Teve início na manhã desta sexta-feira, 16, a Conferência Estadual dos Bancários/ES, que acontece no Hotel Flamboyant, em Guarapari. O encontro é preparatório para a Campanha Salarial dos bancários e traz o tema ” a gente não quer só salário”, destacando as questões de saúde e condições de trabalho da categoria.
“Não queremos só salário, queremos dignidade. Queremos mudança nesse sistema financeiro, de altos juros e de agiotagem, que não serve nem pra os bancários, nem para a população. Por isso vamos juntos construir uma Campanha Salarial sob a ótica da classe trabalhadora, junto com o povo brasileiro que, neste ano de Copa, está ruas não só para torcer, mas para se mobilizar por direitos” disse Carlos Pereira de Araújo (Carlão), coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES, que saudou os presentes e declarou oficialmente aberta a Conferência.
Na abertura do evento, uma intervenção cultural lembrou o brutal assassinato do pedreiro Amarildo pela Polícia “pacificadora” do Rio de Janeiro, em 2013, em homenagem aos milhares de lutadores e lutadoras do povo que sofrem diariamente a opressão do Estado, seja pela falta de direitos, seja pela ação das forças policiais e militares nas comunidades populares do país.

Análise de conjuntura inicia debates

A mesa de conjuntura abriu os debates da Conferência Estadual dos Bancários/ES. A análise internacional e nacional foi feita Luiz Antônio Araújo Costa, o Papa, que é mestre em Ciências Sociais, especialista em relações internacionais e professor da Universidade Católica de Salvador (UCSAL). Papa falou sobre o imperialismo norte americano, a crise mundial do capitalismo e o avanço do neoliberalismo no Brasil.
“O projeto de dominação política, econômica e militar dos Estados Unidos (EUA) tem enfrentado barreiras, e quando um império entra em decadência ele se torna mais agressivo. Vemos isso na intensificação dos conflitos internacionais e no aumento da intervenção militar norte americana. A medida que os EUA perdem importância econômica, como acontece em relação à China, ele tenta ampliar seu domínio pela força. Essa lógica está por trás da tentativa de golpe na Venezuela, na Síria e, mais recentemente, na Ucrânia. Os EUA tentam se livrar de países ‘incômodos’ ou controlar países com recursos naturais importantes”.
Para Papa, esses conflitos são inseparáveis da crise mundial do capitalismo, cuja resposta do Estado é sempre incidir sobre os direitos sociais, com corte de direitos e redução de políticas públicas.”Por isso as manifestações que ocorreram na Grécia, Itália, França e demais países da Europa foram por defesa de direitos”.
Conjuntura nacional
Em relação à política brasileira, Papa criticou o modelo de governabilidade dos mandatos de Lula e Dilma e a mudança programática do Partido dos Trabalhadores (PT), que, ao chegar à presidência, não realizou as mudanças consideradas necessárias para o povo brasileiro.
“Vimos nos anos 90 um avanço do neoliberalismo. Quando Lula assume o poder, em função da mudança programática do partido, o governo não faz as reformas estruturais. Há uma aposta do modelo neoliberal periférico, de exportação de commodities, ao invés de reconfigurar a distribuição de terras, de pensar a inserção do Brasil de forma autônoma na economia mundial. Assim, a república democrática e social no Brasil, do ponto de vista dos direitos, não se viabiliza, porque esses não saem do papel, e são esses direitos que as manifestações populares reivindicam, o direito à saúde, à educação etc”.
Foram palestrantes também o deputado estadual Cláudio Vereza (PT), que contribuiu com a análise de conjuntura nacional e estadual, e Brice Bragato (PSOL), assistente social e ex-deputada estadual, que criticou o cenário econômico, político e social no Espírito Santo.
O deputado Cláudio Vereza (PT) destacou a necessidade da Reforma Política para mudar o sistema eleitoral no país. Segundo ele, o financiamento privado de campanha pode comprometer o avanço de forças populares nos cargos eleitorais. “No atual sistema político, não é possível fazer campanha sem dinheiro. Sem mudanças significativas, esse modelo não irá permitir que forças populares cheguem aos poderes municipais, estaduais e federais com representação significativa”.
Vereza lembrou também das iniciativas que podem servir para pressionar o governo, como plebiscitos e mobilizações populares. “Já fizemos plebiscitos como o contra a Alca, contra o pagamento da dívida externa, além de grandes mobilizações que serviram para pressionar as forças conservadores que compõem o governo”.
Conjuntura Estadual
Na conjuntura estadual, Vereza destacou as contradições do governo com relação á aplicação dos recursos públicos. ”O Espírito Santo é um estado rico, com muito recurso para receber dos royats do petróleo, mas ao mesmo tempo temos 219 mil analfabetos absolutos, de acordo com o Censo de 2010, um avalor que representa 6,7% da população. Além disso, cerca de dois terços da população está fora da escola.
Brice Bragato (PSOL) falou sobre os últimos governos capixabas, com destaque para as gestões de Paulo Hartung e Casagrande. “Quando Paulo Hartung (PH) assume, ele levanta a bandeira contra o crime organizado, mas na verdade ele organiza o crime organizado sob seu controle. Ele neutraliza a assembleia subjugando-a e conseguir a provar a lei de incentivos fiscais do Estado, que deixa de recolher bilhões de reais de empresas privadas em isenções de impostos”, explica.
Brice falou também sobre as manifestações recentes e sobre o fim do pedágio da Terceira Ponte. “O fim do pedágio foi uma conquista dos movimentos sociais, mas foi também uma medida demagógica de Casagrande, encurralado pela pré-candidatura de PH. Não faltaram mobilizações, mas não houve avanço real para solucionar o caos da imobilidade urbana na Grande Vitória”.
A política de segurança pública do atual governo também foi alvo de crítica. “Para Casagrande, segurança é sinônimo de polícia. Não existe política preventiva, que inclua um processo educacional e assistencial. Enquanto isso, há uma matança indiscriminada de jovens negros da periferia e a violência contra a mulher continua crescendo. Até maio, já foram registradas 14 mortes praticadas pela polícia e nada disso é apurado, e as forças policiais continuam reprimindo arbitrariamente as manifestações populares”.
Para concluir, Brice apontou alguns desafios e ações para fortalecer e fazer avançar a luta popular. “Temos que denunciar as renuncias fiscais todos os dias, fiscalizar os gastos do governo, fortalecer os partidos de esquerda emergentes, desmascarar os falsos partidos de esquerda, fortalecer os sindicatos de luta, fortalecer a unidade dos setores combativos e retomar o movimento Vem Pra Rua e as jornadas de junho, sobretudo neste ano de copa e de eleições”.

