Em setembro do ano passado, Rick Azevedo, então balconista de uma rede de farmácias no Rio de Janeiro, gravou um vídeo-desabafo na rede TikTok contra a escala 6X1. O vídeo tocou fundo nos trabalhadores, que se sentiram representados. Rick dizia que a escala 6X1 era uma espécie de “escravidão moderna”. A pauta pelo fim da 6X1 foi o mote da campanha de Rick à Câmara dos vereadores do Rio de Janeiro. O candidato foi eleito com mais de 29 mil votos – o mais votado do PSOL. A ideia foi encampada pela deputada federal Érika Hilton (PSOL), que conseguiu as assinaturas necessárias para protocolar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) na Câmara. A partir daí, ninguém conseguiu mais conter a onda do movimento Vida Além do Trabalho (VAT).
Ao longo da história do Brasil, as elites sempre criaram uma espécie de “terrorismo” para tentar impedir que a classe trabalhadora conquisasse direitos. Em 1962, na ocasião da aprovação do 13º salário, o jornal O Globo, por exemplo, alertava: “O pagamento do 13º salário poderia quebrar o país”. Com a PEC da escala 4X3 esse mesmo discurso se repete. Como desconstruir esse argumento dos empresários?
Essa resistência não é novidade. Toda vez que tentamos avançar nos direitos dos trabalhadores, ouvimos o mesmo discurso: ‘vai quebrar o país’, ‘a economia não vai aguentar’, ‘é inviável’. Esse tipo de argumento já foi usado contra o 13º salário, a CLT, as férias remuneradas e até pelo fim da escravidão. No entanto, a história sempre mostrou o contrário. Quando se respeitam os direitos dos trabalhadores, o resultado é um país mais forte, com uma economia mais sólida. Afinal, trabalhadores saudáveis e valorizados produzem mais, compram mais e movimentam a economia. A nossa PEC segue a mesma lógica. Não se trata de um gasto, mas de um investimento. Estudos comprovam que jornadas mais equilibradas aumentam a produtividade, diminuem os afastamentos por doenças e trazem benefícios para todos. E há outro ponto que muitos ignoram: uma pessoa com mais dias de descanso tem mais tempo para viver, consumir, viajar e investir na cultura. Isso movimenta dinheiro, fortalece o comércio e cria um ciclo econômico positivo. É preciso enxergar além do imediato. A pergunta que devemos fazer não é se o Brasil pode pagar por essa mudança, mas se o modelo atual de exploração pode continuar sem consequências graves no futuro.
A escala 6X1 é uma das principais causas do adoecimento mental do trabalhador. Como convencer o empresário de que a saúde vale mais que o lucro?
A lógica é simples: um trabalhador saudável e motivado sempre vai entregar mais. Isso é um fato. A escala 6X1, o trajeto desde sair de casa, o período que o trabalhador fica mais tempo na empresa e com poucos momentos de descanso, está custando caro para as empresas e para a sociedade. Estamos falando de afastamentos por depressão e Burnout, de queda na produtividade, de altos índices de turnover [índice que mede a taxa de rotatividade de colaboradores de uma empresa]. Nos países onde modelos semelhantes ao 4X3 foram implementados, os resultados são claros: menos licenças médicas, mais engajamento e, no fim das contas, mais lucro. Convencer o empresário significa mostrar que esta não é uma luta contra ele, mas sim uma tentativa de criar um ambiente em que todos ganhem. O trabalhador que descansa é o trabalhador que rende. Não há mistério nisso.
Qual a realidade do trabalhador submetido à escala 6X1? Quais são hoje as principais categorias que seriam beneficiadas pelo fim da escala?
Trabalhar na 6X1 é viver em um ciclo de exaustão extrema. A pessoa sai de casa cedo, chega tarde e mal sobra tempo para estar com a família, ser pai ou mãe, fazer um curso ou cuidar de si. É uma rotina que desgasta o corpo e a mente, levando à fadiga, ansiedade e até depressão e Burnout. As categorias mais impactadas por essa escala são aquelas que já enfrentam condições difíceis: trabalhadores do comércio, da indústria, do setor de serviços. Estamos falando de milhões de pessoas que não conseguem planejar sequer um momento de lazer. De não ter tempo para ir ao médico, fazer uma faxina, encontrar um amigo. A mudança para a 4X3 não é só um alívio para esses trabalhadores; é um investimento no bem-estar de toda a sociedade. Um trabalhador que vive melhor contribui mais para o seu ambiente, para sua empresa e para o país.
A onda pelo fim da 6X1 conseguiu furar a bolha ideológica para se tornar a pauta de todos os trabalhadores. A que se deve esse fenômeno?
O sucesso dessa pauta está justamente na sua simplicidade e universalidade. As pessoas estão exaustas e isso é um fato que atravessa profissões, classes sociais e até ideologias. Eu vivi nesse modelo por 12 anos e sei, na pele, o que a escala 6X1 significa: é abdicar de momentos básicos da vida, como estar com a família, acompanhar o crescimento dos filhos ou simplesmente descansar. É uma pauta que todo trabalhador conhece, seja porque vive essa realidade ou porque já viu alguém próximo ser engolido por ela. O VAT conseguiu pegar essa dor coletiva e transformá-la em uma luta que vai além de uma categoria ou setor. Trata-se de algo maior: a dignidade do trabalhador como ser humano. O direito de viver plenamente, sem ser reduzido a uma engrenagem de produção. Quanto ao futuro, há muito que queremos conquistar, como a ampliação das políticas de saúde mental para trabalhadores, mas, no momento, nosso foco absoluto está em abolir a escala 6X1. Já temos algumas discussões que colocarei em prática no meu mandato. O fim dessa jornada é mais do que uma vitória; é o marco inicial de um movimento que veio para transformar a relação entre trabalho e vida.
“A pergunta que devemos fazer não é se o Brasil pode pagar por essa mudança, mas se o modelo atual de exploração pode continuar sem consequências graves no futuro”.
No sexto episódio do podcast Projeto Querino, “A Cor dos Faraós”, do jornalista Tiago Rogero, há uma passagem que narra a manifestação de escravizados contra o senhor de engenho. Os escravizados reivindicavam, por escrito, mais dois dias de descanso. No período da escravidaão, os escravizados geralmente folgavam aos domingos. Era um dia dedicado à roça para consumo próprio e espacialmente ao culto aos orixás. Os escravizados em questão, na prática, faziam a escala 6X1 e estavam exigindo mais dois dias de descanso (sexta e sábado). Os escravizados justificavam: “Poderemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos, sem que nos impeçam e nem que seja preciso pedir licença”. Esse caso do engenho no sul da Bahia, ocorrido por volta de 1789, segue muito vivo mais de 200 anos depois. Podemos dizer que a mentalidade das elites pouco mudou da escravidão para cá?
É impossível comparar qualquer realidade contemporânea com a brutalidade da escravidão. O que aconteceu naquele período foi um crime contra a humanidade, um sistema que negava completamente a condição de ser humano. No entanto, quando nos deparamos com essa escala de trabalho 6X1, além de outras práticas que comprometem a vida dos trabalhadores, percebemos que ainda há resquícios daquela lógica de exploração. No exemplo dado, trabalhadores escravizados de anos atrás pediam apenas dois dias para viverem suas vidas, para sentirem a liberdade de ‘brincar, folgar e cantar’. Hoje, uma imensa parte dos trabalhadores ainda não conseguem isso. Não se trata de comparar períodos, mas de reconhecer que, para muitos, viver dignamente continua sendo um direito negado. A luta por dias de descanso é, no fundo, a luta por dignidade.
Você e a deputada Érika Hilton conseguiram emplacar uma pauta que une toda a classe trabalhadora. Mesmo trabalhadores que não estão submetidos a 6X1 parecem estar solidários à PEC. Qual a dimensão dessa onda criada pelo VAT e aonde ela pode chegar?
O VAT conseguiu transformar uma dor compartilhada por milhões em um movimento que ultrapassa categorias e ideologias. Ver tantas pessoas nas redes sociais e nas ruas demonstra isso. Quando até quem não trabalha no 6X1 se solidariza com essa causa, percebemos o quanto ela é urgente. Isso mostra que estamos tocando no que há de mais essencial: o desejo de viver dignamente. Essa ‘onda’ tem o potencial de reescrever a história do trabalho no Brasil. De salvar vidas. Ela já mobilizou milhões, já colocou o fim do 6X1 no debate nacional. E eu acredito que, se mantivermos o foco e a unidade, ela pode ir além da aprovação da PEC. Ela pode abrir as portas para repensarmos outras questões que há muito tempo estão negligenciadas no mundo do trabalho. O povo precisa entender sua força assegurada na Constituição. E já estamos entendendo.
Quais as estratégias que o VAT está planejando para manter a mobilização pelo fim da 6X1 em alta, ampliar o apoio da sociedade e aumentar a pressão sobre deputados e senadores para a que aprovem a PEC?
A mobilização não para. Nosso movimento é composto majoritariamente por trabalhadores. Pessoas que não fogem da luta. Estamos atuando em várias frentes: ampliar a conscientização com campanhas educativas, fortalecer parcerias e intensificar a pressão sobre os parlamentares. Mas também estamos olhando para as ruas e para as redes sociais, porque é nas ruas e nas redes que o debate ganha força. A força do VAT está em ser um movimento coletivo, enraizado na experiência real dos trabalhadores. É isso que nos diferencia. Não estamos apenas pedindo mudanças; estamos construindo um movimento que coloca o trabalhador no centro. Nossa estratégia é simples: manter a chama acesa, porque a luta só termina quando vencermos. E iremos [vencer].

