
(Da esq./dir.) Rita Lima, Kelly Quirini, Sérgio Toledo, Mônica Garcia, Arthur Dussoni, Douglas Ferrari e André Tosta (Fotos: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)
Na abertura da mesa “Diversidade e Direitos”, a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, enalteceu a iniciativa da organização da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias 2023, encerrada nesse domingo, 02, de ter incluído o tema na programação deste ano. “A desigualdade, a opressão, o racismo são orgânicos e estão presentes nas estruturas da nossa sociedade. Essa discussão está na ordem do dia e não podia ficar de fora da conferência”, sublinhou Rita. Além de Rita, que debateu a questão da mulher, a mesa teve as presenças de Kelly Quirino (negro), André Tosta (LGBTQIANP+) e Douglas Ferrari (PcDs). Os dirigentes do Sindicato Mônica Garcia, Sérgio Márcio de Toledo Moura e Arthur Dussoni coordenaram os debates.
O professor e pesquisador da Ufes, Douglas Ferrari, que recentemente foi nomeado para compor a Comissão Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (CNEEPEI) do Ministério da Educação (MEC), abriu sua fala explicando por que não usaria o recurso de apresentação a partir de imagens (Power Point). “Eu quero que vocês tenham uma experiência não visual”, disse Douglas, que é deficiente visual. Antes de iniciar, ele se descreveu para fazer uma provocação pedagógica. A partir daí, outras pessoas que participaram do debate também passaram a fazer uma descrição de si mesmas antes de falar.
Douglas destacou a importância de trazer o capacitismo para o debate. “Capacitismo é uma palavra nova para algo velho”, resumiu. Capacitismo é um termo que descreve a discriminação, estigmatização e preconceito contra pessoas com deficiência, com base em suas habilidades ou limitações funcionais. É uma forma de discriminação que nega o valor e a dignidade das pessoas com deficiência, perpetuando estereótipos negativos, tratamento desigual e exclusão social. “O capacitismo está presente desde a nossa infância, quando entramos na escola. E depois segue ainda mais presente na universidade e no trabalho”. Ele disse que no mercado de trabalho a reserva de vagas para PCD é negada. “Muitas vezes o empregador prefere pagar a multa a contratar um PCD. Isso é capacitismo na veia”, criticou.
O professor disse ainda que é preciso unir e não fragmentar os movimentos de minorias. “É preciso ter uma visão integrada. Não dá para fazer o debate separado do PCD, da mulher, do LGBTQIAPN+, do negro… Essas lutas são transversais”, assinalou.
Racismo
A conselheira de Administração do Banco do Brasil e doutora em Comunicação (UnB) Kelly Quirino usou seus conhecimentos midiáticos para criar uma apresentação bastante dinâmica e ilustrativa para cativar a atenção dos presentes. Kelly aproveitou para agradecer os votos da base bancária capixaba que contribuíram para sua eleição ao Conselho de Administração do BB.
“Por que falar de racismo? Porque racismo é um problema de todos nós. Sofremos todas as consequências do racismo na pele todos os dias, em todos os lugares”, afirmou. Com a ajuda de imagens de quadrinhos ilustrativos, ela mostrou que o negro é obrigdo a andar com a nota fiscal de uma simples bicicleta no bolso para poder provar às autoridades que é sua, que não é roubada. “Quando concluir a minha fala, mais um negro terá sido assinado no Brsil”, disse se referindo à estatística que registra a morte de um negro no país a cada 15 minutos.
“O racismo é um problema de todos, mas nós não gostamos de falar sobre racismo. ‘Ah, eu tenho uma amiga preta, então não sou racista’. Brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Kelly indagou aos presentes: “Que projeto de país queremos construir? A primeira coisa que temos que fazer é admitir que somos racistas”. Ela citou o quanto ainda é forte no Brasil o mito da democracia racial ao fazer referência à obra O Guarani, de José de Alencar, publicada em 1857, na qual o escritor afirma que o Brasil foi construído por indígenas e brancos, e exclui os negros desse processo de formação do país.
Kelly fechou a apresentação dizendo que o movimento negro está na luta diária dos quilombos que se constituíram neste país.
LGBTQIAPN+
O bancário da Caixa e mestre em Ciências Sociais pela Ufes André Tosta abriu sua fala, a partir da quarta letra da sigla LGBTQIAPN+, o T, para lembrar que a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos no Brasil, ou seja, menos da metade da população em geral, que é de 77 anos. Estudos e pesquisas têm apontado para altos índices de violência praticados contra pessoas trans no Brasil, incluindo assassinatos motivados por transfobia. Essa violência, juntamente com a discriminação e o acesso limitado a serviços de saúde adequados, contribui para a redução da expectativa de vida dessas pessoas.
André Tosta disse que a sigla LGBTQIAPN+ engloba 9 categorias que viraram identidades. “A sexualidade humana é composta de quatro fatores [biológico, psicológico, social e cultural]. Esses fatores não são ligados, mas independentes. Com relação ao corpo biológico, o militante explicou que a maioria das pessoas nasce com aparelho sexual que as diferenciam entre macho e fêmea. “Sobre esse corpo biológico construímos uma identidade de gênero. Em contato com a sociedade, esse corpo cria uma identidade a partir de aspectos individuais e coletivos. Esse corpo vai se ligar a outros corpos a partir da orientação sexual”.
Glossário
Antes de entender o significado das letras que compõem a sigla LGBTQIAPN+, é importante respeitar a nomenclatura com a qual a pessoa se identifica e como ela se autodenomina. A sigla é apenas uma representação simplificada e não abrange todas as identidades e experiências individuais dentro das comunidades. Cada pessoa tem uma experiência única de sua identidade de gênero e sexualidade, como explicou André Tosta.
Lésbica é um termo que pode ser definido como aquele que designa pessoas do gênero feminino que sentem atração sexual e/ou afetiva por pessoas que também são do gênero feminino.
Gay tem um significado mais puro, remete de forma geral a pessoas que sentem atração sexual ou afetiva por pessoas do mesmo gênero.
Bissexual representa uma pessoa que se relaciona sexualmente, afetivamente e emocionalmente com pessoas do gênero feminino e masculino.
Transgênero representa quem se opõe, que transgride e transcende a ideologia heterocisnormativa imposta socialmente. Pessoas que assumem uma identidade oposta àquela atribuída socialmente de acordo com o órgão sexual que nasceu ao gênero que nasceu, que sentem-se pertencentes ao gênero oposto do nascimento.
Queer, ao pé da letra, significa estranho e sempre foi usado como ofensa a pessoas LGBT+. No entanto, a comunidade LGBTQIAPN+ se apropriou do termo e hoje é uma forma de designar todos que não se encaixam na heterocisnormatividade, que é a imposição compulsória da heterossexualidade e da cisgeneridade.
Intersexual é usado para se referir a pessoas que nasceram com características biológicas que englobam tanto o gênero feminino quanto masculino.
Agênero representa, entre outras identidades, a da pessoa que tem identidade de gênero neutra, não se identificando com o binarismo comumente conhecido pela sociedade que se resume ao gênero feminino ou masculino.
Pansexual representa a pessoa que tem atração sexual ou romântica por todas as identidades de gênero, inclusive as que não pertencem ao campo convencional do masculino ou feminino.
Não-binárie sente que seu gênero está além ou entre a convencionalidade de homem ou mulher e pode defini-lo com outro nome e de maneira totalmente diferente, englobando um guarda-chuva maior que o da transgeneridade.
O Mais (+) da sigla engloba o crossdresser, um termo emprestado da língua inglesa que expressa a prática de pessoas que têm como parte da sua expressão no dia a dia o hábito de usar peças de roupa do gênero oposto.
Mulher
Rita Lima lançou uma pergunta para os bancários e bancárias: “O que é ser mulher na sociedade brasileira? Somos diversas, não somos iguais. Somos diversas, mas dispersas. Somos muitas mulheres ao mesmo tempo. Somos tantas, mas não somos iguais”. A dirigente rechaçou a ideia de mulher universal. “Uma mulher branca não sofre o mesmo preconceito que uma mulher negra. Nesse caso, a forma de opressão não é igual”, destacou.
Rita lembrou que as mulheres representam 53% do eleitorado, mas estão sub-representadas nas esferas políticas de poder e no judiciário. As mulheres, destacou Rita, também são maioria na força de trabalho (47%), mas ganham, em média, 21% menos que os homens. “Somos a minoria em cargos executivos, de comando, inclusive no setor bancário”. Mais da metade das famílias brasileiras é chefiada por mulheres”.
Mesmo com toda essa representatividade, sofremos violência em casa e no trabalho, disse Rita. “Somos herdeiras de uma sociedade capitalista patriarcal, machista, escravista, racista e homofóbica”. Ela enfatizou que é preciso entender as origens dessa opressão da qual a mulher é vítima. “Antes da instituição da propriedade privada, a desigualdade sexual não existia. Com a industrialização, o capitalismo levou a mulher para dentro da fábrica. A partir daí, ela foi obrigada a assumir a dupla jornada: assumir o trabalho fabril e dar conta do trabalho doméstico”.
Dentro desse contexto imposto pelo capitalismo, Rita lembrou que Marx definiu a família como a primeira forma de propriedade do homem sobre a mulher e os filhos, se expressando no direito de se dispor desta força de trabalho. Marx considerava a família como uma instituição fundamental para a reprodução da força de trabalho dentro do sistema capitalista. O filósofo alemão argumentava que, na sociedade capitalista, esse modelo de família patriarcal reproduzia as relações de classe e perpetuava a desigualdade social.
Mulher bancária
Rita fez ainda uma importante explanação sobre os avanços e conquistas da mulher bancária. Ele contou que nas primeiras décadas do século XX os bancos não aceitavam mulheres em seus quadros. O Banespa, banco do Estado de São Paulo vendido para o Santander em 2000, foi o primeiro a contratar uma mulher, em 1968. Três anos depois, em 1971, seria a vez do Banco do Brasil integrar uma mulher aos seus quadros.

Na Constituição Cidadã de 1988, destacou Rita, as mulheres conseguiram incluir a cláusula que previa a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Ela destacou outra conquista importante, alcançada em 2020, que foi a inclusão das medidas de prevenção à violência doméstica e familiar contra a mulher na Convenção Coletiva de Trabalho da categoria bancária.
Rita Lima afirmou que as mulheres têm muitas lutas e conquistas pela frente. “Precisamos manter a mulher como protagonista dessa luta para derrubar o capital e construir um futuro socialista, onde reine a igualdade de gênero, raça e classe”, finalizou.









