Lideranças sindicais debateram nessa terça-feira, 17, durante a Plenária Emergencial dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, a urgência de o Governo do Estado decretar lockdown para conter o avanço do vírus e reduzir a pressão sobre o sistema de saúde do Espírito Santo, que já registra ocupação dos leitos de UTI acima de 90% desde a última segunda-feira, 16. “É preciso dizer que o sistema já colapsou. Quando o sistema de saúde entra em colapso, significa que não haverá leitos para as outras emergências diárias, como traumas, por exemplo”, afirmou a enfermeira e professora da Ufes, Ethel Maciel, pós-doutora em Epidemiologia pela Johns Hopkins University.
A especialista criticou as medidas de restrição anunciadas pelo governador Renato Casagrande nessa terça-feira, 17. “É claro que alguma medida é melhor que nenhuma, mas precisamos considerar que o vírus circula entre as pessoas. Para evitar a disseminação do vírus, precisamos reduzir a circulação de pessoas”. Ethel disse o grande fator de risco é a transmissão aérea do vírus. “Por isso temos que evitar locais fechados, aglomerados e que mais pessoas se encontrem todos os dias”, advertiu.
Na mesma linha, as lideranças sindicais também julgaram as medidas restritivas como insuficientes para essa fase mais aguda da pandemia no Espírito Santo. Carlos Pereira de Araújo (Carlão), representando a Intersindical, destacou que as medidas sacrificam, mais uma vez, a classe trabalhadora e beneficiam os grandes empresários.
“Defendemos o lockdown porque neste momento é a única alternativa para conter o vírus e evitar o caos generalizado. Como disse a professora Ethel, colapsado o sistema já está, e sabemos que as medidas anunciadas por Casagrande terão efeito paliativo. A situação que enfrentamos é extrema e por isso exige medidas extremas. Ou Casagrande fecha tudo hoje ou amanhã terá que abrir mais covas. A frase é dura, mas essa, infelizmente, é a realidade”, enfatizou o dirigente.
Essencial X não essencial
Carlão comentou também o fato de o Decreto 4838-R, publicado nesta quarta-feira, 17, no Diário Oficial do Estado (DIO-ES), ter classificado os bancos como atividade essencial. “Ao classificar atividades não essenciais como essenciais, o governador abre um precedente perigoso para o agravamento da crise sanitária porque estimula a circulação de pessoas ao invés de reduzi-la ao máximo”.
Ele citou o exemplo das agências bancárias, que no isolamento de abril, durante a primeira onda da covid, foram mais restritivas em relação ao funcionamento dos bancos, só permitindo o atendimento a situações extremamente urgentes e inadiáveis e ao pagamento de benefícios para mitigar os efeitos da pandemia. “Neste momento, com tudo colapsando, o governador simplesmente classifica as agências bancárias como serviços essenciais. Essenciais para quem? Para os banqueiros acumularem mais lucros?”, questionou.
Sobre os serviços essenciais Ethel Maciel apontou que o decreto não define políticas sanitárias para os serviços que continuam funcionando, como a atividade industrial, alguns comércios, como supermercados e farmácias, e as agências bancárias. “Venho insistindo sobre a necessidade de firmarmos um pacto social. Não basta apenas o decreto definir o que é ou não essencial. As empresas essenciais também podem e devem restringir a circulação”. A epidemiologista sugeriu que as empresas consideradas essenciais aumentem o número de empregados em home office e criem escalas alternativas para reduzir o número de empregados circulando pela cidade.
Pressão dos empresários
Filipe Skiter, da CSP-Conlutas, após criticar as medidas, disse que Casagrande e Bolsonaro não passaram no teste da gestão da pandemia. “Ambos cederam à pressão dos grandes empresários e permitiram que o trabalhador continue sendo explorado normalmente em plena pandemia”. Sobre o colapso do sistema se saúde, ele disse que é uma consequência da gestão que vem sendo feita pelo Governo do Estado. “Se estamos hoje com mais de 90% de ocupação nas UTIs, isso é resultado das medidas que deixaram de ser adotadas lá atrás. Quem paga a conta são os trabalhadores com suas vidas”.
Para Jonas Rodrigues de Paula, da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), a quarentena anunciada por Casagrande é uma decepção. O dirigente afirmou que esperava medidas mais rígidas. “É necessário construir um pacto social para evitar mais morte. Precisamos reagir”, assinalou.
Defesa do SUS
A defesa intransigente do SUS apareceu na fala da representante da Adufes e do Movimento em Defesa dos Direitos do Serviço Público de Qualidade, Junia Zaidan. Ela afirmou que a crise sanitária e a defesa do serviço público, especialmente do SUS, tem tudo a ver com o momento crítico da pandemia. “Como estaria a situação hoje se não fosse o SUS. Por isso defendemos a presença forte do Estado em todas as esferas da vida social”.
Junia acrescentou que os governantes não cederam à pressão dos empresários na hora de flexibilizar medidas restritivas para conter o vírus. “Os governantes não cederam porque já estão previamente a serviço dos grandes empresários”.
A presidente da CUT-ES, Clemildes Cortes, criticou a falta de diálogo do governo com os trabalhadores. “É preciso que o governo converse com as centrais sindicais”. A dirigente cobrou do Governo Casagrande a concessão de uma renda básica aos trabalhadores que estão desempregados. Ela também disse que as medidas anunciadas são insuficientes e defendeu o lockdown imediato.
Governador serve às elites
“As medidas anunciadas por Casagrande são fracas”, resumiu André Moreira, representando o Movimento Impeachment ES na Luta”. O advogado criticou as medidas por enquadrarem serviços não essenciais como essenciais. Ele citou a liberação do funcionamento de igrejas, agências bancárias e hotéis e pousados, que têm permissão para funcionar com 50% da capacidade de atendimento.
Ele acrescentou que a gestão da pandemia no Espírito Santo deixa muito a desejar. “Praticamente, desde o início da pandemia, estamos entre os dez estados com mais casos e mortes por 100 mil habitantes. Hoje somos o sétimo nos dois quesitos. São quase 6,8 mil mortes e 350 mil casos”.
Moreira disse ainda que o governador não tem autonomia política para anunciar o lockdown, que seria a medida mais adequada para este momento crítico da pandemia. “Casagrande não teve a ombridade de chamar a classe trabalhadora para fazer esse diálogo sobre as medidas, mas se preocupou em chamar os empresários. O que ele chama de setor produtivo, não inclui a classe trabalhadora”.
Carlão também criticou o governador Renato Casagrande que na hora de debater as medidas se preocupou em abrir canal de diálogo somente com os grandes empresários e se recusou a ouvir as centrais e entidades sindicais que representam a classe trabalhadora. “As escolhas do governador denunciam que sua gestão é seletiva. Casagrande está comprometido em atender aos interesses e às demandas das elites empresariais. O trabalhador não tem voz neste Governo”.

