
Sérgio Rosa: atuar junto ao Conselho de Administração
Resiliência, aprendizado, energia, amor, luta, direito, participação, união, interação, pertencimento, sinergia, persistência, consciência, conscientização, equidade, ousadia, diversidade e compromisso. Com essas palavras, os bancários presentes ao Congresso Estadual dos Funcionários do Banco do Brasil na sexta-feira, 30, resumiram o dia de trabalho, que começou com uma dinâmica envolvendo poesia e montagem de quebra-cabeças e terminou com a reflexão: “somos uma peça e conectados formamos um todo; a categoria unida consegue alcançar conquistas”.
Os funcionários do BB decidiram no evento iniciar um movimento no Espírito Santo para pressionar o governo federal a mudar a orientação para o Banco do Brasil, colocando o foco no que se espera de um banco público e voltado para o desenvolvimento do país. Nesse sentido, ações serão adotadas na busca de envolver todos os bancários, a sociedade civil organizada e parlamentares capixabas para forçar que esse debate chegue ao governo federal, controlador do banco.
A reivindicação do movimento terá como base o documento produzido pela Contraf e o Comitê de Luta em Defesa do BB por ocasião das eleições de 2022. Intitulado Propostas para o Banco do Brasil público em um governo democrático e popular, o documento foi apresentado à equipe de transição do governo Lula, mas não saiu do papel até agora.
Segundo o ex-presidente da Previ e da extinta Confederação Nacional dos Bancários (CNB), que deu origem à atual Contraf, Sérgio Rosa, que foi o palestrante da mesa BB: sua função social no desenvolvimento do país, a grande questão é atuar junto ao governo para que as diretrizes e metas sejam alteradas no Conselho de Administração.
“O Conselho de Administração é onde o agente controlador [governo] se expressa. É competência do Conselho de Administração fixar o plano anual, as diretrizes, as metas, a aprovação dos orçamentos do banco. Então, a diretoria do banco tem mais a função executora de uma política. Mas a estratégia é traçada no Conselho. E o fato é que as metas e diretrizes do Banco do Brasil não se alteraram muito ao longo dos últimos anos, sobretudo naquelas coisas essenciais que são as exigências de rentabilidade, ou seja, quando se exige uma rentabilidade do banco próximo de 20% sobre o patrimônio ou acima disso, você força o orçamento do banco a projetar negócios e operações que alcancem esse retorno, empurrando o banco no sentido contrário ao projeto de banco social, no sentido de fazer as operações mais lucrativas”, explicou Rosa.
Essa estratégia força os funcionários do Banco do Brasil a repetir em grande medida o que fazem os bancos privados, pois, na prática, há uma concorrência por resultados entre Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Santander. Rosa destaca que “criou-se um conceito geral, uma cultura geral – aquelas coisas que vão ganhando força de verdade – de que a comparação de eficiência do banco se dá quando a instituição atinge resultados semelhantes a outros bancos. Compara-se a rentabilidade, compara-se o custo médio, compara-se o número de funcionários, o custo médio dos funcionários. Então cria-se um conceito geral na sociedade no qual a administração do banco, voltada para esses mesmos princípios estratégicos, acaba sendo um sinal de eficiência”.
Ele complementa: “Seria uma ousadia e, na nossa opinião, uma ousadia necessária, romper com isso. Mas essa ruptura tem que ser feita em conjunto com o Conselho da Administração, sendo uma expressão da vontade do controlador, que é o governo”.
Na sua avaliação, “o governo Lula tem clareza das necessidades regionais e da necessidade de desenvolvimento, tem a visão de desenvolver o país de maneira mais igual. E o BB poderia ter um papel muito importante nesse sentido, pela capilaridade da rede de agências, funcionários capacitados, embora estejam sendo treinados para serem hoje vendedores de produtos”. É preciso romper com a concepção política-econômica que vai orientando as políticas nacionais para os bancos numa lógica mercadológica, de eficiência empresarial dos bancos.
Rosa defende, ainda, a retomada do debate da regulamentação do sistema financeiro nacional. “Uma das tarefas é reativar esse debate. O ambiente é muito desfavorável. Os avanços que o sistema financeiro deu no sentido de construir sua autonomia são muito desfavoráveis. Se o BB der uma guinada vai sofrer críticas da mídia, vão falar que estão colocando em risco o banco. Mas o BB tem que estar articulado para ser um indutor de desenvolvimento, dar outra natureza para o trabalho do bancário. O bancário gostaria de ver uma maior eficácia social do seu trabalho”.









