XV Marcha contra o Extermínio da Juventude Negra (Foto: Sérgio Cardoso)

Unidos à juventude negra, trabalhadores, trabalhadoras, representantes de entidades sociais e sindicais foram às ruas na tarde deste sábado, 19, na XV Marcha Contra o Extermínio da Juventude Negra. Com o tema “Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai”, o ato foi organizado pelo Fórum Estadual da Juventude Negra do Espírito Santo (Fejunes), e percorreu as ruas do Centro de Vitória, partindo da Praça Costa Pereira em direção ao Museu Capixaba do Negro. O encerramento foi marcado pelo Festival da Cultura Negra, com apresentações de grupos de capoeira, percussão e samba.

Diretores do Sindibancário/ES

Todos os anos a Marcha é um dos principais atos no Espírito Santo que marcam o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. Contribuir com a organização e participar da Marcha são compromissos do Sindicato dos Bancários/ES. Afinal, a luta contra o racismo e em defesa da igualdade de direitos para a população negra também é uma luta dos trabalhadores brasileiros.

“Participar deste ato é de extrema importância para a construção do Brasil que queremos, um país igualitário e livre do racismo estrutural que escraviza e mata negros e negras diariamente. Temos um legado de luta do povo negro por liberdade e por direitos. Faz parte do nosso compromisso dar continuidade a essa história. A classe trabalhadora negra continua subjugada no Brasil, com os piores empregos, terceirizada e sobretudo desempregada. Há séculos, os negros também enfrentam a violência e um verdadeiro extermínio, sobretudo da juventude. Por isso, hoje, nosso grito é de revolta e por liberdade. A elite econômica, majoritariamente composta por brancos, tem uma dívida com o povo negro que deve ser paga, a começar com a promoção de políticas afirmativas em todos os setores da economia”, enfatiza o diretor do Sindibancários/ES Carlos Pereira de Araújo (Carlão).

Juventude em movimento

A Marcha foi marcada pela presença maciça de jovens, oriundos de diversas cidades da Grande Vitória e integrantes de vários movimentos sociais. Diretor do Fejunes, Jorge Cirilo do Nascimento, 23 anos, falou sobre a união da juventude para enfrentar e derrotar o racismo.

Jorge Cirilo, diretor do Fejunes

“Essa é uma data importante para resgatar a luta do movimento negro. A abolição da escravidão tem apenas 134 anos e por isso é tão importante a nossa afirmação como corpo negro, como jovens negros. No Brasil essa luta é constante. Sabemos que as mudanças não acontecem por meio de ações individuais, por isso estamos em movimento de forma coletiva. São várias organizações de jovens que atuam e lutam em conjunto pelos nossos direitos nas diversas áreas, seja na saúde, na educação, e pelo direito principal que é à vida. Esse é nosso grito neste ato”, destacou o jovem.

Natalia Cristina, jovem do CRJ

A jovem Natalia Cristina Silvia do Patrocínio, 26 anos, faz parte do Centro de Referência da Juventude de São Torquato (CRJ) e, junto com outros meninos e meninas do CRJ, foi às ruas gritar pelo fim da violência contra a juventude negra. “Vivenciamos o extermínio de jovens pretos e tudo isso dificulta nossa existência. Como não reivindicar o direito à vida da nossa juventude preta se são os jovens que fazem a diferença no futuro? Acredito que é fundamental participar desse movimento, pois conseguimos dar visibilidade às nossas questões, ao nosso grito pela vida”, disse Natália.

Desigualdade que persiste

O Boletim Especial 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese), traz uma análise sobre a desigualdade entre negros e não negros no mercado de trabalho, com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os números apontam que entre os segundos trimestres de 2019 e 2022, houve um aumento significativo da informalidade, da subocupação e da queda de rendimento entre os trabalhadores brasileiros. Mas foram o homem e a mulher negra que sentiram mais fortemente os efeitos dessa piora no mundo do trabalho. O estudo aponta que no segundo trimestre de 2022:

– Entre o total de mulheres negras ocupadas, apenas 31,5% tinham carteira assinadas. Entre os homens negros, essa proporção era de 37,1%;

– Das trabalhadoras negras, 12,6% eram domésticas sem carteira e 3,7% com carteira; 21,1%, trabalhavam por conta própria; e 10,8%, eram assalariadas sem carteira;

– Entre os negros, 30,1% eram trabalhadores por conta própria e 18,1%, assalariados sem carteira;

– No total, cerca de 47,3% das mulheres negras trabalhavam sem proteção.

A categoria bancária não está isenta da desigualdade racial que ainda predomina no mundo do trabalho. O diretor de base do Sindibancários/ES, José Suzano, aponta que ainda é raro ver negros e negras entre os bancários. O fim do preconceito e da desigualdade racial no mercado de trabalho passa pelas políticas e ações afirmativas, como as cotas raciais nos concursos públicos.

José Suzano, diretor do Sindibancários/ES

“A elite brasileira até pouco tempo era escravocrata. Durante alguns momentos do nosso país e, principalmente nos bancos públicos, tivemos concursos públicos que possibilitaram a entrada de mais negros nos bancos, por exemplo. Mas não foram suficientes.  As políticas afirmativas como as cotas são, portanto, fundamentais para avançar na igualdade racial no mundo do trabalho”, aponta Suzano, que é bancário do Banco do Brasil.

A desigualdade racial não está apenas na restrita presença de negros e negras no mercado de trabalho formal. De acordo com o boletim do Dieese, o racismo também está presente nas diferenças salariais: os não negros recebem, em média, mais do que os trabalhadores negros. No segundo trimestre de 2022, o rendimento de um trabalhador negro foi, em média, R$ 2. 142, enquanto de um homem não negro foi de R$ 3.708. Já a trabalhadora negra recebeu R$ 1.715, em média, e a mulher não negra R$ 2.774.

O estudo do Dieese conclui que:  O país precisa voltar a crescer e a se desenvolver, criando oportunidades melhores para um conjunto expressivo de trabalhadores, mas é necessário também retomar políticas de igualdade racial e de gênero. Não é justo que mais da metade dos brasileiros seja sempre relegada aos menores salários e a condições de trabalho mais precárias apenas pela cor/raça ou pelo sexo. É necessário amplo trabalho de sensibilização social. A mudança depende de todos.

 

Confira o Boletim Especial 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra