Uma semana depois de publicar fato relevante ao mercado, anunciando a contratação do banco Genial como assessor financeiro para buscar parceiros comerciais com vistas à privatização da Banestes Seguros, o banco capixaba, em novo comunicado ao mercado publicado nessa segunda, 23, informou os cancelamentos dos processos referentes aos fatos relevantes dos dias 14 de julho e 17 de agosto. No primeiro comunicado, do dia 17, o Banestes anunciara o processo de seleção de assessorias financeiras para “potencializar os negócios da seguridade”; e, cerca de um mês depois, comunicara ao mercado que a empresa escolhida era o banco Genial, que tem entre seus sócios remanescentes do banco Pactual, fundado em 1983 pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes.

No fato relevante dessa segunda, o Banestes não explica por que decidiu cancelar o processo com o Genial. A nota é evasiva: “(…) em razão de redefinição estratégica para ajuste de abrangência das parcerias, estão cancelados os processos a que se referem os Fatos Relevantes publicados nos dias 14.07.2021 e 17.08.2021”.

O principal jornal de economia do país, Valor, repercutiu o recuo do Banestes. A publicação apontou que o banco capixaba “cancelou o processo sem dar explicações”. Ainda, de acordo com a sucinta nota, o Banestes informa que “iniciará uma nova seleção de assessores financeiros com o específico objetivo de buscar parcerias comerciais que possam potencializar a atuação da Banestes Seguros”.

Privatização mantida

Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Jonas Freire, a ameaça ao povo capixaba e aos funcionários e às funcionárias do Banestes de privatizar o banco público e estadual, a partir da seguradora, está mantida. Segundo o dirigente, o governador Renato Casagrande e o diretor-presidente do Banestes, Amarildo Casagrande, seguem convictos no propósito de privatizar a empresa.

“Ainda não sabemos o que motivou a direção do Banestes a decidir cancelar inesperadamente o processo com o Genial. Digo processo porque a informação que circulava na semana passada na seguradora é de que ainda não havia um contrato formalizado com o Genial, mas o banco já estava, no dia seguinte (18/08/2021) ao anúncio do fato relevante, solicitando informações à seguradora para dar início ao trabalho de assessoria. Se de fato não havia um contrato formalizado, isso é muito grave. Ainda mais agora com o cancelamento do ‘processo’ com o Genial. O banco pode ter recebido informações sigilosas da Banestes Seguros sem ter sequer um contrato”, assevera Jonas.

Uma fonte ligada à diretoria, que não quis se identificar, adiantou, na semana passada, que circulava a informação de que o Banestes deveria publicar uma retificação referente ao fato relevante do dia 17, no qual anunciou a “contratação” do banco Genial, mas surpreendeu o cancelamento do processo com a assessoria.

Amarildo confirma venda

No último dia 17, mesmo dia em que publicou fato relevante comunicando a contratação do Genial, Amarildo Casagrande convocou uma conferência virtual com os funcionários para informar que a contratação do Genial tinha o propósito de constituir uma nova companhia de seguros. Sem rodeios, o diretor-presidente adiantou que o controle acionário (51% das ações) ficaria com a nova empresa; ao governo caberia 49% das ações.

“Só a carcaça”

O diretor do Sindicato alerta que a criação do novo CNPJ, que deve ser controlado por capital majoritariamente privado, representa o enfraquecimento de todo o Sistema Financeiro Banestes e a privatização da seguradora de uma forma maquiada.

“O roteiro desse filme é idêntico ao da Caixa. Se você disser a Pedro Guimarães [presidente da Caixa] que a IPO da Caixa Seguridade é na verdade uma venda fatiada do banco público federal, ele vai negar. O mesmo dirá Amarildo se for questionado sobre a venda da Banestes Seguros. Vai jurar de pés juntos que a venda da seguradora não significa abrir a porteira para a privatização do Banestes. Mas nós já conhecemos o spoiler desse filme. A privatização começa com a venda dos ativos mais valiosos até sobrar somente carcaça do Sistema Financeiro Banestes”, alerta Jonas.

Valioso ativo

De acordo com os relatórios financeiros divulgados no site do Banestes, a principal receita da seguradora em 2020 foi de R$ 157,2 milhões. Mesmo com os efeitos da pandemia sobre a economia, a seguradora conseguiu aumentar seu resultado em 2,5% em relação ao ano de 2019.

Jonas chama atenção para o fato de o próprio relatório de administração do primeiro semestre de 2021 ter destacado que “mesmo diante do cenário desafiador em função da covid-19, a Seguradora inovou na criação de produtos e cresceu em produtividade,  aumentando seu prêmio ganho em 14%. Crescimento registrado em todas as carteiras,  com destaque para a carteira de Vida, com incremento de 20% comparado com o mesmo período de 2020″.

Ao ler o relatório, afirma o dirigente, a sensação que se tem é de que a seguradora está esbanjando saúde financeira e no caminho certo para se expandir. A direção exalta ainda que a Banestes Seguros “investiu em talentos, desenvolveu sua cultura interna e organizacional, melhorou a comunicação entre as equipes e reduziu despesas administrativas”.

Negócio inviável

Mas se o discurso feito para fora enaltece as conquistas da Banestes Seguros, para dentro, a conversa é outra. Na videoconferência do dia 17, Amarildo afirmou que os negócios da seguradora eram inviáveis. O diretor-presidente disse que “entraves” de cunho legal e tecnológico impedem a seguradora de ser competitiva  e comprometem seu valor de mercado.Ele destacou que “a perda do controle acionário é uma medida a ser tomada o quanto antes, a fim de evitar que, em pouco tempo, ninguém se interesse pela companhia”.

Para Jonas Freire, as declarações de Amarildo Casagrande são gravíssimas porque condenam um dos principais ativos do banco.  O sindicalista afirma que a direção do banco tenta convencer os banestianos de que não há saída para a seguradora, que empresa é um trem fora de controle em direção ao abismo e somente a privatização poderá salvá-la da tragédia maior.

“Esse é o mandamento número um da cartilha dos privatistas. É sempre assim, eles colam o selo de ineficiente nas empresas públicas e nos servidores para justificar a venda. Estamos vendo isso agora com os Correios. Estão construindo uma grande farsa para justificar a venda da maior empresa de logística da América Latina”, aponta.

Descaso

Em todo processo de privatização existe uma preocupação com o futuro dos servidores que passam a ficar vulneráveis. Mas a manutenção dos empregos parece não ser uma preocupação do governador Renato Casagrande e da atual gestão do Banestes. Amarildo deixou claro que esse não é um problema do Banestes. Ele informou na mesma reunião virtual que os atuais funcionários da Banestes Seguros serão cedidos em sua totalidade à empresa que será criada e submetidos, no que diz respeito aos direitos e obrigações trabalhistas, às regras da nova companhia.

“Em outras palavras, ele está dizendo que os benefícios que integram a remuneração dos empregados da Banestes Seguros hoje, como o fundo de previdência complementar, participação nos lucros e resultados, remuneração variável, plano de saúde e ticket alimentação/refeição, estão em risco. Ora, todos nós sabemos que uma empresa privada não vai manter os atuais direitos conquistados ao longo de décadas pelos banestianos. A insensibilidade da direção do Banestes chega a ser perversa, ainda mais em meio a uma pandemia e a uma crise econômica gravíssima que já pôs mais de 15 milhões de brasileiros na fila do desemprego”, critica Jonas.

Na reunião, o diretor-presidente do Banestes disse ainda que “os empregados receberão o que a nova empresa estiver disposta a oferecer e que as regras serão definidas pela nova empresa”, a partir do momento em que a cessão dos empregados ocorrer.

Mas a maior preocupação dos colaboradores da seguradora foi a incerteza expressa na fala de Amarildo quanto à garantia de estabilidade na nova empresa e o que acontecerá àqueles que forem dispensados ou não aproveitados. Sobre a incorporação de funcionários, o diretor-presidente do Banestes foi categórico: “Não há a mínima possibilidade, pois tal atitude vai de encontro à estratégia de modernização dos processos internos do Banestes, que têm acarretado a redução do número de agências, e o enxugamento do quadro de empregados”, sentenciou.

Reunião

O dirigente Jonas Freire informou que nesta quarta-feira, 25, diretores do Sindicato se reúnem com o diretor-presidente do banco para discutir todo o processo das últimas semanas que envolve a seguradora e a ameaça iminente da privatização fatiada do Banestes.

Segundo Jonas, todo o processo de uma iminente venda da Banestes Seguros, do anúncio do fato relevante ao mercado aos detalhes revelados por Amarildo Casagrande durante a reunião, precisam ser profundamente discutidos e esclarecidos ponto a ponto.

Primeiramente, continua o dirigente, houve uma total falta de respeito do governador e da direção do Banestes com os funcionários e as funcionárias desde o início desse processo. “Estão todos aflitos e ansiosos porque não sabem o que o futuro lhes reserva. Faltou também transparência nessa operação envolvendo a Banestes Seguros”.

Ele diz que o Sindicato quer saber se de fato o banco Genial foi formalmente contratado e começou a trabalhar sem que houvesse um contrato assinado. “O Banestes também precisa explicar por que decidiu cancelar o processo com o Genial de uma hora para outra. Há muita coisa a ser explicada e esperamos que essas questões sejam esclarecidas na reunião desta quarta”.

Casagrande não cumpre promessa de campanha

Importante lembrar que na ocasião da campanha ao governo em 2018, o então candidato Renato Casagrande assinou um termo de compromisso proposto pelo Sindicato. No documento ele empenha a palavra prometendo que não privatizaria o Banestes. “Casagrande quebrou essa promessa de campanha quando iniciou, ainda em 2019, a terceirização das áreas de tecnologia do banco. Agora quer vender um dos principais ativos do Banestes”, protesta Jonas.