Reestruturação dos bancos: redução de custos com força de trabalho para ampliar lucros

Gustavo Carvazan

O setor bancário está encolhendo enquanto outros segmentos do ramo financeiro seguem em franca ascensão. Um dado da sua pesquisa mostra que os bancários, que representavam 80% do ramo financeiro em 1994, em 2021, eram apenas 44%. Qual o peso da terceirização nesse processo de encolhimento do setor bancário?

O processo de encolhimento da categoria bancária se intensifica na última década e tem inúmeras facetas como terceirização, plataformização, fragmentação, pejotização e assim por diante. Esse movimento tem o objetivo claro de reduzir custos com força de trabalho, à medida que os bancos seguem se apropriando do resultado do trabalho destes segmentos periféricos de trabalhadores do setor financeiro, com custo menor a base de precarização das condições de trabalho. É difícil dizer o peso exato da terceirização nesse processo, na medida em que um grande problema em estudar e compreender a terceirização é justamente a dificuldade em detectar esses trabalhadores nas bases de dados.

Mas há algumas pistas para entender a terceirização?

De acordo com dados do Banco Central (BC) para o ano de 2024, existem cerca de 240 mil estabelecimentos empresariais prestando serviço como correspondentes bancários, uma quantidade cerca de 14 vezes maior do que o número de agências bancárias no país. Ainda, de acordo com o BC, estes milhares de estabelecimentos são contratados por 293 instituições financeiras como bancos, cooperativas de crédito, financeiras, agências de fomento etc., portanto, ainda que não saibamos exatamente o número de pessoas envolvidas na terceirização nos bancos, é possível afirmar que esse mecanismo é sem dúvida o mais difundido quando pensamos na fragmentação do emprego no setor com objetivo único de redução de custos à base de precarização do trabalho.

Na campanha deste ano tivemos um episódio de violência policial para coibir uma manifestação de bancários contra a terceirização no Santander, que vem sendo denunciado na Justiça por fraude na contratação. Como você avalia esse processo de terceirização do Santander? Dirigentes sindicais afirmam que a terceirização no Santander é um laboratório para os outros bancos. Compartilha dessa tese?

A terceirização nos bancos foi assumindo diversas faces desde os anos 1980, primeiro passando pelas áreas “meio” como limpeza e segurança, depois chegando às áreas fins do setor com inúmeras etapas do trabalho diretamente vinculada a crédito e pagamentos, por exemplo, sendo terceirizadas, depois com a expansão
descomunal dos correspondentes bancários e agora o Santander inaugura uma nova fase desse longo processo, a partir da criação de novos CNPJs dentro de sua
holding e a transferência de bancários para estas outras empresas fugindo da CCT da categoria bancária e da representação sindical dos bancários. É um processo completamente desavergonhado de redução de direitos dos trabalhadores e, pela ótica do banco, redução de custos. A reforma trabalhista e a lei da terceirização
têm uma característica muito peculiar que é a de terem tentado garantir segurança jurídica para práticas fraudulentas que já eram praticadas no Brasil, mas com risco jurídico maior. Na medida em que as empresas se sentem seguras do ponto de vista jurídico e econômico, práticas como a do Santander podem se espraiar para outros bancos do setor.

Essa massa de trabalhadores que está povoando as franjas do ramo financeiro atua diretamente na construção dos resultados dos bancos, mas não são mais bancários. É possível incluir esses trabalhadores no guarda-chuva do setor bancário?

Esse ponto é muito importante e precisamos ter sempre em mente. Apesar de estes trabalhadores não serem bancários e muitas vezes não serem funcionários
dos conglomerados financeiros – por vezes não têm nem mesmo contrato de trabalho -, eles estão na cadeia de valor dos grandes bancos, vendendo produtos
e serviços que pertencem aos grandes bancos e, portanto, contribuindo direta e ativamente para geração e crescimento dos lucros. É justo que esses trabalhadores não participem da CCT da categoria bancária? É justo que não tenham uma representação sindical forte? Não é justo!

A reforma sindical seria a luz no fim do túnel para reverter essa situação?

É preciso pensar uma reforma sindical que dê conta de dar respostas a esse mercado de trabalho fragmentado que vemos no capitalismo contemporâneo e
a partir da reforma sindical e da própria reestruturação interna do movimento sindical é possível sim pensar em formas de representar e defender condições de
trabalho dignas para todos os trabalhadores que estejam na cadeia de valor dos bancos. O mesmo raciocínio vale para os demais setores da economia.

Após a reforma trabalhista, os bancos iniciaram um profundo processo de reestruturação que se intensificou no pós-pandemia. Uma parte importante dessa reestruturação passa pelos avanços tecnológicos. Qual a relação entre avanços tecnológicos e redução do emprego bancário?
Os bancos são o setor econômico que mais investe em tecnologia no país. Isso ocorre tanto em função da forma de concorrência no setor, como também pelo próprio poderio econômico das empresas do setor. Tais investimentos ocorrem inclusive em áreas da fronteira tecnológica como inteligência artificial, análise de dados, digitalização das transações bancárias. É certo que esse enorme investimento tecnológico por parte dos bancos é justificado pela expectativa de uma futura redução de custos com estrutura física de agências e força de trabalho, portanto há uma relação direta com a redução do emprego bancário. No entanto, é preciso dizer que o elemento tecnológico se soma a outros mecanismos como flexibilização das regras trabalhistas, flexibilização dos regramentos do banco central, esvaziamento do papel dos bancos públicos etc. Todos esses processos se somam e se amplificam para facilitar o movimento de fragmentação do emprego financeiro. 

O Bradesco também tem feito a transferência de serviços e produtos por meio de plataformas como a Ágora, Bitz e Next. Você também considera uma modalidade de terceirização?
Talvez não no sentido estrito de terceirização que significa transferir a outra empresa partes ou etapas do trabalho que antes eram realizadas internamente, mas sem dúvida essa estratégia do Bradesco está dentro desse mesmo contexto mais amplo que estamos discutindo aqui: fragmentação do emprego no setor financeiro com vistas a reduzir custos com força de trabalho. Possivelmente se esses tipos de novos serviços financeiros surgissem alguns anos atrás, sem a flexibilização trabalhista atualmente observada no país, o Bradesco teria desenvolvido tais produtos e serviços por meio de sua rede própria e de trabalhadores bancários. 

O Dieese tem alguma projeção do tamanho do setor bancário se a queda continuar nesse ritmo?
Projeções desse tipo não são aconselháveis pois estão sujeitas a inúmeros fatores não mensuráveis como por exemplo, como vai evoluir a correlação de forças políticas no país e como isso se refletirá em maior ou menor proteção dos trabalhadores ou então como o movimento sindical irá responder aos desafios buscando proteger a categoria, ou se haverá algum tipo de processo “contrapeso” que seja capaz de gerar emprego bancário, como por exemplo uma forte atuação dos bancos públicos, similar ao que ocorreu nos anos 2000, por exemplo. O que podemos dizer é que na última década um conjunto de fatores atuou para reduzir a categoria bancária (inovação tecnológica, reforma trabalhista, regulamentações do BC, política econômica, esvaziamento dos bancos públicos etc) e que é urgente traçar estratégias sindicais que sejam capazes de recompor uma correlação de forças mais favorável, seja no sentido de voltar a ampliar o emprego bancário de qualidade, seja no sentido de ampliar a representação sindical dos demais trabalhadores do ramo financeiro. Caso essas novas estratégias não sejam bem-sucedidas, a tendência é de continuidade do encolhimento da categoria bancária. 

A campanha salarial deste ano foi marcada por propostas insatisfatórias dos bancos, sobretudo em relação à reivindicação de ganho real acima do INPC. Há relação entre esse processo de reestruturação e a resistência dos bancos em avançar nas reivindicações da categoria bancária?
Uma das consequências da fragmentação e do isolamento dos trabalhadores é justamente o enfraquecimento do movimento sindical. Parte destes trabalhadores são representados por outros e heterogêneos sindicatos, parte deles sequer tem representação sindical pois são autônomos, MEIs, PJs etc. Outra parte está em teletrabalho. Além disso, um percentual cada vez maior das transações financeiras não é realizado nas agências bancárias, mas sim em dispositivos tecnológicos dos próprios clientes. Nesse sentido torna-se muito mais complexo pensar em campanha salarial em estratégias de mobilização, em movimentos grevistas e assim por diante. Novamente é urgente colocar em prática um novo tempo do movimento sindical brasileiro que seja capaz de dar respostas a esse cenário atual de nosso mercado de trabalho. Novas estratégias sindicais serão necessárias para recompor o poder de barganha e retomar uma correlação de forças que garanta campanhas salariais bem sucedidas como  costumam ser as da categoria bancária e que tornaram a CCT da categoria a maior referência do mercado de trabalho brasileiro. 

Por trás do combo da reestruturação está a obsessão dos bancos em aumentar ainda mais suas margens de lucro. O Itaú, por exemplo, registrou lucro de quase R$ 20 bilhões no primeiro semestre deste ano e aposta que dá para avançar mais. O sarrafo das metas está cada vez mais alto e a consequência, como têm apontado as pesquisas, é o adoecimento em massa da categoria, sobretudo o mental. A precarização é uma característica dos não-bancários que atuam no ramo financeiro. Esses trabalhadores ganham menos, trabalham mais e têm menos benefícios porque não têm sindicatos fortes para organizá-los. A tendência é transformar o setor bancário em uma pequena elite de exímios vendedores e empurrar todos os outros serviços e produtos menos valiosos para o fosso do ramo financeiro?
É justamente contra essa tendência que é preciso lutar. A CCT da categoria bancária segue firme e segue se ampliando a cada ano, abarcando temas novos como teletrabalho, combate à violência contra mulher, combate ao assédio moral etc. O grande problema é que essa CCT tem representado um percentual de trabalhadores cada ano menor no ramo financeiro como um todo. O movimento sindical bancário é referência no país, sempre foi vanguarda e certamente será capaz de se reposicionar de maneira a representar o total de trabalhadores que fazem parte da cadeia de valor dos grandes conglomerados financeiros do país.