“Ainda Estou Aqui”, filme dirigido por Walter Salles, adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, com Fernanda Torres e elenco, na última atualização de março, já havia levado quase seis milhões de pessoas ao cinema – terceira maior bilheteria nacional desde 2018. O filme mostra o desmoronamento da família Paiva depois da prisão e execução do ex-deputado Rubens Paiva (PTB) pelos operadores da ditadura militar. Milhares dos espectadores Brasil afora que foram conferir na telona a saga de Eunice Paiva para provar que o marido tido como desaparecido, na verdade, fora morto pela ditadura, devem ter assistido ao filme na última quarta-feira, 26 de março. A data passou a ser histórica para o Brasil. Foi o dia em que a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete réus por tentativa de golpe de Estado em 2022. Entre os réus, além de Bolsonaro, que é capitão reformado do Exército, três generais quatro estrelas, um almirante e um tenente-coronel, vão responder a crimes como  liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

O ministro Flávio Dino, na apresentação do seu voto, após afirmar que acompanhava o voto do ministro-relator Alexandre de Moraes pela aceitação da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), citou “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2025. Dino lembrou o caso de Rubens Paiva, preso no início da década de 1970. “O que eles estão mostrando ali [no filme]? Remarcando o caráter permanente e hediondo do desaparecimento de pessoas, de tortura, de assassinatos, que derivam de um golpe de Estado”.

O ministro relembrou que o golpe de 1964 manteve o país sob uma ditadura que se estendeu por 21 anos. Os militares derrubaram o então presidente legítimo João Goulart e tomaram o poder entre 31 de março e 1º de abril de 1964. Em certo momento do seu voto, Dino cravou: “Golpe mata. No dia 1º de abril de 1964 também não morreu ninguém. Mas centenas, milhares morreram depois. Não importa se isto é no dia, no mês seguinte ou alguns anos depois. Golpe de Estado é coisa séria. É falsa a ideia de que uma tentativa de golpe de Estado que não resultou em mortes naquele dia é uma infração de menor potencial ofensivo”, afirmou em crítica ao movimento da extrema direita que pede anistia aos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindicato dos Bancários/ES, foi muito feliz a coincidência do filme “Ainda Estou Aqui” ter atingido seu ápice de audiência às vésperas do Supremo analisar a denúncia da PGR. “O filme tem um caráter pedagógico, sobretudo para os mais jovens, que só conheceram essa página infeliz da nossa história por meio dos livros. A literatura, obviamente, é insubstituível, mas a linguagem cinematográfica tem uma capacidade especial de tocar as pessoas. Acho que o filme do Walter Salles conseguiu criar essa comoção e despertar em muita gente o que representou os horrores da ditadura para os brasileiros submetidos às atrocidades do regime”. 

Carlão ressaltou a importância de relembrarmos sempre, e não só no dia 1º de abril, o quanto os anos de chumbo foram nocivos para a população brasileira. “A ditadura só nos traz lembranças ruins e dolorosas. Foram anos de perseguições, fim das liberdades, torturas e execuções. É falsa também a versão forjada na caserna de que os governos militares eram incorruptíveis e trouxeram desenvolvimento para o país. Mentira. Deixaram um legado de pobreza e aprofundaram as desigualdades sociais. Há fartos episódios de corrupção na ditadura, como os casos Coroa-Brastel, Capemi e o dossiê Baumgarten, só para citar três clássicos. A corrupção era endêmica. A diferença é que a censura militar controlava os meios de comunicação, decidindo o que poderia ou não ser noticiado. Aliás, é importante registrar que a imprensa corporativa não teve grandes dificuldades de se submeter aos militares em troca de benesses”. 

Outro filme
Ainda partindo das telonas como pano de fundo do golpe, Carlão cita o filme “Argentina, 1985” (2022), do diretor Santiago Mitre. O filme retrata como foi o julgamento histórico no tribunal civil de nove líderes das três primeiras juntas militares que governaram o país após o golpe de Estado de 1976. Os militares foram julgados por crimes de homicídio, tortura e privação ilegítima de liberdade. A ditadura argentina, que se estendeu de 1976 a 1983, é acusada de desaparecer com mais de 30 mil pessoas.

“O filme mostra o quanto foi importante levar os golpistas para o banco dos réus e passar essa parte tenebrosa da história argentina a limpo. Nós também tivemos a oportunidade de levar os militares para julgamento. Infelizmente, as forças progressistas da época acharam melhor empurrar os crimes da ditadura para debaixo do tapete em nome de uma pacificação do país”.

O dirigente lembra que a presidenta Dilma, militante de esquerda brutalmente torturada pela ditadura, ainda no seu primeiro mandato (2011 – 2014), instalou a Comissão da Verdade, que responsabilizou 377 agentes públicos pela repressão política a 434 vítimas. 

“A Comissão cumpriu um papel importante de reparação das vítimas, mas não tinha como responsabilizar criminalmente os agentes da ditadura. Mas lá atrás, logo após a abertura, era o momento de o país ter levado os carrascos da ditadura para o banco dos réus. Não o fizemos e o fantasma da ditadura voltou a nos assombrar. Sob Bolsonaro eles se encorajaram e articularam, como estão mostrando as investigações da Polícia Federal e da PGR, um novo golpe para derrubar um presidente eleito legitimamente pelo povo. Nesta data de 61 anos do golpe, temos que cobrar a responsabilização criminal de todos os envolvidos no golpe. Talvez, daqui a alguns anos, um novo filme conte o julgamento exemplar dos golpistas, como contaram os hermanos em ‘Argentina, 1985’. Temos uma nova chance de passar essa página da história a limpo. Sem anistia!”

(Foto capa: Arquivo Nacional)