“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”. Essa é a tese de um dos maiores filósofos vivos, o italiano Giorgio Agamben. Segundo ele, o capitalismo não se reduz a um sistema econômico. Ele é uma verdadeira religião. Mas diferentemente de todas as demais religiões que existem ou existiram, o capitalismo é a única que faz do trabalho um culto, e do dinheiro objeto de veneração.
Parece exagero?
Então pense:
Todos nós já sofremos. Todos nós temos medo de sofrer. E não faltam no mundo causas para o sofrimento. Ao mesmo tempo, todos nós buscamos a libertação do sofrimento. Todos nós temos o desejo ardente de não sofrer. Queremos ser felizes, alegres, realizados. Queremos a paz, a tranquilidade e a segurança.
Pronto. Encontramos uma polaridade religiosa: O bem e o mal. A redenção e o castigo. O paraíso e o inferno.
Agora traga tudo isso para o seu cotidiano e você verá que o inferno é a pobreza e o paraíso é a riqueza.
Mesmo sem perceber, perseguimos o dinheiro como uma promessa muito mais profunda do que apenas a busca por recursos suficientes para sobreviver.
Buscamos o dinheiro com a fé de que sob seu manto estaremos finalmente protegidos e seguros contra as trevas da pobreza que nos espreita e apavora. O dinheiro é nosso pastor e nada nos faltará.
O triste fim de todos que se levantam para essa cruzada em busca do deus dinheiro é suportar a contradição de tornar sua vida no presente um inferno, mas com a fé de um paraíso futuro por vir.
Entendendo isso, os bancos – templos erguidos para o deus dinheiro – constroem lógicas de remuneração variável que são um verdadeiro pacto de Fausto para os bancários.
Em Fausto, do escritor alemão Goethe, um homem faz um pacto com o demônio Mefistófeles. O demônio o servirá na vida presente, e, em troca da felicidade que essa vida poderá lhe trazer, ficará com a alma do homem no futuro.
A analogia é pertinente. Cada centavo obtido pelos bancários com a remuneração variável, é a promessa de estarem um passo mais próximos da paz celestial. Mas ao mesmo tempo, também é mais um degrau acima do mundo terreno da pobreza de onde se foge desesperadamente. Quanto mais alto se sobe, maior a vertigem e a agonia diante do risco de cair.
A maldição na religião do capitalismo é o paraíso não ser absoluto. O dinheiro suficiente para nos fazer chegar à redenção só existe até o momento de ser alcançado.
Faça uma breve retrospectiva de sua vida e se lembrará de vários marcos financeiros que antes de serem conquistados apareciam como o último degrau antes do paraíso. Onde eles estão hoje? Ficaram para trás e foram substituídos por outros marcos – só um pouquinho mais adiante. Na melhor das hipóteses: “agora sim falta pouco”.
A renda variável joga com essa tentação de querermos estar só um pouquinho mais próximos do deus cifrão. A mídia, as redes sociais, os influencers financeiros e a injustiça econômica deliberada que reproduz a pobreza como arma política garante que “sucesso”, “prosperidade” e “liberdade financeira” para os trabalhadores continuem sendo sempre uma cenoura de ouro atrás do arco-íris.
A tragédia é que no capitalismo o paraíso sempre estará no futuro. E muitos que se colocam nessa jornada perdem a si próprios pelo caminho. Vendas casadas. Estímulo ao superendividamento de clientes vulneráveis, omissão de informações, desvios éticos infinitos com os clientes. Além disso, um papel cada vez mais ativo em um ambiente de trabalho hostil, individualista, desleal, agressivo e cruel com os colegas.
E essa agonia não é só dos trabalhadores. No livro Coisa de rico: A vida dos endinheirados brasileiros, do antropólogo Michel Alcoforado, ele revela como até banqueiros podem “sofrer” como ratos na gaiola correndo atrás do deus dinheiro.
A verdade nua e crua é que todos os tipos de remuneração variável são construídos como armadilhas para os trabalhadores, independentemente da quantidade de sua remuneração.
Atrás do “bônus” recebido, sempre é deixado um rastro de sangue, suor, lágrimas e medicamentos. O brilho da vida futura prometida se conquista às custas do apagamento da vida presente.
Amanhã, o batedor de metas de hoje pouco se beneficiará de seu esforço, quando muito terá compensado parte dos prejuízos de longo prazo em sua saúde e na saúde de seus colegas. Ao invés da luta por aumento de salário e recomposição salarial (o que garantiria previsibilidade, segurança, além de reflexos trabalhistas e previdenciários como décimo terceiro, FGTS, base de cálculo para aposentadoria, e etc.), são os bancos que de muitas formas se beneficiam aqui e agora remunerando variavelmente os trabalhadores (o que um banco distribui como PLR, por exemplo, é utilizado para a dedução de impostos e encargos!).
Enquanto os bancos pagam menos do que deveriam, os trabalhadores recebem menos do que poderiam. Tudo isso ao custo altíssimo da venda cotidiana de almas em busca do mesmo paraíso oferecido a Fausto.
Em grego, “alma” é psiquê. Por isso, não Freud, mas talvez Mefistófeles é quem possa explicar por que hoje o adoecimento psíquico é generalizado na categoria bancária.
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André Guerra – Psicólogo, doutor e mestre em Psicologia Social e Institucional, especialista em Psicologia Clínica Fenomenológico-Existencial. Sócio-fundador da Clínica Pólis – Assessoria em Política de Saúde Sindical

