Bancários realizam dia de luta contra assédio

05/07/2022 14:24

Empregados da agência permaneceram do lado de fora da unidade até as 10 horas. A manifestação reuniu, além de diretores do Sindicato, representantes de centrais sindicais, de entidades do movimento social e parlamentares

Fotos: Sérgio Cardoso

A agência Caixa Beira-Mar, onde funciona a Superintendência Regional da instituição, foi o palco inicial do ato do Dia Nacional contra o Assédio nos Bancos em Vitória. Bancários e bancárias da agência permaneceram do lado de fora da unidade até as 10 horas, numa manifestação que reuniu, além de diretores do Sindicato,  representantes de centrais sindicais e de entidades do movimento social e as parlamentares Camila Valadão, vereadora de Vitória pelo PSOL, e Iriny Lopes, deputada estadual pelo PT. De lá os diretores do Sindicato seguiram para a agência Banco do Brasil Pio XII, onde conversaram com os bancários.

Houve entrega de panfleto falando do assédio moral e do assédio sexual a que são submetidos bancários e bancárias no cotidiano do trabalho, divulgação do canal de denúncias disponibilizado pelo Sindicato e alerta sobre como identificar condutas que caracterizam o crime cometido por superiores hierárquicos.

Não é fácil denunciar

A coordenadora geral do Sindicato, Rita Lima, abriu o ato lembrando as denúncias de assédio sexual contra o então presidente da Caixa Pedro Guimarães levadas a público por empregadas do banco. “Nos solidarizamos com essas colegas, sabemos que não é fácil denunciar o assédio, que traz danos psicológicos e traumas para o resto da vida. Não podemos deixar banalizar práticas como essa. Por isso, nesse dia de luta contra o assédio nos bancos, estamos dando ênfase às manifestações na Caixa”, afirmou.

Rita Lima lembrou que o assédio moral, também motivo dos protestos, estará na mesa de negociação da Campanha Nacional 2022 com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) nesta quarta-feira, 6, cujo tema é igualdade de oportunidades. “Os salários ainda são menores para as mulheres. Nos bancos públicos, temos oportunidade de seleção interna, mas não temos outras garantias para que as mulheres se sintam seguras para concorrer a um cargo de gestão como gerência geral, por exemplo. A Caixa já foi, no passado, o banco que tinha mais mulheres em cargos de chefia, mas nunca de superintende e gerente geral. Hoje não é essa realidade nem sequer nas chefias. Igualdade de oportunidade exige respeito”, afirmou.

Revolta, repulsa e repúdio

“O que aconteceu na Caixa, que nos provoca revolta, repulsa e repúdio, é o que nós enfrentamos todos os dias na Câmara de Vitória e as mulheres enfrentam todos os dias nos seus vários espaços de trabalho”, disse a vereadora de Vitória Camila Valadão (PSOL), numa referência às constantes perseguições que vem sofrendo naquela casa de leis por ser mulher. E continuou “É mais uma demonstração do que é a gestão do presidente Bolsonaro. Pedro Guimarães é representante de Bolsonaro e reproduz a prática que esse desgoverno vem implementando no nosso país desde o início. É um completo desrespeito à classe trabalhadora; completo desrespeito à vida das mulheres; completo desrespeito aos poucos avanços de direitos e garantias que nós tivemos neste país.  Por isso atos que escancarem as contradições, os abusos e as violências desse governo são fundamentais”.

Na avaliação da vereadora, a saída de Pedro Guimarães representa “uma vitória das denúncias, mas é fundamental seguir mobilizados para derrotar Bolsonaro, o que não virá apenas das urnas, mas também das ruas, com atos como esse”.

Ato de barbaridade

A deputada estadual Iriny Lopes (PT) saudou a manifestação dizendo que “não poderia passar ileso um ato de tamanha barbaridade praticado pelo presidente de uma instituição que nós temos  dado a vida para proteger, para manter como banco público”. Na avaliação da deputada, se o presidente Bolsonaro “não fosse machista e violento”, possivelmente seus subordinados não teriam essa atuação.

“É inacreditável falar do presidente de uma instituição como a Caixa assediando, amedrontando, ameaçando física e psicologicamente suas empregadas. Parabéns a essas mulheres que não se calaram, pois é muito humilhante expor a situação de assediada – é o que tem que ser feito, mas é muito difícil e humilhante dar detalhes de algo íntimo. Ninguém pode ser intimidada a se dobrar às vontades de um homem que acha que é dono da mulher. Toda nossa solidariedade a essas mulheres. Não podemos deixar mais essas coisas acontecerem. Nós vamos tirar esse governo daí. Fora Bolsonaro e sua galera”, conclamou a deputada.

Movimentos negro e de mulheres

Gilberto Campos, da Unidade Negra Capixaba, destacou a solidariedade do movimento negro às empregadas da Caixa, lembrando que a população negra também é vítima costumeira de casos de assédio, assim como de preconceitos. “Todas essas mazelas caem nas costas das mulheres negras”, afirmou. Campos destacou que neste ano o Brasil tem “a possibilidade de promover uma mudança radical com as eleições, porém para derrubar esse projeto [do governo Bolsonaro] são necessários atos como esse. Podem contar com o movimento negro”, afirmou.

Ane Halama, do Fórum de Mulheres, destacou que não é fácil ser mulher no Brasil. “A gente é tratada como objeto e propriedade, o que piora em espaços de poder, em instituições como a Caixa. Não podemos deixar que se apoderem das nossas instituições e façam isso com as trabalhadoras. Por isso a mobilização é importante”, afirmou.

Centrais sindicais

A presidenta da CUT/ES, Clemildes Cortes, fez uma saudação às “mulheres que tiveram a coragem de denunciar o assédio sofrido” e ao Sindicato pela realização do ato.

Idelmar Casagrande, representante da Intersindical e diretor do Sindicato, apresentou solidariedade às bancárias da Caixa e lamentou que essa prática tenha “vindo da presidência de uma empresa estatal que deveria ser guardiã da igualdade, do respeito e da solidariedade ao invés de praticar assédio”. Ele destacou que não se sabe o tamanho do crime, pois só uma investigação severa do Ministério Público poderá dizer isso.

“A gente sabe que essas coisas acontecem diariamente na categoria bancária e em outros setores da economia. O assédio sexual, carregado também de assédio moral, vem acompanhando a vida dos trabalhadores no dia a dia. Nesse momento em que o país inteiro se comoveu, que os canais de TV denunciaram, temos que manter a chama da revolta acesa para banir de vez a prática de assédio moral e assédio sexual das relações de trabalho. Isso tudo revela mais uma face cruel desse governo”, afirmou.