“Sem empresas públicas, tragédia da pandemia seria muito maior”, aponta Rita Serrano

31/07/2021 10:47

Representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa participou da mesa de abertura da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias, que acontece virtualmente

Rita Serrano defendeu bancos públicos e seu papel social

“A pandemia é uma tragédia no Brasil e no mundo, agravada aqui pelo descaso do Governo Federal e de alguns governos estaduais. Mas se teve algo que ficou comprovado nesse período é que, se não fosse o Sistema Ùnico de Saúde e seus servidores; a Caixa Econômica Federal, que no ano passado atendeu praticamente metade da população em tempo recorde; os Correios, que também bateram recorde de atendimento da pandemia; se não fosse todo esse arcabouço público, a tragédia que estamos vivendo seria muito pior”.

Em um contexto de luto pelas mais de 550 mil mortes pela covid-19 no Brasil, Rita Serrano, representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa, jogou luz sobre papel indispensável que as empresas públicas tiveram para garantir os serviços essenciais à população e minorar os problemas sociais e econômicos gerados pela crise sanitária. Ela participou da mesa de abertura da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias, na noite desta sexta-feira, 30.

Para Rita, ter uma estrutura pública vigorosa pode salvar vidas, não por acaso, “países com um arcabouço público forte tiveram mais facilidade de contornar a pandemia e seus efeitos. Temos a China como exemplo, mas também o Reino Unido, um dos países mais liberais do mundo, que acaba de criar um banco público porque viu a necessidade de ter um instrumento de desenvolvimento naquela região ”, diz.

Brasil na contramão do mundo

O processo de desmantelamento das estatais ganhou força após o golpe de 2016 e se agudizou no Governo Bolsonaro, que sempre teve as privatizações como uma de suas bandeiras. O alvo mais recente foi a Eletrobras, mas também caminha no congresso o projeto de privatização dos Correios — um movimento que coloca o Brasil, segundo a dirigente, na contramão do mundo.

O argumento de Rita tem como base um estudo internacional traduzido pela Fenae e pelo Comitê em Defesa das Empresas Públicas que identifica movimentos de reestatização em vários países, como é o caso da empresa de serviços postais da Argentina. “Por que isso vem acontecendo? Porque a privatização piorou o serviço e a condição de atendimento, e os governos estão reestatizando. Isso se passou nos Estados Unidos, na Argentina, Alemanha e em outros países europeus. Boa parte das empresas de energia e de petróleo no mundo são de controle público”, destacou.

Os bancos públicos no Brasil

Diante dos ataques às estatais, chegar a 2021 com os cinco bancos públicos federais e os cinco bancos estaduais íntegros é uma vitória dos trabalhadores, de suas entidades e da sociedade, lembra a dirigente. “Mas é imperativo superar esse projeto de governo para preservar essas entidades, que já vêm sofrendo um processo severo de desmonte”, afirma.

Parte da estratégia do governo para facilitar a privatização é justamente esvaziar os bancos de sua função pública, reduzir sua capacidade de investimento e atuação, além segmentar sua estrutura em subsidiárias para promover a venda fatiada desses segmentos, explica Rita.

“Para vender a empresa você precisa passar pelo Congresso, para privatizar as subsidiárias, não. A Caixa tinha três subsidiárias em 2018, agora tem treze. Já fez o IPO da área de Seguridade e tem um projeto nefasto de criar um outro banco digital, que nasceria como uma instituição financeira para onde a Caixa transferiria suas principais operações e depois privatizaria”.

Banco do Brasil e Banco do Nordeste (BNB), segundo Serrano, também passam por esvaziamento. “O BB tem 25 subsidiárias e vem enxugando cada dia mais seu potencial no crédito e sua capacidade de investimento. O BNB, que tem um dos mais importantes programas de microcrédito do país, deve ter novas ações vendidas para a iniciativa privada e ainda corre o risco de perder os fundos constitucionais que administra, o que colocaria o banco em posição muito difícil, já que os fundos foram criados justamente para financiar investimentos na região norte e nordeste do país”.

Rita lembra ainda do BNDES e das consequências de seu enfraquecimento, diretamente ligadas às condições de vida da população. “Temos um BNDES desidratado, descapitalizado. O parque industrial no Brasil encolheu e voltamos a viver da agroindústria, que é completamente mecanizada e não gera emprego. Além disso, a maior parte da produção é de commodities para exportação, enquanto no Brasil o preço dos alimentos só aumenta”.

Luta dos bancários e da sociedade

Apesar dos desafios, para Rita o momento de organização congressual é justamente uma oportunidade de refletir e organizar a categoria para as lutas estratégicas, já que a realidade não é estática e pode ser transformada por meio da ação política. “Nós somos maioria”, lembra.

“É nosso papel pensar sobre como vamos mudar essa realidade, recolocando o Brasil novamente num ciclo de desenvolvimento, com bancos públicos fortes e cumprindo seu papel social na melhoria da qualidade de vida da população. Eu acredito que o nosso futuro é muito maior que o nosso presente, mas temos que ajudar a construir esse futuro desde já”, conclui.

Rita Serra dividiu o espaço na mesa desta sexta-feira com Fernando Carneiro, historiador e vereador pelo Psol em Belém (PA), que abordou aspectos mais gerais da conjuntura política e econômica do país. A Conferência Estadual dos Bancários continua no sábado, 31, com a realização de outros debates e dos congressos específicos de empregados de bancos públicos e privados. O evento é virtual.