Em 1º de abril completaram 50 anos que os militares impuseram à classe trabalhadora brasileira uma ditadura que durou 20 anos. Na ocasião, o presidente João Gourlat, o Jango, anunciou as reformas de base, que contemplavam as reformas agrária, educacional, tributária, administrativa e urbana, o que desencadeou o descontentamento das elites latifundiária, empresarial, religiosa e financeira, nessa última estavam os banqueiros. Por isso, os militares e a conservadora elite brasileira, ambos instrumentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), depuseram o então presidente em 1º de abril de 1964. Contudo, a data que consta nos livros de história é 31 de março, pois os golpistas não queriam associar a ditadura ao dia da mentira, como o 1º de abril é conhecido no Brasil.
Uma das muitas ações repressivas do governo ditatorial foi em relação aos sindicatos. As entidades de classe que tinham compromisso com a luta dos trabalhadores sofreram constantes intervenções por parte dos militares, que destituíam diretorias eleitas de maneira legítima pela base para colocar em seus lugares os pelegos, “líderes” sindicais que estavam ao lado dos patrões e do governo militar, desmobilizando o movimento sindical.
“Como bancário, peguei o final do período ditatorial, na década de 80. Os Sindicatos tinham um papel assistencialista, oferecendo serviços como os de salão de beleza e laboratórios, ou seja, eram uma extensão do setor de recursos humanos das empresas e recebiam dinheiro delas. Contudo, nas principais capitais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, os bancários estavam entre as categorias mais mobilizadas. E essa mobilização nos incentivou aqui no Espírito Santo, onde passamos a exigir da direção do Sindicato a realização de assembleias, que, quando eram realizadas, eram comandadas pelos trabalhadores, em especial lideranças históricas do movimento bancário capixaba, como Paulo Pinto”, recorda o coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES, Carlos Pereira de Araújo, o Carlão.
A luta
Às diretorias destituídas e aos demais trabalhadores que iam para as ruas lutar por democracia, por melhores condições de vida, o Governo Militar respondeu com torturas e mortes. Foram criadas leis que beneficiaram em muito as elites empresarias e massacraram a classe trabalhadora, como a Lei do Arrocho, que congelava os salários e aumentava o lucro dos patrões.
Em meio aos manifestantes que foram às ruas para derrubar o governo militar estavam muitas mulheres a quem a ditadura agrediu obrigando-as a desfilar nuas para grupos de militares que faziam uma “avaliação” de seus corpos. Além disso, eram xingadas, estupradas, tinham o aparelho reprodutor destruído e as gestantes eram agredidas fisicamente até perderem seus bebês. Isso mostra o caráter patriarcal, moralista e opressor dos militares.
“Aqui, no Espírito Santo, os grupos de mulheres ainda eram um pouco incipientes. Contudo, a atuação das mulheres na luta contra a Ditadura Militar foi forte. Elas estavam inseridas em outros movimentos, como o Estudantil, principalmente nos curso do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) da Ufes, como Serviço Social e Economia. Em outros centros da universidade, como o Tecnológico e o de Biomédicas, a militância feminina também foi marcante”, recorda a ex-deputada estadual Brice Bragato, que foi militante do movimento estudantil universitário.
Ela destaca, ainda, que a Ditadura Militar foi um caos para a educação pública brasileira. “Livros como os de Marx e Paulo Freire não podiam fazer parte da bibliografia de nenhum curso. Os alunos que se interessavam por esses autores encapavam os livros para que ninguém descobrisse que se dedicavam à leitura de suas obras”, diz Brice.
Dirigente sindical entre 1985 e 1991, Paulo Pinto também vivenciou esse período e destaca como o regime representou um retrocesso na garantia dos direitos dos trabalhadores. “Naquela época, eram colocados todos os empecilhos possíveis para as pessoas se filiarem ao sindicato. Até a falta de uma foto era empecilho para que a filiação de um bancário ao Sindicato. Além disso, os jornais do Sindicato não chegavam ao interior e o sindicato estava presente nessas regiões somente por meio das delegacias sindicais. Os pelegos que estavam à frente do Sindicato tinham um medo muito grande que a base de trabalhadores aumentasse. A ditadura foi um período de intenso arrocho salarial, sem precedentes. Era um país fechado e nosso poder de compra era muito limitado.Somente em 1985, conseguimos ganhar a eleição no Sindicato e começamos a reestruturá-lo”, contou.
Durante a ditadura a imprensa alternativa sofreu grande censura. Já a grande mídia, que, inclusive, auxiliou na implementação do golpe, calava-se diante da realidade pela qual o Brasil estava passando como forma de enganar o povo brasileiro. Uma das provas disso é que uma das maiores manifestações das Diretas Já!, ocorrida em maio de 1983 e que reivindicava eleições diretas para presidente, foi transmitida pelos meios de comunicação da elite como uma comemoração ao aniversário de São Paulo.
Não houve nenhuma melhoria para o povo brasileiro. A estrutura agrária continuou baseada no latifúndio, os 10% mais ricos da população aumentaram sua renda de 40% para 47%. Já os 50% mais pobres viram suas rendas caírem de 17% para 15%. Em 1974 a dívida externa duplicou, em 1979 a inflação chegou a 77%.

