“Nada sem nós porque tudo é sobre nós”. Esse foi o tema do IV Encontro Estadual das Mulheres Bancárias do ES ecoado pelas participantes no encerramento do evento. A comemoração dos 30 anos do jornal Mulher 24 marcou o primeiro dia do encontro, na sexta-feira (10). Já no sábado (11), as bancárias capixabas se reuniram para debater o feminismo, o mercado de trabalho, a maternidade, o racismo, a diversidade e o auto cuidado.
Durante o encontro, teve creche, ciranda, oficinas de autocuidado e muito acolhimento. Um espaço seguro para expressar dificuldades e buscar soluções para avançar na equidade de gênero.
A diretora da Secretaria de Mulheres do Sindibancários/ES, Claudia Garcia, avaliou positivamente o evento. “Foi um grande privilégio para nós, mulheres bancárias, nos reunirmos neste encontro para aprender, compartilhar, vivenciar, se cuidar e se divertir juntas. Nós, mulheres, precisamos cada vez mais ocupar os lugares de poder na sociedade, inclusive na política. Devemos ser protagonistas e abrir caminhos para outras mulheres. No setor bancário, precisamos avançar muito mais, por igualdade de salários, de oportunidades, pela inclusão da diversidade e mais contratações de mulheres”.
Mercado
Na mesa de debates “As faces femininas no trabalho, no poder e na diversidade”, a professora Paula Colombi, que foi bancária antes de ser professora universitária, se debruçou sobre dados do mercado de trabalho. Apesar do aumento da taxa de ocupação, os salários diminuíram e a taxa de ocupação é menor entre mulheres pretas.
“O desemprego é sempre maior entre as mulheres. Entramos em uma crise econômica profunda em 2015 e oito anos depois os números enganam ao mostrar que voltamos para o cenário anterior à crise, mas na realidade não voltamos. Ou seja, o mercado está se transformando, tem informalidade e um rebaixamento do nível salarial”, apontou.
E alertou: “Na medida em que as condições de trabalho continuarem sendo rebaixadas como estão, os trabalhadores que até o momento conquistaram mais direitos, vão perde-lo”.
Política
A deputada estadual Camila Valadão (PSOL) elogiou a luta das mulheres bancárias, que resistem em coletivo e no movimento sindical. Convidada para falar sobre a situação da mulher nos espaços de poder, ela ponderou que “falar sobre mulheres e poder é falar sobre aquilo que historicamente nos foi negado, e, se lá chegamos, é sofrendo muita violência e resistindo”.
Para a parlamentar, a situação da precarização do mercado de trabalho apontada pela pesquisadora Paula Colombi é algo que precisa ser considerado nas políticas públicas. “Com esse nível de precarização, não estamos falando apenas de redução da remuneração, mas de um aumento na sobrecarga do cuidado com crianças e idosos numa sociedade que retira direitos e não reconhece políticas públicas para crianças, uma sociedade cada vez mais envelhecida. E a responsabilidade do cuidado recai sobre as mulheres”.
Camila disse que a sociedade produz adoecimento, mas não considera o adoecimento como problema público que deve ser tratado como uma questão pública, com políticas públicas. Para a parlamentar, isso se dá porque os espaços de poder vêm sendo construídos para manter a sociedade como está. “Querem manter a sociedade desigual na sua estrutura”.
Diversidade
A bancária Patrícia Marins comentou acerca da pouca presença de mulheres pretas no encontro, e fez uma fala sobre a necessidade de considerar o racismo como um problema coletivo. “Falamos de diversidade, mas temos que alongar a nossa fala para a inclusão. Pessoas negras precisam conseguir ocupar postos de comando em que apareçam, porque muitas vezes somos escondidos. Não existe diversidade sem inclusão. Essa luta não pode ser só minha, precisa ser de todas nós. De todas as mulheres. A luta das mulheres pretas é a luta das mulheres; não existe separação, não podemos separar essa luta”, ponderou.
A advogada e especialista em direitos humanos Ane Halama falou sobre a invisibilidade das relações entre mulheres, lembrou que LGBTQIA+fobia é crime inafiançável e que cada vez mais o judiciário tem reconhecido os danos morais da discriminação. “Esses comportamentos discriminatórios por parte das empresas não serão aceitos. Vai ter danos morais, sim, e não podemos fazer disputa entre nós acerca de quem merece receber mais ou menos indenizações. Paz entre nós (oprimidos) e guerra aos senhores (opressores)”.
As presentes se emocionaram, ainda, com a presença da mãe da advogada, dona Derci Halama, que pediu a todas que tratem bem as pessoas LGBTQIA+, e que nunca uma filha ou filho deve ser expulsa de casa por amar: “os amigos da minha filha são meus melhores amigos, são pessoas honestas e carinhosas”, contou, orgulhosa.
Acolhimento
Após as falas das palestrantes, algumas bancárias se sentiram à vontade para compartilhar suas histórias. Houve bancárias narrando como se sentiram escondidas pelo banco e preteridas na escolha de cargos de gerência, ainda que seja sempre chamada para substituição. A história se repetiu entre várias, que acabaram se emocionando e se acolhendo.
A dirigente do Sindibancários/ES Vanessa Espíndula foi uma dessas bancárias. “Eles até falavam que eu não tinha perfil para ser gerente, para ser coordenadora, para ser nenhum cargo gerencial. Quando eu passei no processo de seleção dentro do banco e fui escolhida para aquele cargo que eles achavam que eu não tinha capacidade, começou a frustração. Enquanto que eles não me tiraram de lá, enquanto que eu não caí em depressão por causa de toda a perseguição que eu sofri lá dentro, eles não sossegaram. Eu comecei a repensar a minha vida a partir daí”, contou, emocionada. Para a dirigente, a luta sindical tem sido um alento. Ela entende que é fundamental continuarmos firmes e unidas para garantirmos cada vez mais acessos, e que cada vez mais mulheres ocupem cargos gerenciais.
Cada mulher que contava sua história era acolhida pelas outras, e também pelas palestrantes. A discussão também chegou na maternidade, e as mulheres refletiram sobre a necessidade tanto de criação de políticas públicas de cuidado, quanto de que os homens façam parte dessa luta. “Não adianta um homem ter seis meses de licença paternidade se a mulher tiver que cuidar do homem e do bebê durante o puerpério”, disse uma bancária.
Na parte da tarde, o cuidado foi celebrado em oficinas de aromaterapia, com Karina Moura, e thethahealing, com Pétala Motta. As participantes foram convidadas a respirar, pensando sobre acolherem a si próprias nos dois processos. Após as oficinas, o evento foi encerrado com uma ciranda comandada pela cantora Bruna Perê e o percussionista Saulo Santos. As bancárias dançaram em roda ritmos nacionais, como ciranda, congo, carimbó e boi bumbá e, espontaneamente, as toalhas das mesas se tornaram saias imaginárias, num ambiente de celebração e acolhimento em que as mulheres dançavam umas com as outras. Uma puxava a outra na dança, como na vida, em que andamos juntas para andarmos mais fortes.
Ao fim da dança, todas gritaram “Nada sem nós porque tudo é sobre nós”.
Fotos: Zanete Dadalto









