Professor Ricardo Antunes

A edição de número 150 do podcast Pauta Pública, da Agência Pública, ouviu o sociólogo Ricardo Antunes sobre o fim da escala 6X1 e outros temas ligados às transformações do trabalho neste ciclo mais brutal do neoliberalismo. Na entrevista às jornalistas Andrea Dipp e Clarissa Levy, o professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp analisou os mecanismos por trás da precarização do trabalho e também sobre a importância do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que rompeu a bolha ideológica e conseguiu unir os trabalhadores em torno de uma pauta comum. Acompanhe a seguir os melhores trechos da entrevista.

Fim da escala 6X1
“Estamos vendo hoje que a produtividade aumentou imensamente. Em paralelo, a tecnologia e a jornada de trabalho também vêm aumentando”. Antunes diz que os avanços tecnológicos têm servido exclusivamente para as empresas aumentarem suas margens de lucro. Ele diz que não há contrapartida para os trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho. O sociólogo afirma que nos países da Europa e nos Estados Unidos a luta pela redução da jornada de trabalho é histórica. Há 25 anos, recorda o professor, a França estava discutindo a redução da jornada de trabalho. “Nos séculos 18 e 19, com a Revolução Industrial, a jornada de trabalho de homens, mulheres e crianças chegava a 14, 16 e às vezes até a mais horas por dia. [O movimento pelo fim da escala 6X1] é uma resposta. Se a tecnologia enriqueceu as classes proprietárias porque aumentou sua produtividade, ela [a tecnologia] não favoreceu a classe trabalhadora. Pelo contrário, nós temos doenças tecnológicas de outros tipos. A classe trabalhadora vem adoecendo mentalmente em escala mundial e também brasileira. (…) Hoje você tem o assédio, a depressão, o Burnout. O que é Burnout? É uma doença que decorre do excesso de trabalho. A luz apaga, pá. Dá um tilt. Apagou! [O adoecimento mental] é uma bandeira tanto brasileira como internacional. É uma bandeira da classe trabalhadora”. 

Por que o movimento pela redução da jornada demorou tanto para eclodir?
Antunes pondera que vivemos em um país onde a informalidade beira 40% da população ativa. “Vamos pegar um período anterior ao de Lula. O período de Temer a Bolsonaro”. Segundo o professor, a taxa de desemprego nesse período girava em torno de 8, 9, 10% (hoje está em 6,4%) ou mais. “Evidentemente, antes de lutar pela redução da jornada de trabalho, o trabalhador e a trabalhadora vão lutar para ter emprego. Se eu não tenho emprego, aceito até a informalidade. Veja o que aconteceu com a informalidade durante a pandemia”. O professor afirma que os trabalhadores mais vulneráveis foram os que mais morreram de covid-19. “Quanto mais próximos das periferias, maiores os índices de morte de mulheres, negros e negras”. 

De acordo com o sociólogo, a tecnologia aumenta a produtividade porque intensifica o ritmo de trabalho. “É a máquina que dita o ritmo de trabalho. A máquina nos faz trabalhar no ritmo dela. Portanto, os adoecimentos são maiores. No caso brasileiro, para cumprir a jornada de 44 horas semanais, que tempo que esse trabalhador tem para ver seus filhos, sua família, para sair com o companheiro ou com a companheira, para estudar…Se você trabalha seis dias por semana, que horas você vai estudar? Domingo? Domingo não é descanso. É para fazer as coisas que o trabalhador não conseguiu fazer durante a semana”. Para Antunes, o fim da escala 6X1 ganhou todo esse apelo porque toca no dia a dia da classe trabalhadora.

Empresas ameaçam com desemprego
Quando se fala em redução da jornada de trabalho, a primeira grita que se ouve do lado dos empresários é que a conta não fecha se houver redução da jornada. Eles avisam que se isso acontecer, precisarão cortar postos de trabalho. “As empresas dizem que estão felizes porque estão empregando, mas quando podem, elas desempregam. Se aparece uma legislação do trabalho precarizante, elas apoiam. As empresas vão alegar que vão perder, e terão que desempregar. Como disseram os capitalistas ingleses no Século 18: ‘Se nós não empregarmos a classe trabalhadora 18 horas por dia, incluindo mulheres e crianças, vamos perder e vocês serão demitidos’. A luta ocorreu. As batalhas se fizeram e a classe trabalhadora foi reduzindo a jornada de trabalho para 8 horas. Hoje com a tecnologia as empresas têm como tornar o trabalho mais produtivo e ao mesmo tempo mais digno no que diz respeito à jornada de trabalho”.

Jornada 4X3
O Movimento VAT defende o fim da 6X1 e a adoção da escala 4X3. Aliás, a escala 4X3 é também uma reivindicação da categoria bancária. O professor da Unicamp defende que a semana de quatro dias de trabalho garantiria dignidade à classe trabalhadora, que teria tempo para o lazer, a cultura, a vida afetiva e a formação. “A escala 4×3, guardadas as diferenças, é o mesmo que você mudar a jornada de trabalho de 18 horas por dia do Século 19, para 8 horas”. 

Quem controla o tempo
Segundo o autor de “O Privilégio da Servidão”, na sociedade capitalista que vivemos o controle do tempo é crucial. “Quem controla o tempo de quem? As empresas querem usufruir do máximo do tempo de trabalho do empregado. De outro lado, a classe trabalhadora só pode lutar pelo controle do seu tempo à medida que ela pode reduzi-lo para que ela possa ter uma vida além do trabalho”. 

Sociedade de origem escravocrata
Ricardo Antunes adverte que a sociedade brasileira é de origem escravocrata. “Uma grande parte da classe dominante acha que dar o emprego já está valendo. Direitos, por exemplo, não contam. Tanto que temos até hoje altos índices de escravização moderna de trabalho. A precarização marca o trabalho brasileiro. Esse é um traço constitutivo da nossa história”. 

O sociólogo lembra que a classe trabalhadora brasileira acumulou muitas vitórias ao longo da história. Ele cita a greve dos trabalhadores negros de Salvador, em 1857, considerada a primeira greve geral que se tem notícia no Brasil de uma categoria de um setor importante da ecomomia. O professor recorda também da greve 1917, em São Paulo, a primeira a durar mais de 30 dias – um marco na história sindical do país. “Foram muitas as lutas para melhorar as condições de trabalho. Mas depois, do período que vai de 1930 a 1988, o mundo virou de cabeça para baixo”. 

Precarização
Hoje o trabalho que mais se expande do mundo é de plataforma, o uberizado, o intermitente. O que singulariza esse tipo de trabalho: jornada ilimitada, trabalhador sem direitos e ganhando em função do que trabalha”. Antunes acrescenta: “O que caracteriza nossos contratos de trabalho é a precarização. Com Temer, não tivemos uma reforma trabalhista, mas uma contrarreforma (…) O Brasil é uma imagem ampliada desta classe trabalhadora precarizada”. Ele ressaltou que a classe trabalhadora só consegue se organizar com sindicatos fortes. 

Terceirização
Outro ponto criticado pelo sociólogo é a terceirização, mais uma característica da precarização das relações de trabalho. Antunes afirma que as empresas terceirizam com a finalidade única de aumentar o lucro. “Elas vão contratar de arquitetos a advogados, até trabalhadores domésticos e de limpeza. Eu tenho conhecimento de trabalhadores de limpeza terceirizados que me contaram que estão sem tirar férias há anos”. Ele explica que as empresas passam de contrato para o outro. “A pessoa não pode ficar sem trabalhar. Ah ,mas a terceirização tem uma legislação a ser cumprida. Se a CLT é burlada pelas empresas que têm trabalhador celetista, imaginem o nível de frouxidão que permite burlar a terceirização. A terceirização é devastadora. Como disse uma colega, Graça Druck [socióloga do trabalho], vivemos uma ‘epidemia de terceirização’. Temos empresas hoje inteiramente terceirizadas. Isso é melhor para a classe trabalhadora ou é para as empresas lucrarem mais? Até uma criança de quatro anos responde essa pergunta”. 

Segundo Antunes, a terceirização também tem um caráter político. O professor diz que se houver em uma empresa quatro ou cinco contratos de trabalho diferentes, isso dificulta a organização da classe trabalhadora. “A terceirização é também uma resposta política para fragmentar a classe trabalhadora, além de ser uma resposta econômica para explorá-la. Nesse processo de expansão do proletariado de serviços, a terceirização é vital para enfraquecer a classe trabalhadora”. 

Terceirização nos grandes bancos
Na entrevista ao podcast Pauta Pública, Ricardo Antunes também critica a terceirização nos bancos, considerada pelo movimento sindical e pela categoria bancária uma das bandeiras prioritárias de luta. O professor adverte que os bancos vêm reduzindo o número de bancários nos últimos anos. Ele recorda da greve dos bancários de 1985, uma das mais marcantes da história da categoria, havia quase um milhão de bancários. Atualmente são cerca de 430 mil trabalhadores bancários. “Hoje você entra nos bancos e só vê máquinas”. Ele afirma que muitos trabalhadores estão terceirizados em call centers, com menos direitos e salários mais baixos que os bancários. Antunes diz que a fragmentação da categoria dificulta a organização de uma greve. “Os bancários e as bancárias ainda  têm direitos porque têm por trás um sindicato forte. Já os terceirizados sofrem opressão porque não têm sindicatos ou têm sindicatos frágeis. Muitas vezes esses sindicatos são patronais”, alerta Antunes.
(Foto capa: reprodução)