Quem lê o primeiro parágrafo da nota publicada nessa segunda-feira, 22, pela Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), por um momento talvez acredite que os bancos estão preocupados com a fase mais grave da pandemia e com os impactos que a explosão de casos em todo o país podem representar para a categoria bancária, uma das mais vulneráveis à covid. Diz um trecho da nota: “Sensíveis ao agravamento da pandemia de Covid-19 no país e atentos às necessárias medidas de prevenção, os bancos, visando contribuir com o poder público, irão dar prioridade ao atendimento por seus canais digitais nas localidades em que houver a antecipação de feriados ou com restrições mais rigorosas de isolamento social”.

“Ponto, fecha aspas e se encerra por aí a suposta empatia esboçada pela Febraban”, assinala a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges. A dirigente critica a posição dos bancos em manter as agências funcionando tanto nos municípios que anteciparam feriados (caso da cidade de São Paulo e do Estado do Rio de Janeiro) como nos que decretaram medidas mais restritivas, como lockdown ou quarentena.

Na nota, a Febraban “recomenda” aos clientes e à população em geral que concentrem suas atividades bancárias nos canais digitais, mas assegura que haverá, “em caráter excepcional, atendimento presencial e contingenciado, mediante triagem, controle e adoção de rígidos protocolos sanitários, em especial para os casos de recebimento de benefícios sociais, pagamento de salários, aposentadorias e pensões àqueles que não têm acesso a canais digitais ou remotos”.

Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão) do Comando Nacional dos Bancários, parte da sociedade vai interpretar que os bancos finalmente se dobraram à gravidade da crise sanitária e ao mesmo tempo se mostram preocupados com a saúde dos bancários e das bancárias. “Essa narrativa messiânica não nos convence. Na prática sabemos que a sugerida excepcionalidade vai, de fato, abrir precedente para que os bancos continuem fazendo negócios”, critica o dirigente.

Lizandre completa: “Estamos há um ano mergulhados nessa crise sanitária e o que vemos são bancários sendo assediados em meio a toda essa pressão para bater metas, fazer visitas externas a clientes ou trocarem o home office pela atividade presencial. Essa é a realidade da categoria. Onde está a empatia manifestada na nota da Febraban. A realidade é um número cada vez maior de bancários e bancárias infectados e, infelizmente, muitos óbitos de trabalhadores por todo o país”.

Decreto capixaba

A nota da Febraban pondera que os bancos devem observar os decretos e a legislação dos Estados e municípios antes de definir como será o funcionamento das agências bancárias em cada uma das localidades.

“Isso significa que os decretos prevalecem sobre a orientação dos bancos”. Carlão dá como exemplo o caso de Santos, no litoral paulista. Segundo ele, o decreto da Prefeitura de Santos determinou o fechamento das agências bancários. Só pode funcionar o autoatendimento enquanto durarem as restrições que vão até o dia 4 de abril. Ou seja, está nas mãos do governador ou do prefeito tomar a decisão em favor da vida. O prefeito de Santos demonstrou coragem”, pontua.

O dirigente afirma que foi justamente coragem que faltou ao governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, para decretar lockdown em todo o Estado. “Fechar tudo seria a decisão mais sensata para tentar conter a transmissão do vírus no Estado e reduzir a pressão sobre o sistema de saúde, que está colapsado em todo o Espírito Santo e agora caminha para caos geral. Mas o governador, além de não decertar o lockdown, tampouco restringiu o funcionamento das agências bancárias. Ao contrário, essas recomendações sugeridas pela Febraban conseguem ser ainda mais rígidas que o decreto governamental em relação ao funcionamento dos bancos. Casagrande classifica as agências como serviço essencial e tira todas as restrições. A pergunta que fica é a seguinte: essencial para quem? Para os banqueiros? Porque para o trabalhador temos certeza que não é”, contesta Carlão.

A reportagem encaminhou demanda à assessoria de imprensa da Febraban pedindo esclarecimentos sobre a nota, mas a instituição não se posicionou até o fechamento desta matéria.