Alguém já ouviu falar de uma crise que tenha quebrado os bancos no Brasil? Com a maior crise sanitária dos últimos 100 anos não seria diferente. Estudo publicado pelo Departamento Intersindical de Economia e Estatística (Dieese) aponta que os bancos passaram ilesos à pandemia em 2020. Juntos, os cinco gigantes do sistema financeiro nacional, lucraram R$ 79,3 bilhões no ano passado (gráfico 1). O resultado, que provavelmente causa inveja a qualquer concorrente do setor mundo afora, não impediu que os bancos brasileiros fechassem postos de trabalho e agências bancárias em pleno ano de pandemia. Motivo para a gestão draconiana dos bancos? Simplesmente aumentar ainda mais os lucros.

Segundo o Dieese, os bancos demitiram 12.874 funcionários em 2020 (quadro 1). O líder de demissões foi o Bradesco, com 7.754 bancários; seguido por Santander (3.220) e Caixa (2.611). “É isso mesmo que vocês estão lendo mesmo. O banco 100% público demitiu mais que o Itaú (2.228). Reflexo da política necroliberal comandada por Bolsonaro e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e seguida à risca pelo presidente da Caixa, Pedro Guimarães”, critica Carlos Pereira de Araújo (Carlão), do Comando Nacional dos Bancários.

Além das demissões, os cinco maiores bancos fecharam 1.364 agênicias. Novamente, o recordista foi o Bradesco, que fechou as portas de 1.083 agências em 2020 (quadro 2).

Não bastassem as demissões, acrescenta o dirigente, Pedro Guimarães está à frente do projeto de desmonte da Caixa, que prevê a venda de um dos mais valiosos ativos do banco: a Caixa Seguridade, com IPO marcado para o final deste mês. “Neste momento, estamos engajados na luta para evitar que Bolsonaro entregue a Caixa Seguridade ao setor financeiro a preço de banana, reduzindo assim a capacidade de investimento do banco, que tem papel social fundamental nas áreas de microcrédito, habitação, saneamento entre outras”.
“Queda” para cima
Mas quem arriscar perguntar a um dos banqueiros dos cinco gigantes como vai a saúde financeira da empresa, provavelmente vai ouvir muitas queixas. “Mesmo sentados sobre essa montanha de lucro, vão reclamar que amargaram perdas no ano passado em relação ao 2019”. Carlão lembra que 2019 foi um ano “fora curva” , no qual os bancos bateram todos os recordes de lucratividade.
O Dieese, ao mergulhar nos resultados, revelou por que a lucratividade “caiu” 25% em relação a 2019. O Governo Federal decretou calamidade pública de 20 de março até 31 de dezembro de 2020, em função da pandemia. Esse decreto, teve reflexos nos balanços dos bancos. De acordo com o estudo, logo no 1º trimestre do ano, houve forte elevação dos provisionamentos (quadro 3) diante de uma expectativa de deterioração do cenário econômico do país e da elevação das taxas de inadimplência, afetando negativamente seus resultados.
Esse provisionamento superdimensionado, projetando uma inadimplência que não se confirmou, ao contrário, caiu em relação a 2019 (quadro 3, acima), impactou negativamente os lucros dos cinco bancos, por outro, nos bancos privados, os impostos e contribuições –Imposto de Renda (IR) e Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL) – tiveram impacto positivo significativo, em função da entrada de créditos tributários.
O dirigente afirma que as provisões pessimistas projetadas pelos bancos, além de não se confirmarem, ainda foram inferiores a 2019. “Quando as taxas foram anunciadas no começo deste ano, os bancos ainda tentaram justificar que o calote não veio em 2020, mas é esperado para este ano. A verdade é que os provisionamentos foram superestimados e tiveram efeito sobre a PLR dos funcionários, que sofreu impactos”, aponta Carlão.
O gráfico (2) abaixo mostra que o Itaú elevou o PDD em 52,1% em relação ao 2019. Com exceção da Caixa, que elevou em apenas 3,4%, os demais bancos reajustaram o PDD na casa de 30%.

Ativos em alta
O estudo aponta que o total de ativos das cinco maiores instituições bancárias do país atingiu, em 31 de dezembro de 2020, R$ 7,9 trilhões, alta média de 17,1% em relação a 2019 (gráfico 3). Boa parte dos ativos dos bancos corresponde às suas operações/carteiras de crédito, cujo montante totalizou R$ 3,6 trilhões, em 2020, com crescimento de 14,1% em relação ao ano anterior. O patrimônio líquido (PL), que representa o capital próprio dos cinco bancos, atingiu R$ 592,1 bilhões, alta de 10,1% em doze meses.

“Quando observamos os ativos dos cinco maiores bancos, a pujança dos resultados fica explícita. Por isso quando a mídia corporativa estampa nas manchetes que os lucros dos bancos caíram, querendo incluí-los na vala dos mortais que estão sendo esmagados pela crise, temos que tratar esses dados como muita parcimônia. Queda dos resultados dos bancos? Só se for para cima”, ironiza Carlão.
3,2 trilhões nos cofres dos bancos
“A política ultraliberal do Governo Bolsonaro ordenou que o Banco Central abrisse a porteira para inundar os cofres dos bancos”. Carlão diz que a justificativa do governo foi aumentar a liquidez do setor financeiro para evitar uma retração na economia, como ocorrera em outras crises em que os bancos, temendo perdas, preferiram fechar os cofres.
Os bancos, porém, como mostram os números levantados pelo Dieese, aumentaram as provisões para devedores duvidosos prevendo um calote sem precedentes, que não aconteceu. “No final das contas, os grandes bancos emprestaram para as grandes empresas e se esquivaram das micros e pequenas para evitarem perdas (quadro 5). Os empréstimos com maior risco de inadimplência eles deixaram para os bancos públicos”.
O BC e o Conselho Monetário Nacional (CMN) adotaram medidas com o intuito de ampliar a liquidez do Sistema Financeiro em R$ 1,274 trilhão, o equivalente a 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB) Nacional. Ainda, segundo o estudo, foi adicionado a esse montante R$ 1,348 trilhão, em função da redução da alíquota do depósito compulsório e de outras exigibilidades, como provisionamentos adicionais. O objetivo foi ampliar as condições de capital das instituições financeiras para fornecerem mais crédito, num momento de incerteza. Esse conjunto de ações liberou R$ 3,2 trilhões em crédito potencial para os bancos.

