Em 2012 os bancários eram 56% dos trabalhadores do ramo financeiro. Uma década depois, esse percentual caiu para 44%. Em números absolutos significa que a categoria registrou uma queda 70.275 (-13,7%) vínculos empregatícios no período, de 512.835 (2012) para 442.560 bancários (2021). Enquanto o número de bancários encolhia, outras categorias do ramo financeiro registraram aumento de 60,4% entre 2012 e 2021. Isso representa 215.542 novos vínculos de trabalho. Os dados são do “Perfil da Categoria Bancária e Demais Trabalhadores e Trabalhadoras Formais do Ramo Financeiro na Última Década – 2012-2022”. O estudo foi produzido pela Contraf em parceria com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

A cartilha, como é chamada a publicação do Dieese, tem o propósito de mostrar ao movimento sindical as profundas transformações que estão ocorrendo no ramo financeiro. “É possível notar, principalmente na última década, uma tendência de fragmentação do emprego no setor financeiro brasileiro, com a força de trabalho sendo pulverizada em diferentes categorias para além da bancária, como os securitários ou os trabalhadores e trabalhadoras de cooperativas de crédito. Nota-se ainda o crescimento do emprego não assalariado com aumento dos trabalhadores autônomos e plataformizados, por exemplo”, diz o texto de apresentação do estudo. O Dieese destaca que os dados foram pesquisados com base na RAIS (Relação Anual de Informações Sociais). Como a RAIS é uma base que abrange os trabalhadores e trabalhadoras formais da economia brasileira, o Dieese pretende complementar o levantamento com outros estudos, análises e pesquisas que permitam ampliar o arco de compreensão das entidades sindicais para os segmentos que ainda não estão protegidos pelo assalariamento formal.
Para o dirigente do Sindibancários/ES Fabrício Coelho, que vem acompanhando de perto as transformações do ramo financeiro, a reestruturação tem o objetivo de aumentar as margens de lucros dos bancos em cima da exploração do trabalhador. “Esse é o propósito central”. Segundo Fabrício, o arranjo encontrado pelos bancos para alcançar esse objetivo foi reduzir o número de bancários que estão no centro do ramo financeiro. “No centro do setor, os trabalhadores têm direitos, garantias, estrutura sindical e estão amparados por Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) e Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). É uma categoria organizada, e isso incomoda”.
Os bancos, destaca Fabrício, passaram a transferir boa parte de suas operações para a chamada periferia do setor, onde hoje se concentram os trabalhadores submetidos a precárias condições de trabalho, remuneração mais baixa e jornadas mais ampliadas em relação aos bancários.
A cartilha do Dieese faz um comparativo entre os bancários e os demais trabalhadores do ramo financeiro, apontando que um grande precariado está se consolidando nas franjas do setor. O estudo compara, por exemplo, a remuneração média real deflacionada com base no INPC-IBGE (abaixo). O bancário, em 2021, tem salário médio de R$ 10.060, jornada semanal média de trabalho de 35 horas e permanece no emprego em média 97 meses (pouco mais de oito anos). Já os demais trabalhadores do ramo financeiro têm salário médio de de R$ 6.284, jornada de 38 horas semanais e ficam no emprego em média 60 meses (cinco anos).

Discrepâncias
Dentro do universo das demais categorias do ramo financeiro há discrepâncias nas condições de trabalho. O estudo do Dieese selecionou as principais categorias a partir da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) para mostrar a diversidade de carreiras. “Fica patente no comparativo que as categorias com grande concentração de trabalhadores remuneram pior. É o caso, por exemplo, das cooperativas de crédito, que crescem em ritmo frenético em todo o país”. No Espírito Santo, já são mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras. A remuneração média é menos da metade na comparação com a de um bancário e a jornada de trabalho mais extensa. Não por acaso, esses trabalhadores permanecem em média quatro anos no emprego”, afirma o dirigente.
Além das cooperativas de crédito, a cartilha do Dieese ainda destaca o crescimento dos trabalhadores das áreas de seguros, previdência complementar, planos de saúde e administração de cartões de crédito.
Categoria bancária em queda no ES
Exceto o estado do Pará, que obteve saldo positivo de 12% nos vínculos de trabalho da categoria bancários entre 2012 e 2021, as outras 26 unidades da federação e o DF registram queda. O Rio de Janeiro liderou o ranking negativo de vínculos de emprego com -30%, seguido do DF com -27%, O Espírito Santo ficou dentro da média nacional, com queda de -14%.

Em 2012 os bancários capixabas respondiam por 57% do ramo financeiro, com 7.873 trabalhadores. As demais categorias somavam 5.959 trabalhadores (43%). Dez anos depois, essa proporção se inverteu. Os 6.751 bancários representam 42% dos trabalhadores do ramo financeiro. As demais categorias cresceram 55% no Espírito Santo, um pouco abaixo da média nacional, que é de 60%, passando de 5.959 para 9.212 trabalhadores, ou seja, 58% do ramo financeiro capixaba.

“Esse encolhimento da categoria bancária não começou ontem. Há um processo em curso desde a década de 1980. Até então, a grande maioria dos serviços era realizada nas agências bancárias. A partir dos anos 1990, mais precisamente a partir de 1994, como aponta um outro estudo do Dieese [gráfico abaixo], a categoria bancária começa a encolher”, afirma Fabrício. Em 1994, como citou o dirigente, os bancários representavam 80% do ramo financeiro. Em 2002, caíram para 70%; 2012, 56% e 2021, 44%.
Inovação tecnológica: falácia
“O que podemos esperar para os próximos dez anos”, questiona o dirigente do Sindibancários. “Os bancos decidiram arbitrar o que é e o que não é mais trabalho bancário. Eles usam o avanço tecnológico como justificativa para impor a reestruturação do ramo financeiro. Isso é uma grande falácia. Essa reestruturação é sinônimo da precarização do conjunto de trabalhadores e trabalhadoras do ramo financeiro. É preciso ficar atento, porque essas condições de trabalho precárias que caracterizam a periferia do setor também pressionam a esfera mais central do ramo financeiro, onde estão os bancários. Já estamos vendo isso há um bom tempo. As mesas de negociações para discutir as convenções e os acordos coletivos de trabalho estão cada vez mais engessadas. Hoje o movimento sindical luta mais para manter direitos do que por novas conquistas”, assinala Fabrício.
Desafios
Para o dirigente, há um desafio gigantesco para o movimento sindical. São mais de 9 mil trabalhadores não-bancários nas diversas categorias do ramo financeiro que precisam ter seus empregos protegidos só no Espírito Santo. “Nos últimos anos, a classe trabalhadora passou (e ainda passa) por uma sequência duríssima. Os ataques vieram por todos os lados: flexibilização das leis trabalhistas com a reforma de 2017, política econômica neoliberal que fortaleceu os bancos e oprimiu os trabalhadores bancários, empresas públicas passando por um processo de linchamento para justificar as privatizações. Não bastasse, na esteira dessa conjuntura, o movimento sindical tem sido alvo preferencial do capitalismo. Eles querem derrubar a última coluna de resistência da classe trabalhadora, que se encontra mergulhada no desemprego e, portanto, mais vulnerável a aceitar empregos desprotegidos, sinônimo de precarização”, adverte.
Dentro dessa versão mais cruel do capitalismo, continua Fabrício, temos as terceirizações que chegaram para ficar nos bancos. “Veja a quantidade de correspondentes bancários que há hoje. Só o Bradesco tem mais de 40 mil espalhados pelo país, quase a metade do total de funcionários do banco. Temos ainda o avanço da uberização. Não estou falando somente dos motoristas e entregadores por aplicativo, mas dessa modalidade de trabalho caracterizada pela exploração máxima do trabalhador que se aplica a diversas categorias. O trabalho por plataforma já chegou ao ramo financeiro”, alerta o dirigente.
Fabrício reafirma que o desafio para o movimento sindical e as centrais sindicais é imenso. “Precisamos mobilizar e conscientizar o conjunto de trabalhadores e trabalhadoras do ramo financeiro. Essa conscientização tem de acontecer para dentro do movimento sindical e para fora, para os trabalhadores. Temos que resgatar essa parte da história e lembrar que até a década de 1980 todos trabalhadores e trabalhadoras do ramo financeiro eram bancários”. Ele recorda que a greve de 1985 teve esse propósito. “Foi uma mobilização histórica dos até então economiários da Caixa que reivindicam o direito de entrar para a categoria bancária. A partir daí os empregados da Caixa conquistaram uma série de direitos, como a jornada de 6 horas”, recorda Fabrício.
A cartilha do Dieese faz ainda recortes sobre a estrutura ocupacional na categoria bancária, jornada de trabalho, remuneração, faixa etária, escolaridade, tempo médio de permanência no emprego, sexo e raça/cor. O estudo faz também um perfil das pessoas com deficiência (PcDs) que atuam nos bancos.

