A luta dos movimentos populares, dos trabalhadores do campo e da cidade e dos povos originários fazem parte da vida de Wilson Jesus Lucas Júnior. Administrador do Sindibancários/ES e formador popular, Wilson Júnior lança o livro Moinhos de Vento nesta sexta-feira, 05, às 19 horas, no Centro Sindical dos Bancários.  Poeta, Wilson Júnior transformou em versos as três décadas em que vive ao lado de homens e mulheres que lutam por igualdade, por direitos e por justiça social.

Nesta entrevista, Wilson Júnior fala sobre sua trajetória e inspirações para a poesia.

Como a poesia surgiu na sua vida?

Poesia sempre foi uma forma de refletir sobre os momentos que vivi. A primeira poesia escrevi ainda participando das Comunidades Eclesiais de Base e refletia sobre o que debatíamos naquele momento. Quando começo a militar, a me aproximar do Sindicato dos Bancários e a participar da organização dos partidos,  começo a perceber que existem lugares em que poderia me expressar. Eu tinha a 4ª série primária temia escrever errado. Mas a partir da militância percebi que havia espaço para escrever, e mesmo se escrevesse errado ninguém iria me julgar ou cobrar. Foi assim que comecei. A segunda poesia foi em um curso de formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do qual Rita Lima também fazia parte.

De lá para cá, ao longo de 30 anos, a partir do meu envolvimento com os movimentos dos trabalhadores sem terra,  agricultores, quilombolas,venho escrevendo. Moinhos de Vento é um relato da minha militância, uma reflexão sobre o que é ser militante nessa luta pela construção do mundo que almejamos, pelo socialismo.

Fale um pouquinho sobre esses encontros que te inspiraram.

Participei de duas demarcações de terras indígenas no Estado. Em um deles, na aldeia em Aracruz havia sido construído um pinicão que recebia esgoto da cidade dentro da área indígena. O  pinicão depois de um tempo foi desativado, mas continuava lá. Quando chegamos próximo a essa estrutura, subiu uma revoado de patos d’água  literalmente cheios de merda. Aquilo foi muito  marcante. Estávamos em um movimento para demarcar as terras indígenas e sabemos o compromisso do povo indígena com a preservação da natureza. Aquele revoado de patos mostrou que mesmo na lama, mesmo no esgoto, a vida resiste. Esse fato me inspirou a escrever uma das poesias que está no livro que fala dos povos originários.

Em uma outra oportunidade, estivemos em uma comunidade quilombola, onde sabíamos que no meio do eucaliptal, no  Sapê do Norte do Espírito Santo, havia sido localizado um cemitério. Quando foi derrubado o eucaliptal, aquela comunidade já sabia onde estavam as covas. Havia ainda os nomes de pessoas que foram enterradas naquele lugar. Havia, inclusive, um tronco, que era o local onde os escravos eram castigados. Aquele momento também me inspirou uma poesia.

 Você também escreveu poesias para amigos, familiares…

Tem algumas que não entraram no livro. Mas tem poesias que fiz para minhas avós, que me criaram já que minha mãe trabalhava fora. Boa parte do que aprendi na minha vida foi com elas. Tenho uma ligação muito forte com minhas avós e tem duas poesias no livro que fiz questão de colocar, pois são minhas referências ancestrais.

Além desses relatos de encontros em forma de poesia, podemos dizer que Moinhos de Vento também traz pílulas de incentivo para aqueles que seguem na luta?

Sim. Apesar da dureza da realidade que encontramos, o meu desfecho é sempre nessa perspectiva de chamar para a mobilização, para a unidade. Tem uma poesia em que criei o verbo “caitituzar”, inspirada no caititu, que é um animal pequeno que se assemelha a um porco e que forma o bando para enfrentar o seu predador.  Trago, então, a ideia que temos que coletivizar-se, “caitituzar-se”, para enfrentar a luta do dia a dia.

Trabalho sempre com a esperança. Não somos poucos e nossa luta é imprescindível. A luta não é fácil. Tem um poema, inclusive, que diz:  “A batalha foi dura. Perdemos muitos soldados. As cicatrizes vão ficar, não se apagam com o tempo. Mas a luta continua e é preciso prosseguir”.

Então, é sempre essa mensagem de esperança, convidando os trabalhadores para se aglutinarem, para lutarem contra o capitalismo. Ninguém consegue vencer esse modelo sozinho. Eu diria que é praticamente impossível.

Por que o nome Moinhos de Vento?

A grande inspiração é a figura do Dom Quixote. Nós somos vistos como Dom Quixote. Parece que vivemos em um mundo paralelo, que vemos moinhos de vento onde não existe. Mas temos muita consciência, enquanto militante, que dedicamos nossa vida a uma luta por mudanças pela humanidade, em prol do futuro de forma coletiva. Também é pra meu filho, para os meus descendentes, mas é uma luta para a classe trabalhadora que constrói todas as riquezas e não usufrui de nada. A inspiração para o nome do livro está em Dom Quixote pois nem ele ousou enfrentar sozinho suas loucuras. Não estamos sozinhos!

Esse é o primeiro de muitos outros livros?

Espero que sim. Nessa conjuntura, mesmo que a gente derrote o governo Bolsonaro, a luta não acabou. Temos muita coisa para reconstruir. Acredito  que nossa luta seja formada por tijolinhos que vão construindo a revolução.

Trago muito também a ideia de semente em minhas poesias. A semente pode ser guardada, traz o passado, é o presente é, ao mesmo tempo, uma possibilidade para o futuro. Essa semente pode também ser exterminada. Mas, mesmo que sejamos derrotados em algumas lutas, permanecemos ali como sementes e a hora em que for preciso seremos regatados, fazendo com que essas ideias floresçam.