Lucro recorde, demissões e queixas: os números do setor financeiro

30/01/2024 12:06

Só aqui no Espírito Santo, os serviços bancários aparecem no topo das listas de reclamações do Procon Capixaba desde 2015

(Arte: Léo Almara/Sindibancários/ES)

Ser banqueiro deve ser muito bom: explora funcionários, demite pra cercear direitos e lidera reclamação no Procon sem consequências enquanto o lucro só aumenta. Sem consequências, quer dizer isso mesmo: continuam explorando e lucrando e enriquecendo às custas de funcionários e clientes insatisfeitos.

Para se ter uma ideia, só aqui no Espírito Santo, os serviços bancários aparecem no topo das listas de reclamações do Procon Capixaba desde 2015, segundo os balanços publicados pela própria instituição. Aparentemente, os quase dez anos da insatisfação documentada de clientes não fazem os bancos quererem incrementar o quadro de funcionários. As demissões só aumentam.

O dirigente do Sindibancários Carlos Pereira Araújo (Carlão), de posse desses dados, assinalou: “O banqueiro é sócio da miséria”. Carlão rememora que há décadas o movimento sindical vem denunciando os abusos dos bancos. “São altas taxas de juros, tarifas, demissões, assédio e exploração de clientes. Um dos pilares do desemprego, da fome e da miséria desse país é de responsabilidade dos bancos. Enquanto o povo está desempregado e sendo explorado, o lucro dos bancos só cresce”, avisa.

Números
Só considerando os nove primeiros meses de 2023, BB e Itaú acumularam idênticos R$ 26,1 bilhões em lucro. No mesmo período, a Caixa lucrou R$ 7,8 bilhões, o Bradesco lucrou R$ 29 bilhões e o Santander lucrou R$ 7,2 bilhões.  No Banestes, que atende basicamente o Espírito Santo, o lucro líquido acumulado no mesmo período foi de R$ 281 milhões.

A estimativa do mercado financeiro é de que os bancos de forma geral tenham um resultado muito positivo no quarto trimestre de 2023, e o Banco do Brasil e o Itaú devem fechar o ano com recorde histórico de lucros.

Majoritariamente, o lucro dos bancos vem numa crescente. Mas isso é vantagem para quem além dos donos do banco? No caso dos funcionários, o constante medo de demissões se justifica pelos números. No intervalo de 10 anos, entre 2012 e 2021, foram tiradas 70.275 vagas de empregos de bancários. À medida que o número de bancários encolhia, outras categorias do ramo financeiro, como terceirizados, registraram aumento de 60,4% entre 2012 e 2021: 215.542 novos vínculos de trabalho. Vínculos esses mais precarizados, com menos direitos trabalhistas, menos força enquanto categoria e mais exploração por parte dos bancos.

A categoria bancária é uma das mais organizadas do País e uma das poucas a conseguir se articular para fazer greve nacionalmente caso seja necessário, justamente por ter representação nacionalmente articulada. Agora, os patrões vêm ao longo dos anos trocando os postos de trabalho de lugar, tirando vagas de bancários e criando empresas nas franjas do sistema financeiro.

E isso é vantagem para alguém além dos donos? A resposta é não. O mito de que os clientes são beneficiados por essas políticas cai por terra quando se olha o relatório mais recente divulgado pelo Procon Capixaba.

Em 2023, os atendimentos relacionados a cartões de crédito cresceram 97,9%, em comparação ao mesmo período de 2022, liderando o ranking da instituição. As principais demandas do segmento, segundo o Procon, estão relacionadas à renegociação e ao parcelamento de dívidas, cobrança indevida, negativação indevida e cálculo de prestações e taxa de juros.

No ano passado as reclamações sobre cartões de crédito e crédito consignado ganharam de planos de saúde e telefonia móvel, por exemplo.

Em 2021 as principais queixas no Procon eram relacionadas à cobrança indevida; lançamentos de serviços não solicitados na fatura; mudança unilateral nos contratos, com reajuste no valor do serviço; empréstimo consignado não autorizado; refinanciamento de empréstimo sem o consentimento do consumidor; cálculo e negociação de débitos; e problemas com contratos (descumprimentos e cláusula abusiva).

As reclamações são recorrentes em outros anos, e o sistema financeiro está sempre na boca dos clientes em um sentido negativo, mas sempre como dos dados de reclamações da instituição.

Zurich
Esmiuçando os dados disponibilizados pelo Procon no Cadastro de Reclamações Fundamentadas ano a ano, a Zurich seguradora aparece desde 2012 até 2022, sem falhar nenhum ano, na lista de reclamações. A Zurich, nos anos mais recentes, tem mais reclamações do que o Banestes.

A empresa, no entanto, foi escolhida sem licitação para uma parceria com o objetivo de ampliar proteções para pessoas físicas e jurídicas, além de fortalecer a atuação da Banestes Seguros e da Banestes Corretora.