Um esquete teatral mostrando a sobrecarga de trabalho que rouba o tempo e a energia das mulheres na divisão sexual do trabalho da sociedade patriarcal em que vivemos introduziu o debate na mesa “Machismo estrutural e seus impactos na vida das mulheres” no segundo dia da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias, realizada de 3 a 5 de maio, no Hotel Flamboyant, em Guarapari. No esquete, a mulher se liberta e conquista seu espaço para estudar, ter lazer e trabalhar com dignidade, mas essa ainda não é a realidade de todas.
“A primeira questão que a gente precisa refletir é qual é a nossa concepção de classe trabalhadora? O que é uma pauta reivindicatória e uma pauta importante para cada um aqui? Então, muitas vezes, quando a gente traz um debate relacionado ao machismo parece que é uma questão específica das mulheres e que os homens não podem contribuir. Só que esse é um tema que afeta diretamente a nossa vida, a nossa saúde, as transformações sociais que a gente almeja.”, iniciou a expositora Emilly Marques, mestra em Política Social (Ufes), especialista em Gênero e Sexualidade (Uerj), assistente social e militante feminista. O painel foi mediado pelas dirigentes do Sindibancários/ES Cláudia Garcia e Mônica Pais.
Ela destacou que a classe trabalhadora não é homogênea nem abstrata. “Nós temos gênero, temos identidade, temos orientação sexual, moramos em um determinado território, temos uma determinada formação familiar, temos, às vezes, uma rede de apoio maior ou menor, temos às vezes religião, às vezes não temos. Então toda essa nossa diversidade que nos compõe precisa ser respeitada”.
Emilly também apontou outra tendência quando se discute os assuntos da classe trabalhadora que é considerar que as questões do mundo do trabalho estão apenas ali naquele expediente, no cenário do banco. “Só que elas não começam ali. Não tem como a gente pensar em relação de produção social sem pensar em relação de reprodução social. E isso sim está nas costas das mulheres, como mostrou o esquete teatral. Então não adianta querer um trabalhador, e eu vou falar do masculino, um trabalhador pronto, se alguém não pensou na reprodução dessa força de trabalho. Porque esse trabalhador precisa descansar, precisa ter roupa limpa, precisa se alimentar para estar pronto para o capital explorá-lo no dia a dia. E isso fica no encargo de nós, mulheres, num trabalho não remunerado que é útil para a exploração capitalista”, afirmou.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) de 2022, as mulheres dedicam 10,6 horas a mais por semana que os homens aos afazeres domésticos. “Muitas vezes”, continuou Emilly, “a gente não assume uma consciência de classe que isso existe. Isso também é uma exploração. A gente pensa as nossas relações sociais no âmbito do trabalho, no âmbito da família, no âmbito da comunidade. A gente precisa pensar tudo que compõe essas relações sociais. São relações de exploração e também são relações de opressão”.
O machismo, na avaliação da expositora, está presente em toda a sociedade, nas nossas relações sociais, relações humanas, inclusive nas relações sindicais. “Qual é a fala que eu respeito? Qual é a fala que eu considero que tenha densidade teórica? Qual é a fala que eu valido? Qual é a fala que eu aproveito para fazer aquela piadinha com o meu colega? Qual é a fala que eu rotulo?”, questionou chamando todos à reflexão.
Para ela, a luta requer uma compreensão ampliada de todas as particularidades que atravessam a nossa classe. E gênero é uma delas. “Quando a gente fala de ampliação de direitos está falando para toda a nossa classe, assim a gente fortalece e amplia liberdades e horizontes emancipatórios”. Emilly destaca que há um processo que é coletivo na busca da igualdade entre homens e mulheres, mas há uma caminhada que também é individual.
Ela lembrou que segundo pesquisas recentes, na última década, mais de 49 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. “As estatísticas do nosso país são de países que estão em guerra”.
A expositora relacionou as questões que envolvem gênero, raça e classe. “Eu não consigo falar essa questão de gênero sem falar da questão de raça e da questão de classe. Isso tudo, ao mesmo tempo, é um nó. As estatísticas mostram sempre questões relacionadas à violência com as questões das mulheres negras e das mulheres com deficiência. A violência contra as mulheres idosas também tem uma estatística maior”.
Emilly ressaltou que “nós vivemos numa sociedade que é essencialmente antidiversa, é essencialmente opressora, quer nos dividir e mostrar que algumas demandas concretas são mais importantes que outras. Esse é um grande desafio da organização da nossa classe: não perder a direção da totalidade. Quando a gente pensa em transformação social, tem que pensar nessa transformação geral, tanto das relações sociais de opressão quanto de exploração”.
Fotos: Sérgio Cardoso

