A psicóloga Roberta Belizário (esq.) e os diretores do Sindicato Ronan Teixeira e Lizandre Borges

As ferramentas usadas pelos empregadores no cotidiano do trabalho produzem uma subjetividade nos trabalhadores capaz de maximizar a sua exploração e criar uma cultura organizacional que reproduz os valores empresariais. Um desses mecanismos são os processos de avaliação do desempenho.

“Existe uma verdadeira pedagogia empresarial; as corporações produzem uma certa forma de pensar, de sentir, de ver o mundo, contribuindo para que os próprios trabalhadores explorados pela empresa contribuam para a construção dessa exploração”, afirma o psicólogo André Guerra, doutor em Psicologia Social e Institucional, que participou, por videoconferência, da mesa Saúde e condições de trabalho. Por que adoecemos?, na Conferência Estadual dos Bancários e Bancárias 2023, realizada no início de junho. Também participou da mesa a professora de Psicologia da Ufes Roberta Belizário Alves.

Guerra fez um estudo sobre o programa de avaliação de desempenho Trilhas, que foi utilizado pelo banco Itaú durante um bom tempo. “Mas essa estrutura de avaliação se aplica indistintamente a outros agentes do sistema financeiro”, afirma ele. As empresas, segundo o psicólogo, o trabalho e a própria sociedade se organizam a partir de uma racionalidade neoliberal, a partir de alguns valores, como a competição para ganhar mercado. “Apenas as melhores sobrevivem”, lembra.

Essa lógica da competição fundamenta a sociedade, predispondo que, além do valor de competição, outros afetos sejam produzidos, como, por exemplo, a agressividade, a hostilidade, a deslealdade. “Tudo isso, a gente identifica no mundo corporativo. Só que, a partir do momento que essa racionalidade, que antes era exclusiva do mundo corporativo, passa a fazer parte do sujeito, as próprias pessoas passam a operar a partir desses pressupostos, em que uma deve derrotar a outra se quiser se sobressair nessa vida que se tornou um espelho do mercado, uma vida mercantil”.

Pedagogia empresarial

Dentre os elementos que constituem essa “pedagogia empresarial” estão ferramentas de gestão como os sistemas de avaliação de desempenho. “Para muitos trabalhadores, a avaliação tem a função de identificar qual é o desempenho obtido por cada um deles de forma objetiva. Essa é a forma como aparece na superfície. Mas a forma como são construídos esses mecanismos, levam consigo uma subjetividade. Essas avaliações, na verdade, prescrevem uma determinada forma de performance a ser obtida. Inclusive, colocando sobre esses trabalhadores determinados valores que eles precisam expressar para serem qualificados de forma adequada sob o ponto de vista da empresa”.

“Dentre as consequências, o que a gente identifica como uma marca do adoecimento, é o que chamamos de adoecimento ético, ou seja, muitos trabalhadores, para conseguir alcançar aqueles resultados estritamente quantitativos, precisam abrir mão de aspectos qualitativos da sua valoração, ou seja, eles precisam fazer vendas casadas, vender consórcios e seguros para aposentados, pessoas que são beneficiárias do bolsa de família, de auxílio emergencial, por exemplo. São condutas que, do ponto de vista qualitativo, são aberrantes, porém, do ponto de vista quantitativo empresarial aparecem como necessárias”.

Guerra acrescenta que no estudo do Trilhas foi identificado um segundo aspecto nesses mecanismos de avaliação: são essenciais no fomento da competição dentro do local de trabalho. “Esse segundo aspecto é tão ou mais importante em relação à saúde dos trabalhadores, porque, no momento em que os trabalhadores acabam operando mediante a lógica da concorrência e da competição, eles acabam manifestando uma série de valores como deslealdade, agressividade, o que gera, então, a quebra da solidariedade, a quebra da coesão, a quebra da empatia, a quebra das relações humanas, que colocam os trabalhadores num estado de guerra uns com os outros, contribuindo para o isolamento e a destruição do corpo funcional. E tudo isso traz vantagens exclusivamente para a empresa, para a organização profissional”.

Esse adoecimento é produzido por aquilo que se chama de assédio moral organizacional. “A gente compreende que os assediadores são vetores por onde passa o assédio, que tem como fonte a organização empresarial”, afirma.

Conceito de saúde

Belizário: função social do trabalho

A psicóloga Roberta Belizário, que também participou do debate, trouxe o conceito da Organização Mundial de Saúde segundo o qual a saúde é o completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. “A nossa saúde é influenciada ou determinada por uma série de aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais. E o trabalho está no centro disso”, afirmou.

No que diz respeito à saúde mental, a psicóloga alerta que não é afetada apenas por atributos de ordem individual. “O conceito de saúde mental da OMS também traz os determinantes sociais, ou seja, a nossa saúde mental é influenciada por fatores sociais, culturais, ambientais, econômicos e, dentre eles, o trabalho”. Ela destaca que o trabalho tem função e espaço muito importantes na organização social e no desenvolvimento humano.

“O trabalho tem uma função que, obviamente é importante, de nos prover a sobrevivência material, mas também cumpre outras funções fundamentais, como um meio de inserção social, uma possibilidade de construção da identidade, uma possibilidade de compartilhar valores, sentidos, significados, como o espaço onde o indivíduo pode expressar aquilo que é, aquilo que sabe, aquilo que faz. O trabalho pode ser promotor de saúde, pode ser protetivo, mas pode também adoecer e causar sofrimento, causar mortes. E o que vai determinar se esse trabalho vai ser promotor de saúde ou produtor de adoecimento são as condições nas quais ele é realizado”, afirmou.

Na sua avaliação, a cultura empresarial posta hoje traz danos muito sérios para a saúde do trabalhador. “Nós observamos que no decorrer dos anos, das décadas, houve uma mudança no perfil de adoecimento. Durante muito tempo, nós ouvíamos falar dos acidentes típicos, das doenças ocupacionais típicas. O que tem se intensificado nas últimas décadas é um aumento muito significativo dos transtornos mentais e comportamentais. E isso tem a ver com essas características do trabalho”.

Dentre as características, a psicóloga destacou a descontinuidades dos processos diante das inovações, exigência de adaptabilidade, de flexibilidade e a cultura da excelência o tempo todo. “Um aumento da competitividade que leva ao individualismo, ao isolamento, por conta dos mecanismos de controle do trabalhador, entre eles, a avaliação de desempenho”. Ela também salienta que o trabalho deixou de ser circunscrito ao escritório, a um espaço concreto e visível: “a gente leva o trabalho para onde for; isso é muito perverso e nem sempre a gente se dá conta”.

Retirada de direitos

Uma outra questão é a flexibilização dos contratos de trabalho, das relações de trabalho, o que produz muita insegurança e retira direitos. “O trabalhador se responsabiliza pela gestão das tarefas, da carreira. Ele é quase um microempreendedor de si. Ele precisa ser autônomo, polivalente, criativo, ágil, entre tantas outras coisas. E a dedicação precisa ser integral. Isso está posto como um valor que precisa ser seguido. Só que essas exigências vão cobrar um preço, vão se refletir na saúde”.

O resultado é a perda do sentido do trabalho, o isolamento, aumento dos níveis de estresse. “Então isso tudo é um caldeirão que propicia a emergência de quadros de sofrimento e de adoecimento no trabalho”.

Ela alerta que os trabalhadores precisam estar atentos a esse conjunto de fatores para não “cair nas ciladas, não comprar algumas ideias tão prontamente e perceber a nocividade de algumas condições de trabalho. Outra coisa importante é a gente não achar que o problema é nosso, enquanto indivíduo, mas de toda uma coletividade”.

Para a psicóloga cuidar do estresse, com ações individuais, é bom, mas não resolve o problema. “Tem que tocar no ponto central, que são as condições de trabalho que produzem aquele adoecimento. Porque se você faz ioga, relaxamento, mas a meta continua lá, você vai melhorar?”, questiona.

Fotos: Sérgio Cardoso