Na esteira das denúncias de assédio sexual que levaram à queda do então presidente da Caixa Pedro Guimarães, empregados e empregadas do banco estão revelando outros casos semelhantes ocorridos dentro do banco e também a prática de assédio moral, marcas da gestão da empresa estatal no Governo Bolsonaro.
Segundo entrevista com uma gerente da Caixa divulgada no site UOL no dia 4 , “a entrada de Guimarães na chefia do banco trouxe uma naturalização da cultura do assédio”. A bancária afirmou ao UOL: “É como se o gerente que assediava ganhasse uma estrelinha no currículo”. E relatou que quando estava em home office, recebeu um telefonema do chefe e ele introduziu a conversa com a seguinte pergunta: “É algo importante…esses dias de home office, trabalha de calça e blusa normal ou de shortinho e blusinha?”, e depois falou que estava “zoando”.
Assédio moral
A prática de assédio moral também foi denunciada por empregados da Caixa à imprensa. Conforme divulgado no site da CNN Brasil nesta quinta-feira, 7, sete empregados procuraram aquele veículo para “denunciar episódios de posturas abusivas, sobretudo no setor de tecnologia” (Confira depoimentos abaixo).
Segundo o UOL, “uma das servidoras da instituição financeira disse que chegou a apresentar denúncia à corregedoria da empresa por retaliação. De acordo com ela, o pedido era para que os servidores não fizessem denúncias”.
Assédio institucionalizado
O diretor da Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato e empregado da Caixa, Ronan Teixeira (foto ao lado), afirma que o assédio é um ato institucionalizado na Caixa, assim como nos demais bancos. “É algo que está entranhado na sociedade, na cultura do atingimento do hiperlucro, que é a máxima do capital”. Ele lembra que a forma de alcançar as metas para atingir o hiperlucro, as cobranças feitas, tudo isso leva a um modelo de gestão assediador. “Aí entra o assédio moral e também o assédio sexual, que objetifica especialmente as mulheres”, afirma.
Teixeira ressalta que essas práticas estão presentes em qualquer instância e departamento da Caixa. “Esse boom de denúncias mostra que as pessoas assediadas estão minimamente sentindo-se encorajadas umas pelas outras, daí a importância de não se calar. Faz parte do assédio institucionalizado inibir a denúncia, o que precisamos romper para exigir apuração e punição”. O assédio, destaca o diretor do Sindicato, destrói famílias e vidas, podendo levar ao suicídio em casos extremos.
Assediador agradável
O assediador não precisa ser, necessariamente, aquela pessoa rude, pontua Teixeira. “A cultura do grito está menos visível. O assediador já sabe que ele não pode esbravejar. Hoje ele pode ser aquele que confraterniza e é agradável, mas pratica um assédio subjetivo. A prática é tão sutil que o assediado até naturaliza e reproduz algumas ideias, como achar que quem tem função não pode fazer greve, por exemplo. É como se fosse natural o assediador descomissionar alguém por exercer o direito constitucional de greve. Então não precisa ser bronco, indesejável no ambiente. Pode ser uma pessoa agradável e brincalhona e praticar assédio moral e sexual de maneira violenta. Temos que ficar atentos, porque o assédio sexual não pode ser perpetuado por brincadeiras e zoações”.
Apuração já!
A coordenadora geral do Sindicato e aposentada da Caixa, Rita Lima, lembra que a conduta do ex-presidente Pedro Guimarães “se transformou em modelo seguido por gestores no Brasil inteiro, institucionalizando uma gestão de medo e terror e de desrespeito aos empregados e à própria história da Caixa”. E acrescentou: “Exigimos apuração já!”.
Relatos de assédio moral na Caixa
Quatro dos sete empregados da Caixa que denunciaram o assédio moral ao site da CNN aceitaram dar depoimentos para a publicação no site daquele veículo de imprensa e estão reproduzidos abaixo. Foram usados nomes fictícios para a preservação da identidade dos denunciantes. Confira!
“O comportamento que começou a ser adotado na Caixa era o do medo. Quem gritava mais alto mandava. Isso era verificado desde o técnico até o alto escalão. O assédio moral era comum. Era pedir para retirar trechos da ata de reunião e passar mensagens com palavrões, de que as pessoas eram incompetentes. As pessoas não sabiam nem como responder. Muitas mulheres choravam. Era a cultura do medo e ninguém tinha coragem de falar nada. Eu não tive coragem de denunciar antes por medo” (Larissa, 32 anos).
“A cadeia de comando da tecnologia segue linha de assédio moral e não é de hoje. É aplicada uma política do medo e intimidação. Um bom exemplo é a quantidade de descomissionamentos, nunca antes vistos na empresa, que ocorrem desde 2019. Empregados com excelentes currículos e vasta experiência em suas áreas de atuação perderam suas funções e foram enviados para agências bancárias a quilômetros de distância de suas residências, desfalcando e sucateando o setor” (Gabriel, 37 anos).
“Em um atendimento, houve reclamação de um gestor de que não estava funcionando o sistema de vídeo e de áudio do computador dele. O notebook mostrava uma mensagem de segurança. Ele me ligou e disse. ‘Que … de atendimento é esse?’, questionou. “Como é que você acredita na palavra de um usuário? Se ele pedir a …, você vai dar pra ele?” (Guilherme, 43 anos).
“Em uma reunião, um gestor disse aos presentes: ‘Parem de fazer denúncias, p…’. O pré-requisito é obedecer cegamente” (Jussara, 45 anos).








