fundador. A transação teve o valor contábil de R$ 2,9 bilhões e impacto financeiro de R$ 371 milhões. “O fato causou estranheza porque foi a primeira vez na história do BB que uma operação de cessão de carteira de crédito foi realizada com uma instituição de fora do conglomerado do banco. Esse fato por si só já gerou suspeição. Impossível não suspeitar que a operação foi influenciada pelo ministro Paulo Guedes”, analisa Goretti.
A dirigente afirma que essa cessão de carteira precisa ser urgentemente esclarecida por Guedes e Novaes. Ela lembra que já há um requerimento protocolado na Câmara pelo deputado Glauber Braga (Psol) para que Novaes compareça à Casa para se explicar. “Há muito a ser explicada por Novaes. Foi uma operação sem nenhuma transparência que aparentemente representa perdas para o BB”, aponta Goretti.
Fake news
Outro fato que pode ter contribuído para o desgaste do presidente do BB foram os gastos com publicidade em sites que divulgam notícias falsas. Em junho deste ano, o BB foi acusado de financiar publicidade em sites bolsonaristas que propagam fake news, a maioria dos conteúdos tem cunho ideológico. A denúncia virou alvo de investigação do Tribunal de Contas da União (TCU), que determinou a suspensão dos contratos de publicidade do BB relacionados a propagandas em sites, blogs, portais e redes sociais.
Novaes, à ocasião, discordou da decisão do TCU de vetar a publicidade do banco e defendeu que o BB continuasse anunciando em sites comprovadamente propagadores de notícias falsas. Para a dirigente, o TCU agiu corretamente ao suspender a publicidade. A decisão, segundo ela, foi importante porque defendeu a empresa pública, além de determinar a regulamentação dos investimentos em publicidade do banco. “Esse episódio também deve ter pesado para a saída de Novaes, uma vez que o caso ainda está sob investigação do TCU e pode ter desdobramentos para o agora demissionário presidente”, assinala.
Sobre a sucessão de Novaes, Goretti confessa que não tem expectativa de que o novo presidente chegue para defender o BB e seus empregados. “Não dá para ter expectativa em nada que venha do Governo Bolsonaro”.

