Na manhã dessa quarta-feira, 28, o Santander ainda comemorava os resultados do segundo semestre de 2021: lucro líquido de R$ 4,1 bilhões, um aumento de 102,6% no comparativo com o mesmo período de 2020; em relação ao primeiro trimestre deste ano, o lucro saltou para 45,7%. À tarde, mal havia acabado de comemorar os resultados positivos com os acionistas, saiu a decisão da Justiça que condenou o Santander a uma multa de R$ 50 milhões por demissões durante a pandemia; por ataques aos participantes dos planos Cabesp e Banesprev; e perseguição aos dirigentes sindicais. A decisão é considerada inédita na história da Justiça do Trabalho de São Paulo, que considerou procedentes os argumentos apresentados na ação pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo.

O diretor do Sindicato dos Bancários/ES Jonathas Corrêa afirma que a decisão da Justiça é importante porque confirma que o banco intensificou as demissões em meio à pior crise sanitária dos últimos 100 anos. “Essa tem sido uma prática recorrente do Santander e de outros grandes bancos, alvo de críticas das entidades sindicais. Os bancos seguem acumulando lucro e demitindo em plena pandemia”.
Santander foi vice-líder em demissões em 2020
O dirigente lembra que o terceiro maior banco privado do país foi o segundo que mais demitiu em 2020, com 3.220 desligamentos, atrás apenas do Bradesco. Em 2019, o Santander tinha 47.819 empregados; em 2020 esse número caiu para 44.599, uma queda de 6,7%. Segundo Jonathas, os bancos registraram excelentes resultados em 2020 e seguem lucrando ainda mais em 2021, como apontam os resultados dos seis primeiros meses do ano.
“Tanto no ano passado quanto neste ano os lucros continuam nas alturas, mas os bons resultados não demoveram o Santander a rever essa política perversa que segue demitindo e aumentando a pressão sobre os funcionários por metas inatingíveis. A cada dia essa cobrança aumenta e se torna mais desumana. Os resultados são funcionários adoecidos e desmotivados”, critica Jonathas.
Demissões e prática antissindical
Jonathas afirma que a decisão da Justiça ganhou ainda mais peso por ter saído justamente no dia em que o banco anunciava os lucros. Na ação, o Sindicato de São Paulo que alega mesmo tendo obtido lucro de R$ 13,8 bilhões em 2020, o banco espanhol eliminou 3.220 postos de trabalho no ano passado, desrespeitando o compromisso assumido com o movimento sindical de não demitir durante a pandemia.
Num trecho da decisão, o juiz Jeronimo Azambuja Franco Neto, da 60ª Vara do Trabalho de São Paulo, assevera: “Um volume tão elevado de despedidas num momento de incertezas e medo, em que se fez necessário severo distanciamento para evitar a proliferação do vírus e quando os empregados não poderiam se reunir com o autor [Sindicato], revela (…), no mínimo, uma indisposição do empregador ao exercício da defesa de direitos das pessoas trabalhadoras através da atuação sindical”.
Mais à frente, o magistrado ressaltou que o Santander declarou não possuir nenhum interesse em conciliação, mesmo após ter sido convidado para a primeira proposta conciliatória pela Justiça. “Nada mais notório que vivemos em um país de extrema desigualdade (7º lugar como mais desigual, segundo a PNUD) e de cínica violência (1º lugar em taxa de homicídios por armas de fogo, segundo a Pesquisa Global de Mortalidade por Armas de Fogo do Instituto de métricas e avaliação em saúde”, apontou o juiz.
Para Jonathas, a decisão da Justiça do Trabalho reverberou o tom da crítica que as entidades sindicais vêm fazendo país afora aos grandes bancos durante a pandemia. “Desde o início da pandemia, o Sindibancários/ES vem fazendo críticas à postura dos bancos. Nesses 16 meses de pandemia os bancos, de maneira geral, têm sido negligentes na adoção de protocolos sanitários, têm aumentando a pressão por metas e demitido indiscriminadamente. Não por acaso, nossa campanha, desde março do ano passado, usa o seguinte bordão: ‘a vida vale mais que o lucro’. Mensagem que os bancos insistem em interpretar inversamente”, conclui Jonathas.

