
A mesa sobre aceleração digital foi conduzida por Millena Alves (centro) e mediada por Bethânia e Fabrício (fotos: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)
Oito em cada 10 transações bancárias são feitas por meio de canais digitais. Em 2023, 77% dos correntistas mantinham contas tanto em bancos tradicionais como em digitais (gráfico abaixo). Em 2020, esse percentual praticamente dobrou. Os dados foram apresentados pela especialista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) Millena Alves na mesa sobre “Aceleração Digital no Sistema Financeiro”. Os dados deixaram estarrecidos os bancários e as bancárias que acompanhavam a mesa nesse sábado (04) durante a Conferência Estadual das Bancárias e dos Bancários 2024, em Guarapari. A mesa foi mediada pelos dirigentes do Sindicato dos Bancários Fabrício Coelho e Bethânia Emerick.

A partir de dados da pesquisa de Tecnologia Bancária 2023 da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), a economista do Dieese mostrou como os bancos vêm aumentando exponencialmente os investimentos em tecnologia. Em 2019 foram investidos R$ 8,3 bilhões na área. Em 2023 esse valor triplicou, chegando a R$ 24,5 bilhões. Entre 2015 e 2023 o orçamento em tecnologia (investimentos e despesas) subiu 104% (gráfico abaixo).

Esses investimentos cresceram especialmente durante a pandemia da covid-19. Nesse período muitos bancários passaram a trabalhar em home office e os clientes também recorreram às transações digitais para evitar o atendimento presencial nas agências. Ela disse que o PIX também impulsionou os investimentos em tecnologia, revolucionando as transações bancárias no Brasil. A especialista do Dieese informou que hoje há no país 687 milhões de chaves cadastradas que movimentam 169 milhões de operações/dia. Entre outubro de 2022 e outubro de 2023, o número de operações deu um saldo de 67,8%. “Alguns países estudam a experiência brasileira com a PIX”.
Nesse processo de aceleração digital do setor financeiro, Millena listou os empregos que mais “encolheram” na classe trabalhadora em geral. Os caixas de bancos e trabalhadores com funções relacionadas foram os que mais perderam postos de trabalho. De outro lado, especialistas em Inteligência Artificial (IA) e aprendizagem de máquinas foram para o topo das ocupações. Segundo a economista, a partir dos dados da Febraban, o percentual de profissionais de TI nos bancos subiu 22%. As projeções apontam que os bancos pretendem fazer mais contratações desses profissionais. Em 2024, a estimativa é de que mais de 54 mil profissionais de TI integrem os quadros dos bancos – aumento de 53% na comparação com 2023.
Os dados apresentados pela pesquisadora do Dieese apontaram que 91% dos bancos mantêm alguma parceria com startups (empresas com base tecnológica). “A maioria dessas parcerias são com as fintechs. Todos os grandes bancos têm uma fintech na sua holding. Os bancos fazem a transferência de trabalhadores bancários para essas empresas”. Ela diz que quando o trabalhador faz essa migração perde seus direitos e garantias previstos na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) da categoria, porque deixa de ser bancário.
Fraude
Millena destacou a expansão dos bancos digitais e fintechs (gráfico abaixo). Em 2000 eram apenas 45 empresas desse tipo. Em 2023 esse número saltou para 1.450 bancos digitais e fintechs. Segundo ela, é muito difícil encontrar informações sobre os trabalhadores que estão atuando nessas empresas. “Esse é um processo fraudulento de contratações de trabalhadores. Vou dar o exemplo do Bradesco, que é dono da Next e Digio. O banco tem feito transferência de bancários para essas duas empresas”. A especialista disse que, embora essas empresas sejam bancos digitais ou fintechs, o Bradesco não as registra como bancos. “Muitas vezes elas são registradas como uma empresa de processamento de dados e não como empresa financeira. Por isso não encontramos informações sobre esses trabalhadores. Não sabemos se a empresa tem cinco ou 5 mil trabalhadores, porque ela não está registrada como uma empresa financeira”, explica. Millena completa: “Essa é uma situação de fraude em que o banco retira o bancário com uma CCT nacional e o transfere para essas empresas. Isso tem sido muito comum”, adverte.

De acordo com Millena, as instituições do setor financeiro, já há alguns anos, vêm promovendo uma intensa reestruturação voltada para as transformações tecnológicas, regulatórias e de contexto político-econômico. “Essa reestruturação se traduz na redução e externalização do atendimento físico, com fechamento de agências e postos de trabalho, ao mesmo tempo que ampliam-se estruturas externas de atendimento”, afirma. A economista do Dieese acrescenta: “A fragmentação do emprego no ramo financeiro se dá não só em diferentes categorias profissionais mas em diferentes formas de inserção: celetistas – várias categorias, autônomos, MEIs, PJs plataformizados, muitos terceirizados, entre outros”, assinala.
Novas e profundas transformações tecnológicas seguem se desenhando no horizonte, de acordo com os apontamentos do Banco Central e é preciso tentar, na medida do possível, se antecipar aos impactos que elas trarão para trabalhadores e a sociedade em geral.

