
Militantes jovens foram maioria no ato
Por volta das 14 horas deste feriadão de sexta-feira (15), Dia da Proclamação da República, militantes de movimentos sindicais, sociais e estudantis, lideranças políticas e trabalhadoras e trabalhadores começavam a se concentrar em frente à Assembleia Legislativa para o ato pelo fim da escala de trabalho 6X1. O movimento ganhou força nos últimos dias e se transformou numa manifestação nacional, com atos simultâneos em várias capitais brasileiras. Enquanto o ato ia esquentando, uma liderança do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) pegou o microfone para anunciar a programação e avisar que a coordenadora do VAT no Espírito Santo estava um pouco atrasada porque ainda estava no trabalho.

Dirigentes do Sindibancários marcaram presença no ato (Foto Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)

Júlia, coordenadora do VAT no ES
Minutos depois, a jovem de 24 anos, que é uma trabalhadora da escala 6X1, assumiu a coordenação do ato. Júlia Alves, que é formada em Gestão de Recursos Humanos, trabalha em uma empresa de telemarketing e justamente hoje, em pleno feriado, estava escalada para trabalhar. Mas sua experiência na 6X1 começou bem antes. “Já fui caixa de supermercado e sei muito bem o que é a escala 6X1. Foi muito difícil conciliar o trabalho com a faculdade. Não pude me dedicar como eu gostaria. Várias pessoas da minha família trabalham ou já trabalharam na 6X1. Uma tia como vendedora de loja e outra como auxiliar de limpeza. Minha mãe também, como doméstica. Conheço bem essa realidade”.
A história de Júlia é semelhante à de mais de 10 milhões de brasileiros, segundo dados da Pesquisa Anual do Comércio de 2022 (IBGE), que trabalham na escala 6X1. São trabalhadores que atuam principalmente no setor de comércio e serviços, em hotéis, bares, restaurantes, farmácias, locadoras, lojas e setores afins.
No ano passado, Rick Azevedo, balconista de uma rede de farmácia no Rio de Janeiro, decidiu gravar vídeos no Tik Tok em forma de desabafo, criticando a rotina exaustiva da escala 6X1. Ele se queixava que estava adoecendo com o ritmo desumano de trabalho. “A pessoa se doa para a empresa seis dias por semana, e só tem um dia para folgar. Isso para ganhar um salário mínimo”.
Os vídeos de Rick viralizaram na velocidade da luz nas redes sociais porque falavam com propriedade de causa sobre um problema que afeta milhões de trabalhadores e trabalhadoras no país. Júlia foi uma dessas trabalhadoras que sentiu tocada pelo vídeo. “Alguém passou o vídeo para mim e comecei a seguir o Rick porque me identifiquei com o que ele falava. Depois ele criou grupos específicos e eu passei a fazer parte. Em seguida, fui convidada para assumir a coordenação do VAT aqui no Espírito Santo”, conta Júlia.
Como tudo na internet é muito dinâmico, os vídeos mudaram a vida de Rick, que já não é mais balconista de farmácia. Ele se candidatou a vereador no Rio e foi o mais votado do PSOL com quase 30 mil votos. Mote de campanha vitoriosa: fim da escala 6X1 e o apelo clamando pela vida além do trabalho. Simbolicamente, no Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, a deputada federal Erika Hilton (PSOL), inspirada no movimento iniciado por Rick, deu redação à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6X1. Voando na Câmara como um meteoro que não pode ser parado, a PEC já amealhou mais de 200 signatários (eram necessárias 171 assinaturas) na Câmara e já foi protocolada pela deputada. A petição pública online já tem quase 3 milhões de assinaturas.
Proposta nas ruas
“O ato de hoje é muito importante porque leva a proposta pelo fim da escala 6X1 para as ruas. O trabalho construído a partir das redes sociais foi vital e vai continuar, mas era necessário pôr a proposta na rua. Só a rua nos permite dar esse grito que estava agarrado na garganta da classe trabalhadora para pedir um basta a esse modelo opressor de trabalho. Como nos ensinou Marx, o trabalho é uma dimensão fundamental da vida humana. É através dele que o homem é capaz de criar a realidade e de se tornar social. Mas não era a esse trabalho opressor que Marx se referia”, afirmou Rita Lima, coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, que esteve no ato ao lado de outras diretoras e diretores do Sindibancários, que é ligado a Intersindical – Central da Classe Trabalhadora.

Pauta pelo fim da 6X1 furou as bolhas partidária e ideológica
Em sua fala, Rita disse que essa luta pela redução da jornada é uma pauta histórica na classe trabalhadora. “A jornada 6X1 é perversa para qualquer trabalhador, mas ela atinge de maneira ainda mais cruel as mulheres, especialmente as negras”. A dirigente afirmou que a tecnologia tem sido usada para controlar ainda mais o trabalho e torná-lo mais intenso e adoecedor. “Nosso tempo livre foi capturado pela tecnologia. Não temos mais tempo para prosear com nossos familiares e amigos, de fazer trocas. Esse movimento pelo fim da escala 6X1 é um basta. Chega de exploração. Vamos unir forças para encher as ruas tantas vezes quanto for preciso. Essa luta só está começando”.
Rita disse ainda que é hora de aumentar a pressão popular sobre os deputados que ainda não assinaram a PEC. “Vamos pressionar nossa bancada em Brasília. Sabemos que dos dez deputados capixabas, apenas Helder Salomão e Jack Rocha assinaram a PEC. Vamos cobrar desses deputados que continuam escondidos”, assinalou.
União para vencer
O dirigente do Sindicato dos Bancários Carlos Pereira de Araújo (Carlão) destacou a importância dos trabalhadores voltarem a ocupar as ruas com uma pauta que rompe as bolhas ideológicas e partidárias. “Os protagonistas dessa luta não são os partidos, os sindicatos ou as centrais, mas os trabalhadores. A classe trabalhadora é vítima preferencial dessa lógica capitalista desumana, que oprime e adoece física e mentalmente os trabalhadores. A luta pelo fim da escala 6X1 significa garantir ao trabalhador que ele passe mais tempo com sua família, amigos, que tenha tempo para as horas de lazer. Como diz o lema da campanha, existe vida além do trabalho e o trabalhador não pode ser privado dela”, afirmou Carlão.
Ele destacou ainda o grande número de jovens no ato. “Isso mostra que os jovens estão atentos às mazelas do capitalismo e querem alterar essa lógica que oprime e adoece. Temos que manter essa coesão e agregar mais gente para o movimento. Unir os trabalhadores do campo e da cidade, porque no campo também prevalece esse modelo opressor. A união é fundamental para essa luta sair vitoriosa”, sublinhou.
Jornada de 4 dias
O texto da PEC protocolada por Erika Hilton esta semana na Câmara propõe a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 36 horas semanais. Carlão diz que a jornada de quatro dias já é uma realidade em outros países e aos poucos vem ganhando espaço no Brasil. O dirigente afirmou que na campanha salarial de 2022, essa pauta já havia entrado em discussão na categoria bancária. Na campanha deste ano, a proposta voltou à mesa de negociações com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). “Para os bancos, é perfeitamente viável a implantação da semana de quatro dias. Semana de quatro dias não é mais uma reivindicação utópica. A proposta da deputada Erika Hilton está confirmando que essa é uma pauta totalmente realista e possível”.
Para Carlão, o movimento Vida Além do Trabalho precisa ser apoiado por toda a classe trabalhadora. A categoria bancária tem quase meio milhão de trabalhadores no país. É muito importante que cada um de nós passe a apoiar o fim da escala 6 X 1 e o avanço da jornada de quatro dias, que também é uma pauta dos bancários”, ressaltou.
Grandes corporações
O vereador André Moreira (Psol) desmontou o discurso da direita que tenta convencer a sociedade de que a proposta é inviável porque irá quebrar os pequenos empresários. Ele lembrou que a PEC não tem como alvo as micro e pequenas empresas, mas as grandes corporações, que movem lobbies no Congresso e na mídia para desqualificar a proposta, usando os pequenos.
“O movimento nos une e nos faz lembrar que, apesar das diferenças, fazemos parte da mesma classe, a trabalhadora. A proposta pelo fim da escala 6X1 é um elemento para nos unir como classe trabalhadora. É uma proposta que permite que o trabalhador volte a ter contato com a família, com os amigos, com o lazer, mas principalmente para voltarmos a nos organizar como classe trabalhadora”, afirmou André.
A vereadora eleita pelo Psol Ana Paula Rocha também marcou presença no ato. Ela destacou o bom número de manifestantes em pleno feriado e falou sobre a representação do Dia da Proclamação da República. “Falar de república em um país que nega a cidadania a milhões de brasileiros é complicado. O debate vai muito além da escala 6X1. Essa é uma pauta que toca a maioria da classe trabalhadora, que vem de uma sequência de derrotas. Essa é uma pauta positiva para enfrentarmos a bancada do boi, da bala e da bíblia no Congresso Nacional”. Ana Paula acrescentou ainda que após as eleições municipais deste ano muita gente apontou as pautas identitárias da esquerda como culpados pela derrota nas urnas. “Mas a PEC saiu das mãos de uma travesti preta”, concluiu sob aplausos.
A deputada federal Jack Rocha (PT) também esteve presente ao ato, assim como o deputado estadual João Coser e a vereadora Karla Coser (ambos do PT). A deputada estadual Camila Valadão estava em agenda fora do Estado, mas enviou representante para o ato.
“Como disse Rita, ainda há muita luta pela frente para conquistarmos a vitória. Mas hoje podemos dizer que a classe trabalhadora sextou”, concluiu Carlão.
Confira a galeria de fotos do ato (Fotos: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)

