
A pandemia está nos mostrando a importância de duas instituições públicas com históricos consagrados de serviços prestados aos brasileiros. O SUS, caçula, tem 30 anos de vida, mas já nasceu gigante. A Caixa completa 160 anos em janeiro de 2020. Não por acaso ficou conhecida como banco de todos os brasileiros.
Do tanto que já fizeram, SUS e Caixa não teriam obrigação de provar mais nada a ninguém. Mas são justamente esses dois gigantes que têm exercido um papel vital no enfrentamento desta que é a mais grave crise sanitária dos últimos 100 anos. Graças à Caixa e ao SUS, os impactos da pandemia, sobretudo entre os segmentos mais vulneráveis da população brasileira, não são ainda mais dramáticos.
Apesar da necropolítica ditada pelo Governo Bolsonaro, em alguma medida replicada por parte dos governantes estaduais e municipais que também puseram os interesses econômicos na frente da vida, o SUS vem cumprindo sua missão de assegurar o acesso universal à saúde.
“Precisamos para e refletir: se já perdemos mais de 183 mil vidas até agora, quantos mortes teríamos hoje se não houvesse o SUS? 500 mil, um milhão? Quem sabe? Num país pobre, com dimensões continentais, em que sete a cada 10 brasileiros não têm plano de saúde e dependem exclusivamente do SUS, a pandemia poderia ter contornos ainda mais catastróficos sem um sistema universal de saúde”, reflete a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Rita Lima.
Auxílio emergencial
Se de um lado o SUS vem aos trancos e barrancos cumprindo seu caráter universal na saúde, coube a Caixa, como banco público, mitigar os efeitos econômicas da crise sanitária com o pagamento do auxílio emergencial e outros benefícios sociais. A dirigente destaca que desde o início da pandemia, em 11 de março, os empregados da Caixa não arredaram o pé da linha de frente para assegurar que os mais vulneráveis recebam os benefícios e possam mitigar os efeitos econômicos da pandemia.
“Depois de nove meses de pandemia, trabalhando seis dias por semana, em jornadas exaustivas, encarando o vírus todos os dias, os bancários e as bancárias da Caixa estão física e psicologicamente esgotados, mas mantêm na frente o propósito social que somente um banco público é capaz de cumprir”. A sindicalista provoca: “Vamos repetir o mesmo exercício de reflexão que fizemos com o SUS. Se a Caixa não existisse, será que quase 70 milhões de brasileiros teriam recebido os benefícios sociais nesse tempo recorde?”, questiona.
Rita Lima afirma que somente os empregados da Caixa no Espírito Santo, até outubro deste ano, pagaram entre auxílio emergencial, bolsa família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) mais de 1,3 milhão de pessoas. “Estamos falando em mais de um terço da população capixaba (cerca de 4 milhões de habitantes)”, enfatiza.
SUS encolhido e Caixa fatiada
Enquanto o SUS se mantém valente absorvendo a demanda crescente da covid mesmo encolhido pela Emenda 95 que congelou por 20 anos os investimentos em saúde e ameaçado pela terceirização da rede de atendimento primária e hospitalar, a Caixa, por sua vez, segue pagando os benefícios sociais mesmo sob ataque cruzado do Governo Bolsonaro, que tenta burlar a Constituição para vender em pedaços os principais ativos do banco sem precisa do aval do Congresso. No início de dezembro, a MP 995, que abria caminho para a privatização da Caixa, caducou, mas o Governo Federal se mantém firme no seu propósito de vender o banco.
“A MP representava ameaça porque dava respaldo e acelerava esse processo de privatização, mas mesmo sem a MP o Governo Bolsonaro está decidido em atropelar a Constituição para vender a Caixa em fatias. Se o Governo de fato avançar com mais esse golpe, deve provocar uma ampla reação de parlamentares no Congresso, com desdobramentos na Justiça, além da pressão das entidades sindicais e da sociedade civil organizada que não aceitam que o Governo entregue esse valioso patrimônio que pertence a todos os brasileiros aos especuladores de plantão”, afirma a dirigente.
Outras estatais na mira
A ansiedade do mercado para a tal volta à normalidade não diz respeito à superação da crise sanitária, com a perspectiva de que a vacinação contenha finalmente as curvas de casos e morte da covid. As elites financeiras estão preocupadas com a retomada do processo de privatizações das estatais. Na mira, como alvos preferenciais dos investidores, estão Caixa, Petrobras, Banco do Brasil, Correios e Eletrobrás, só para ficar em cinco gigantes.
Paulo Guedes só espera o arrefecimento da crise sanitária para pôr em prática seu plano de privatização. O próprio ministro tem confidenciado à imprensa que está particularmente frustrado com o atraso da “black friday” do Governo, prevista para este ano e adiada pela pandemia. À Agência Brasil, Guedes declarou recentemente: “Nos próximos dois anos, vamos para o ataque. Vamos para as privatizações”, avisou.
Um privatista na Caixa
No caso da Caixa, o presidente da instituição, Pedro Guimarães, também tem dito abertamente que ainda no primeiro semestre de 2021 inicia a oferta pública de ações do banco (IPO). Guimarães não foi chamado por acaso por Guedes para assumir o comando da Caixa. Ele tem em seu currículo a privatização do Banespa. O banco estadual paulista, que chegou a ter mais de 37 mil empregados, foi vendido ao Santander, há 20 anos, por R$ 7,050 bilhões.
Para a dirigente, 2021 será um ano ainda mais duro para a classe trabalhadora e para as entidades sindicais. “Teremos que romper o ano já entrincheirados. Não podemos relaxar um só instante. Continuaremos sendo atacados pelo coronavírus e pela política ultraliberal do Governo Bolsonaro. Não importa qual empresa estatal será a bola da vez. É preciso que toda a classe trabalhadora, as entidades sindicais e os movimentos sociais se unam para fazer frente às ofensivas do Governo. Temos que lutar para que nenhuma empresa pública seja privatizada neste país. Ou lutamos, ou assistimos todo esse patrimônio virar pó”, alerta Rita Lima.

