Não bastasse a alta carga de pressão e a imposição de metas desumanas, a Caixa decidiu adotar um novo mecanismo para vigiar e punir seus empregados. O banco passou a divulgar em suas redes de comunicação um canal para “denunciar quaisquer práticas irregulares ou atos ilícitos que possuam o envolvimento de empregados”. Por meio do canal, anunciado na última terça-feira, 27, os próprios trabalhadores, colaboradores, clientes, usuários, parceiros ou fornecedores podem registrar denúncias.
Para integrantes da Comissão Executiva de Empregados (CEE/Caixa), o novo canal aumenta ainda mais a pressão sobre os empregados, principalmente quando somado a outro normativo que impõe punição.
A diretora do Sindibancários/ES e integrante do CEE/Caixa, Lizandre Borges, afirma que o canal é mais uma excrescência da gestão Pedro Guimarães. Ela diz que o presidente da Caixa, afinado à política ultraliberal de Bolsonaro e Paulo Guedes, tem como alvo preferencial o trabalhador. “A ordem é atacar o trabalhador, retirar direitos e garantias e deixá-lo cada vez mais vulnerável, criando mecanismos de controle e punição como esse”.
Panóptico de Foucault
Segundo Lizandre, a construção do formulário criado para o canal de denúncia deixa evidente que o propósito é alertar o empregado que ele está sendo vigiado e que se andar “fora da linha” pode sofrer punições. Uma das questões do formulário pergunta: “Como tomou conhecimento deste fato/transgressão?”. As opções sugerem: “ouvi falar”, “ouvi por acaso”, “um colega de trabalho me contou”. A dirigente diz que a subjetividade dá margem para que as denúncias sejam distorcidas ou mesmo inventadas.
“Não é absurdo afirmar que o mecanismo da Caixa lembra o panóptico de Foucault, na obra ‘Vigiar e Punir’ [Michel Foucault – 15/10/2916 – 25/06/1984]. É a vigilância generalizada, direta, contínua. Como diz Foucault, a sociedade capitalista quer ter o poder de controlar com o intuito de garantir que o trabalhador produza mais e melhor. Quem não se enquadra no modo de produção capitalista é punido”. Lizandre acrescenta que o canal pode ser usado inclusive para perseguir política e ideologicamente os empregados.
“É um instrumento de perseguição e exposição desnecessária do empregado. A Caixa tem outros instrumentos para apurar irregularidades e a forma como esse canal de denúncias está sendo usado fragiliza ainda mais o empregado, que sofre com a pressão constante da direção do banco”, avalia a coordenadora da CEE/Caixa, Fabiana Uehara Proscholdt.
Em vez desta “intimidação”, a coordenadora argumenta que a Caixa deveria investir em instrumentos que ofereçam melhores condições de trabalho. “Se o atendimento não é melhor, é porque não tem trabalhadores o suficiente para atender com mais qualidade, além de existir a cobrança da Caixa por metas desumanas”, analisa.
Caixa lava as mãos
Além do novo canal, Lizandre lembra que a Caixa já utiliza outros mecanismos de controle dos empregados. Ela cita o normativo CR 444, o Programa de Incentivo às Práticas de Vendas Qualificadas (PQV). Com este normativo, os trabalhadores podem ser punidos por aspectos comportamentais que podem ocasionar em descomissionamento.
PQV, diz Lizandre, já é uma ferramenta de controle e pressão para tentar tirar mais resultados dos empregados. “Em síntese, o PQV é uma máquina de triturar empregados. Dentro da lógica neoliberal, onde meritocracia e competitividade são valores consagrados, o PQV tem uma veia ainda mais perversa: isenta o banco de responsabilidades e as transfere para os empregados. Aqui vale a Lei de Pilatos, a Caixa simplesmente lava as mãos e entrega a cabeça do empregado ao cliente”
Pronampe
Um exemplo que contextualiza essa prática da Caixa tirar o corpo fora e empurrar a responsabilidade para o empregado é o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). De acordo com o artigo 6o. da Lei 14.161, que tornou o Pronampe permanente, o banco não pode obrigar o cliente a contratar qualquer outro produto ou serviços financeiros para ter acesso à linha de crédito.
No entanto, o Customer Relationship Management (CRM) Caixa determina uma meta de ao menos 70% dos clientes com contratação do Pronampe tenham outros produtos do banco. Assim, mesmo que o cliente concorde em contratar o programa e outro produto, se ele apresentar posteriormente uma reclamação, o empregado poderá ser responsabilizado e, em regra, sem ter chances de se defender.
“É um verdadeiro escárnio com os empregados. A Caixa transfere a culpa para o empregado, que é obrigado a seguir uma política da própria empresa. Na prática, o cliente pode simplesmente usar o canal de denúncia para reclamar que o empregado condicionou a liberação do Pronampe à aquisição de outro produto. No final das contas, só o empregado será punido. A Caixa vai alegar que nunca fez essa imposição ao empregado”, assinala Lizandre.

